Super-Heróis: A Batalha sem Fim

Super-Heróis: A Batalha sem Fim

Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades

Muitos aqui devem ter como uma das lembranças mais marcantes da tenra juventude suas coleções de gibis. Amontoados em algum canto da casa – em caixas, num quartinho ou num armário – , nossa vasta e inestimável coleção vez ou outra se tornava alvo de perseguições por parte das nossas mães, que reclamavam: “Menino… e esse monte de gibis aqui? Quando você vai se livrar dessa tralha? Que papelada velha, amontoada e cheia de mofo! Não aguento mais essa bagunça… e você vai acabar ficando alérgico com esse monte de papel no seu quarto…”

Sempre visando nosso conforto, nossa saúde ou simplesmente querendo manter a organização da lar, nossas mães nunca compreenderam que aqueles gibis amontoados eram muito mais do que tralhas ou leitura descartável, infantil e sem importância: gibis eram portais que nos transportavam pra um mundo incrível – cheio de perigos, é verdade, mas também farto de esperanças, bons exemplos, heroísmo, tolerância e otimismo. Hoje, aos quase 42 anos de vida terrestre, admito que muitas vezes deixei de fazer alguma besteira porque imaginava que o Homem-Aranha jamais faria aquilo. Essa influência também servia pra um bem maior – como nas vezes em que, no colégio ou na rua, defendi uma menina, um garoto menor ou um inocente animalzinho da crueldade e abuso juvenis. “O Homem-Aranha ou o Batman, no meu lugar, fariam o mesmo!”. Portanto, asseguro que além da ótima educação que recebi dos meus pais, tais valores foram assimilados por mim também através da conduta daqueles super-heróis incríveis – que até esse exato momento em que vos escrevo, continuam (e continuarão!) a me inspirar e me emocionar.

Peter Parker era um nerd órfão e pobretão. Criado pela tia já idosa e aposentada, trabalhava  pra contribuir com as contas do lar mas ganhava muito pouco e vivia sem um tostão. Então, com incríveis poderes recém adquiridos através da picada de uma aranha radioativa, ele bem que poderia utilizar sua força e habilidades aracnídeas pra descolar um troco de maneira mais “informal”, não? De jeito nenhum! Ele aprendeu de forma trágica que tantos poderes (que teoricamente o protegeriam de punições caso ele infringisse alguma lei) teriam que ser administrados com grande responsabilidade e sem qualquer compensação financeira. Com os X-Men, aprendi que diferenças devem ser aceitas pois elas não definem o caráter ou a índole de alguém.

Captaram a mensagem? Eu captei… e já comecei a captar com apenas 6 anos de idade.

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Eis que vasculhando a grade de lançamentos do Netflix me deparo com o belíssimo ‘Super-Heróis: A Batalha sem Fim‘ (2013). Produzido pelo canal americano PBS (em parceria com a BBC), o programa já tinha sido exibido por aqui através do canal pago Film&Arts, há alguns anos. Dividido em 3 episódios que acompanham em ordem cronológica o surgimento dos super-heróis e seu desenvolvimento nos quadrinhos e em diversas mídias com o passar das décadas,  o documentário é além de tudo uma aula de História da América contemporânea e da própria cultura pop.

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O primeiro episódio tem como foco inicial o surgimento do Superman em 1938 e como ele foi uma pedra fundamental na criação desse mundo imaginário – tão incrível que quase chega a ser palpável e que hoje podemos considerar uma espécie de mitologia moderna. O Superman nasceu da mente criativa dos amigos Jerry Siegel e Joe Shuster, dois quadrinistas jovens e franzinos de origem judaica que viam em sua poderosa criação uma resposta (ou uma espécie de “vingança”) às constantes perseguições que sofreram pelos vizinhos mais fortes. Logo em seguida vieram Batman (um sucesso imediato), Lanterna Verde, Flash… Eram os anos da terrível Depressão Econômica nos Estados Unidos e com a criação desses personagens, os artistas também auxiliaram, de certa forma, o ressurgimento da esperança e da autoconfiança do cidadão comum – que eles podiam adquirir por valores pra lá de modestos. A luta feminina por igualdade na sociedade americana resultou no surgimento da Mulher-Maravilha. Numa época extremamente machista e retrógrada, a icônica heroína foi idealizada pelo Dr. William Moulton Marston, um notório psicólogo americano e defensor dos direitos das mulheres.

