Para começar a assistir: Cosmos

Para começar a assistir: Cosmos

A segunda temporada de Cosmos está entre nós. Conheça a história da série, originada por Carl Sagan, e agora apresentada por Neil deGrasse Tyson

 

Carl Sagan foi um dos primeiros cientistas pop. Com seus livros e, especialmente, com a série “Cosmos: Uma Viagem Pessoal”, levou a ciência para as pessoas do mundo todo de modo simples, didático e muito interessante.

Carl Sagan - Cosmos

Carl Sagan

Considerada uma das séries científicas mais importantes da televisão mundial, “Cosmos” foi criada e lançada em 1980 e, estima-se, foi assistida por quase meio bilhão de pessoas ao redor do planeta desde sua criação.

Após três décadas da sua estreia, a série voltou a ser exibida em 2014 em “Cosmos: Uma Odisseia no Espaço” – um remake da primeira temporada da série clássica, agora apresentada pelo astrofísico Neil DeGrasse Tyson – um seguidor de Sagan.

Aliás, no final do primeiro episódio da primeira série com Tyson, o cientista transformado em apresentador conta uma tocante história sobre como foi acolhido por Carl Sagan: Neil deGrasse Tyson tinha 17 anos e era, em suas palavras “só um moleque do Bronx” que se inscreveu para a Universidade Cornell. Sem que ele soubesse, os responsáveis pela admissão mandaram sua ficha para Sagan, que era não só uma estrela – autor e apresentador premiado -, como também o diretor do laboratório de estudos planetários da universidade.

Do alto de sua simplicidade, Sagan convidou o tal “moleque” para conhecer o campus, mostrou tudo a Tyson e, ao ver que a neve que caía naquele mês de dezembro poderia impedir o garoto de voltar para casa, deu a ele o seu número de telefone e disse: “Se algo der errado, me ligue que vou te buscar. Você passa a noite com a minha família”.

Neil deGrasse Tyson diz que aquele momento foi decisivo em sua vida, por mostrar como as pessoas deveriam ser tratadas e que a ciência poderia ser acessível a todos. Ele acabou nem estudando em Cornell (passou por Harvard, Universidade do Texas e Columbia), mas a marca de Sagan ficou e Tyson assumiu seu lugar apresentando a nova versão de Cosmos anos depois.

Carl Sagan morreu aos 62 anos, em 1996, de pneumonia, após uma sofrida batalha contra o câncer.

Astrofísica para idiotas

Em “Cosmos”, Carl Sagan levava para a televisão conceitos extremamente complexos, mas que ele simplificava sem nunca perder a precisão científica. Isso incomodava muitos de seus pares acadêmicos, que o acusavam de fazer “ciência popular”, num sentido bastante pejorativo.

A inteligência e o conhecimento de Sagan, entretanto, o garantiam. Independente da popularidade, ele continuava sendo um grande cientista. Mas isso não o impedia de ir além. Por exemplo: entre outros livros, ele escreveu “Contato”, que virou o filme de ficção científica de mesmo nome, estrelado por Jodie Foster e hoje considerado um clássico do gênero.

Um dos elementos mais interessantes criados por Sagan e que continua vivo na versão atual de “Cosmos” é o calendário cósmico, um método criado por ele para visualizar o tempo de vida do universo. Este calendário tem como objetivo abreviar os mais de 13 bilhões de anos de história do universo dentro do período de um ano, sendo o Big Bang no primeiro dia de janeiro, exatamente à meia-noite, e o começo da cultura moderna no dia 31 de dezembro. Entre o primeiro e o último dia do calendário, Sagan inclui outros fatos que marcaram a ciência e humanidade.

Tanto na primeira, quanto na segunda temporada da versão atual, o calendário cósmico é o fio condutor da narrativa, que é ricamente ilustrada por animações tradicionais em 2D, paisagens reais incríveis e cenários criados por computador que reproduzem (ou imaginam) exuberantes fenômenos cósmicos.

Outro ponto de destaque em “Cosmos” é que Sagan, DeGrasse e os roteiristas da série dão vida, nomes e rosto há uma dezena de cientistas que fizeram descobertas importantes para o mundo da ciência, mas que foram esquecidos e não tiveram o reconhecimento devido, em especial as do sexo feminino.

