Patti Cakes, Nola Darling e porque nenhum embuste pode te impedir de seguir o baile

Patti Cakes, Nola Darling e porque nenhum embuste pode te impedir de seguir o baile

Aviso aos navegantes: esse texto contém altas doses de ironia e feminismo. E aí, atura ou surta?

 

 

2017 foi um grande ano para as mulheres na indústria do entretenimento. Para o bem e para o mal. Foi o ano que um filme de quadrinhos fez garotas e senhoras se sentirem heroínas. E também foi o ano em que uma série deu frio na espinha só de especular o que acontece quando o machismo olha para os limites e fala: “limites kkk”.

 

Há quem acredite que pouco faz sentido ser entusiasta de obras como Mulher-Maravilha e The Handmaid’s Tale, afinal elas são concebidas em Hollywood. É que a “indústria dos sonhos” implodiu este ano atingida por uma bombástica sequência de denúncias de assédio e esfregou o chorume bem na cara da sociedade. O horror, o horror. Depois disso, ficou mais difícil relaxar no cinema ou no streaming sabendo da quantidade de manas trabalhadoras que enfrentaram algum abuso para você poder apertar o play.

 

Teria sido um fim triste para um ano feliz de protagonismo feminino nas telas, mas duas produções chegaram ao público em dezembro, para reforçar que não é preciso ter superpoderes para estar no comando da sua vida. E se você estava em Themiscira ou Gilead e não aprendeu nada sobre dar valor para o que você conquista, o último bonde com destino para a autoestima está partindo e está na hora de pegar um carona com Patti Cake$ e Nola Darling.

 

Patti Cake$ (Danielle Macdonald) é o nome artístico de Patricia Dambrowski,  uma jovem pobre de New Jersey. Ela dá nome ao longa aclamado no Festival de Sundance e que acaba de chegar aos cinemas do Brasil. Prodígio do improviso, Patti é a típica mina de fé das periferias. Trabalha em dois empregos para ajudar em casa, cuida da avó e sonha em ser rapper, mas só faz as rimas nas horas vagas.

 

 

Determinada feito uma Anitta em carreira internacional, Patti consegue gravar uma demo. E não é só isso. A miga dá seus pulos e chega a mostrar o som para seu maior ídolo, um tal de O.Z., que é tipo um midas do rap.

 

Alerta macho escroto passando vergonha na sua timeline. O.Z. manda Patti parar com essa palhaçada de fazer rap, porque “não é coisa de mulher, muito menos de mulher branca e gorda”. Melhor investir no maravilhoso job de servir drinks para homens como ele. Patti, compra a crítica e embarca na bad trip da frustração.

 

Ela PODE tudo

Corta para a Netflix. A série é Ela Quer Tudo, a protagonista é Nola Darling (DeWand Wise). O contexto é outro, a história é a mesma. Desconstruidona da porra, Nola é uma pintora hipster tentando viver de arte no Brooklin.

 

Ela é convidada para integrar uma exposição com outros artistas negros. Um comentarista posta uma resenha da mostra na internet e detona Nola. Diz que a obra dela não reflete o que é ser uma mulher negra livre. A personagem chega a refletir sobre o absurdo que é um homem branco quase centenário achar que pode cagar essa regra, mas o estrago é inevitável. Como Patti, ela também entra numa crise existencial.

 

 

Por mais que a gente saiba que chegar no fundo do poço faz parte do clímax da ficção – tem até um termo para isso, chama “jornada do herói” – não deixa de ser irritante ver que a trajetória da heroína é sempre esse mais do mesmo.

 

Longe de mim criticar os roteiristas, tenho até amigos que são. O problema é da vida real e se repete em looping eterno. Existe um termo para isso também, chama “machismo estrutural”. Famosas ou anônimas, reais ou imaginárias, mulheres brilhantes que não precisam provar nada para ninguém se deixam diminuir o tempo todo.

 

A youtuber Mari Zen fez um vídeo ótimo sobre o tema, usando a gênia Janis Joplin como exemplo de alguém que ouviu algo negativo na infância e levou aquilo para a vida inteira.

 

 

The Handmaid’s Tale, série baseada em um livro escrito em 1970 tem uma mensagem muito poderosa e atual sobre não deixar que gente esquisita bagunce sua sanidade. Nolites Te Bastardes Carborundorum. Significa “não deixe que os bastardos te reduzam às cinzas” ou, em português bem claro e moderno, “nenhum embuste pode te impedir de seguir o baile”. Quem concorda respira.

 

 

Jornalista. Tem mais horas de séries do que de voo.

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