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O medo e a incerteza diante da Segunda Guerra deram origem ao Capitão América, que representava o otimismo, o patriotismo e também serviu de estímulo, inspiração e até como uma boa distração pras tropas americanas no front.tumblr_m6n6509ZKS1ryu0pzo1_1280

amazing-fantasy-15-cover-kirby-spidermanO segundo episódio intitulado ‘Grande Poder, Grande Responsabilidade‘ começa falando sobre “você sabe quem” e como o medo da Era Atômica e a Corrida Espacial foram responsáveis, na primeira metade da década de 1960, pelo surto de criatividade de Stan Lee & cia que resultou no surgimento do nosso querido teioso escalador de paredes, do Quarteto Fantástico, do Incrível Hulk, dos mutantes X-Men… O assassinato do carismático presidente JFK trouxe de volta, como uma espécie de alento aos leitores desolados com tamanha perda, o Capitão América (literalmente no gelo desde o fim da Segunda Guerra Mundial), que foi imediatamente incluído ao recém criado grupo Os Vingadores da Marvel Comics ao lado dos heróis Homem de FerroThor, Vespa e Gigante.  Os escritores aproveitavam a onda do momento e encaixavam seus antigos heróis no contexto atual ou criavam outros diante de novos panoramas políticos, sociais ou culturais. Batman e Robin ganharam contornos pop art em tom pastelão no cômico seriado televisivo ‘Batman‘ em 1966. A aura psicodélica, o colorido e o clima lisérgico da segunda metade de década de 1960 inspiraram a criação do Doutor Estranho e do Surfista Prateado. Pantera Negra e Luke Cage, os primeiros super-heróis negros, surgiram na onda dos filmes blaxploitation e também se tornaram símbolos da luta de grupos afro-americanos por seus direitos civis. O crescente surto de violência das grandes cidades como Nova York deu origem ao Justiceiro – um anti-herói, que em vez de enviar os criminosos pra cadeia, mandava-os direto pro cemitério.

O terceiro episódio começa com o Superman vivido pelo inigualável Christopher Reeve surgindo nas telonas em 1978 pra fazer o mundo acreditar que o homem podia voar.  A seguir, veio a inevitável expansão desse incrível mundo quadrinístico para muito além das páginas dos gibis – através dos seriados de TV, das animações, dos bilionários blockbusters, dos jogos de video game… Hoje em dia, tal reverência e adoração por esses míticos seres deixou pra trás, muito pra trás, aquele caduco conceito de que “super-heróis são coisa pra criança”. Um bom exemplo é o presidente americano Barack Obama – um dos homens mas poderosos e influentes do planeta – confessando pra uma turma de crianças pequenas de um colégio infantil que é fã do Homem-Aranha e do Batman.

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O série/documentário tem narração e apresentação do ator Liev Schreiber (o Dentes de Sabre daquele filminho do Wolverine) e conta com depoimentos do próprio Stan Lee, de Adam West e Lynda Carter (respectivamente o Batman e a Mulher-Maravilha das séries televisivas) e de artistas renomados como Mark Waid, Frank MillerGrant Morrison, Alan Moore, Neil Adams, Joe Quesada e Jim Steranko, dentre outros.

E a infindável batalha dos heróis da ficção contra o mal em todas as suas formas e a boa influência que eles exercem no nosso mundo continua… e sempre será muito bem vinda!

Viva essa experiência. Onde? Ora, tem no Netflix!