Na primeira temporada da série dos anos 2000, no episódio “As Irmãs Sol”, DeGrasse apresenta Annie Jump Cannon e Henrietta Swan cujos trabalhos foram fundamentais para a atual classificação estelar. No mesmo episódio, conhecemos Cecilia Payne, que foi desacreditada pelo próprio orientador em relação ao trabalho intitulado “Atmosferas Estelares”, que atualmente é considerado um dos principais estudos de astronomia no século XX.

Mundos possíveis

“Cosmos” foi uma ideia de Carl Sagan e de sua esposa na época (ele se casou três vezes), Ann Druyan. Na primeira versão, ela escrevia os roteiros com seu marido. Na versão atual, ela é criadora da série, produtora executiva, diretora e roteirista. Sua visão sobre a produção é um convite a olhar para nosso lugar no universo.

Ann Druyan

Ann Druyan

“Cosmos é muito mais que uma jornada dramática e cinematográfica: esperamos que desperte na audiência a busca sagrada pelo essencial da ciência. O espectador encontrará novos heróis que estavam dispostos a dar suas vidas antes de mentir ou pôr em risco o futuro”, Druyan explica. “Cosmos: Mundos Possíveis é uma visão do futuro que ainda é possível se tivermos a sabedoria e a vontade de reagir e agir de acordo com o que os cientistas nos dizem ”, acrescenta a co-criadora.

Composto por treze episódios que ocorrem em 19 locações em 11 países, “Cosmos: Mundos Possíveis” transporta o público através de uma jornada pela evolução da vida, o universo, átomos e até a análise do futuro que nos espera dentro 20 anos. A nova temporada de “Cosmos” é uma produção da National Geographic, Cosmos Studios e Fuzzy Door que irá ao ar em 172 países do mundo em 43 idiomas pela National Geographic. A temporada anterior foi vista por mais de 135 milhões de pessoas em todo o mundo.

Primeira vista

A convite da National Geographic, assisti ao primeiro episódio de “Mundos Possíveis” e, o que se vê logo de início é que o capricho na produção continua o mesmo, se não ainda melhor. Tyson parece estar ainda mais à vontade no comando da produção, talvez resultado do alívio sentido por ter se livrado de acusações de assédio sexual que quase o tiraram da frente das câmaras.

A young Neanderthal girl kneels at the waterÕs edge as host Neil deGrasse Tyson looks on. Until about 40,000 years ago, our Neanderthal relatives lived very much as we did.

Neil, em ação na nova temporada de Cosmos

Pois é, se você espera que cientistas sejam pessoas retraídas e tímidas, esqueça. Não é o caso aqui. Investigações não comprovaram as acusações contra Tyson e, soltinho, ele flana pela tela interpretando de maneira até surpreendente, considerando que a maior parte do seu trabalho foi feito em frente a uma tela verde, visto que as animações e imagens computadorizadas são a essência da série.

Galaxies make stars, stars make worlds, and for all we know, planets Ñ and moons make life. Does that make life less wondrous? Or more?

A dança dos buracos negros

E não poderia ser diferente. “Mundos Possíveis” já começa mostrando a colisão de dois buracos negros e como as ondas gravitacionais geradas por esse fenômeno afetariam o tempo e o espaço. Desse ponto de partida, em pouco mais de 40 minutos somos apresentados à filosofia e teologia de Spinoza, à teoria da evolução, ao Iluminismo, além de conhecermos cientistas históricos muito pouco comentados, como Christiaan Huygens, que descobriu, entre outras coisas, os anéis de Saturno e a grande lua daquele planeta, Titã.

O ar épico, grandiloquente, está sempre presente. Isso pode ser visto na trilha sonora, que eleva no espectador a sensação de tensão e expectativa. “Cosmos” é criada para dar frio na barriga e, quanto maior sua TV, mais bonita fica a série. Ainda que esteja disponível no Fox Play, não veja no computador e menos ainda no celular. Sinta a emoção na tela grande, valorizando o conteúdo tão rico.

O que faz de “Cosmos” algo único é a capacidade de mostrar conhecimento técnico-científico de forma divertida, se tornando um entretenimento de primeira categoria. E, acima de tudo, fazer questão de apresentar a constante dicotomia entre a nossa insignificância frente ao universo e, o potencial infinito da inventividade e inteligência humana.

Onde assistir
Cosmos – Mundos Possíveis
Na TV: National Geographic
Na web: Fox Play
Episódios novos todos os sábados, às 22h30

Para saber mais (livros de Carl Sagan):

Cosmos – o livro

O Universo assombrado por demônios
 

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).