Okja, mais uma pancada de Bong Joon-Ho

Okja, mais uma pancada de Bong Joon-Ho

No seu segundo filme em Hollywood, o sul-coreano Bong Joon-Ho cria uma fábula para discutir até que ponto os animais devem servir aos seres humanos

 

O sul-coreano Bong Joon-Ho é um dos diretores atualmente mais preocupados com os efeitos do ser humano sobre o planeta. E demonstra isso nas suas duas incursões por Hollywood, primeiro com o ótimo Expresso do Amanhã e, mais recentemente com Okja, que estreou no festival de Cannes e, poucas semanas depois, chega à Netflix.

 

Enquanto no primeiro filme Joon-Ho traz um microuniverso dentro de um trem para demonstrar o funcionamento em casta que condiz com praticamente todas as sociedades do mundo, agora ele cria uma pequena fábula para escancarar o fato de que quase todas as decisões humanas são guiadas pelo materialismo e pelo individualismo, mas, mantém acesa aquela faísca de esperança, que só poderia ser representada por uma criança.

A trama

Como em toda fábula, a história por trás é a mais real possível. O filme começa em 2007, quando Lucy Mirando (Tilda Swinton) reúne a imprensa para, de maneira bem animada, demonstrar a guinada que sua corporação multinacional está empreendendo agora que ela assumiu o posto de CEO, retirando sua irmã, Nancy, do comando. É uma empresa agropecuária que ficou conhecida no passado pela crueldade do seu pai e, agora, passa a ter como valores “a vida e o meio ambiente” e desenvolve uma raça de superporcos que, por serem ambientalmente eficientes, resolveriam o problema da falta de comida no mundo. A empresa pegou os 26 filhotes que criou e enviou a fazendeiros em 26 países para que fossem criados da maneira local. Dez anos depois, um concurso seria realizado para definir o melhor desses animais.

Lucy Mirando (Swinton) apresenta as novidades de sua empresa. Destaque para o aparelho nos dentes.

 

E aí já vemos uma das marcas dos filmes de Joon-Ho, que também é roteirista, juntamente com Jon Ronson: a dualidade. Se por um lado a preocupação com a escassez de alimentos diante da população crescente do planeta é mais do que legítima, respeito à vida e uma competição com base nela não são coisas que combinam. E esse incômodo do conflito entre temas é constante durante o filme.

 

Passados dez anos, chega o momento do grande concurso e a Mirando vai em busca dos animais para serem exibidos nos Estados Unidos. E nós vamos para “um lugar longe de Nova York”, em uma região montanhosa da Coreia do Sul, para conhecer a pequena Mikha (An Seo Hyun. O nome original é Mija, trocado no Brasil por razões óbvias) e sua inseparável companheira: a superporca Okja. E Joon-Ho não economiza para nos fazer abraçar o relacionamento das duas, que convivem com uma cumplicidade e uma naturalidade impressionantes, considerando que Okja é praticamente toda feita por computação gráfica. Aliás, a jovem An Seo Hyun é uma bela escolha. Sem falar muito, até porque em boa parte do filme interage com pessoas que não falam a língua dela, consegue passar sentimentos de perseverança, coragem, entrega e ingenuidade durante a jornada para recuperar sua amiga. Ela até usa uma pochete, uma espécie de “bat-cinto”, da qual se desfaz após encerrar sua batalha, demonstrando que é a única personagem no filme realmente apenas preocupada com os animais.

 

Já Okja é um animal curioso. Na essência, é uma porca, mas a feição amenizada faz com que pareça um hipopótamo, ao mesmo tempo em que o comportamento é mais o de um cachorro. E acima de tudo isso, é extremamente inteligente (toda a raça, aliás, como vemos em uma sequência tocante já perto do fim do filme), ao ponto de parecer estar literalmente conversando com Mikha em alguns momentos.

 

Tilda Swinton está muito bem como uma mulher que age e se veste (quase sempre de rosa) como uma criança. Até por isso é facilmente manipulada por Frank Dawson, personagem de Giancarlo Esposito e que, pela frieza e calculismo, lembra o vilão Gus Fring, que ele interpreta nas séries Breaking Bad e Better Call Saul. Paul Dano também constrói de maneira interessante o seu Jay, um ativista extremista que age em favor dos animais e se recusa a machucar qualquer ser vivo, ao mesmo tempo em que vai até as últimas consequências para defender o credo do seu grupo, a Frente de Liberação de Animais (FLA). Mais uma vez, a dualidade. Quem se destoa do afiado elenco é o sempre competente Jake Gyllenhaal. Não que o seu personagem, o “amante de animais” Johnny Wilcox, ofereça muito, mas a performance do ator é exagerada, um pouco acima do tom.

A Frente de Liberação de Animais em ação.

 

Capaz de fazer refletir e emocionar enquanto mescla o humor sul coreano com a grandiosidade de Hollywood, Okja tem ótimos momentos cômicos – que incluem gags visuais, como a recriação da cena de Barack Obama na sala de controle acompanhando a operação de Bin Laden, além de piadas envolvendo os idiomas inglês e coreano – e de ação, que são beneficiados pela trilha sonora que envolve todas as sequências de maneira bem competente. E Joon-Ho também sabe bem onde posicionar sua câmera para mostrar quadros belos como os naturais na Coreia; funcionais, como o momento em que faz uma correlação entre seres humanos indo para o metrô com porcos em direção ao abate, ou como aquele de um personagem visto minúsculo de cima, na esquerda da tela, após ter cometido um ato de maldade gratuita.

 

Todos esses elementos também se beneficiam da fotografia, de Darius Khondji (o mesmo de Z – A Cidade Perdida), que contrasta as cores vivas das montanhas com o cinza das cidades, que é interrompido apenas pela pequena Mikha e suas roupas vermelhas, o que demonstra, ao mesmo tempo, como ela destoa daquele mundo e como alguém como ela é necessário por lá.

 

Okja, a superporca, não é de verdade, mas vem para apontar realidades que são mais do que evidentes. E, ao contrário daquela aparentemente deliciosa carne, não são nada fáceis de engolir.

 

Obs: o filme tem uma cena pós-créditos.

 

Obs. 2: Expresso do Amanhã, o filme anterior de Bong Joon-Ho, também está na Netflix.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.