Hardcore: Missão Extrema

Hardcore: Missão Extrema

Jogo ou filme? Hardcore: Missão Extrema é uma interessante experiência narrativa

Jogos de vídeo-game são produções com realização cada vez melhor. As histórias têm sido bem mais trabalhadas – têm roteiristas – e as aventuras podem ser ricas em narrativa (The Last of Us é um bom exemplo). Não raro, termina-se o jogo pensando “isso daria um bom filme”. E muitos games acabam indo mesmo para o cinema.

O caminho contrário também ocorre, há muitos jogos saídos de filmes. Hardcore: Missão Extrema, segundo longa do diretor russo Ilya Naishuller, não está exatamente nessa condição, mas conversa diretamente com fãs de vídeo-game.

 

O filme já parte de um pressuposto bem diferente: é totalmente narrado em primeira pessoa – para os gamers, é um FPS (First Person Shooter) -, desde a cena inicial, quando Henry, ainda criança, sofre bullying de outros três garotos. Passados os créditos, que são uma atração à parte, trazendo uma série de planos detalhes de pessoas sendo assassinadas, chegamos ao presente, no qual, pelos olhos de Henry, vemos o corpo do protagonista sendo remontado por uma cientista que diz ser sua esposa, mas à qual ele não reconhece, afinal, sua parte robótica não está totalmente configurada. Aliás, Henry ainda não teve seu modo de fala acionado, o que torna a experiência mais imersiva. Com visão em primeira pessoa, acompanhando um protagonista sem memórias (portanto, vivendo tudo aquilo pela primeira vez) e sem ouvir uma voz diferente da sua, o telespectador acaba se colocando mais dentro do personagem.

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Seguindo um pouco mais a trama, conhecemos o vilão, um tipo rico e excêntrico que busca utilizar a tecnologia usada em Henry para criar um exército de robôs. Além disso, ele tem consigo um pouco da “força”, podendo usar de telecinese para mover objetos e pessoas. Você, jogador, já imagina o embate com o chefão final do jogo?

Hardcore mesmo!

Hardcore mesmo!

Henry, então, consegue fugir do laboratório e começa a ser perseguido. A partir daí, o que vemos em tela é puro vídeo game, com ambientes e situações que lembram GTA; bastante parkour e missões como perseguições de carro em que é preciso dar conta dos veículos inimigos ao redor, ou aquelas em que é necessário proteger um personagem do ponto A ao B… Tem até o estilo Call of Duty, FPS no qual o jogador acompanha alguém para realizar missões (e gastar o gatilho contra os inimigos pelo caminho). E o personagem recorrente que interage com Henry em boa parte do filme (um NPC, gamers entenderão) oferece momentos bem divertidos.

 

Cinema não é video-game

 

Mas é importante lembrar que cinema não é vídeo-game e as características de cada um devem ser observadas. Assim, se por um lado Naishuller pôde usar de ângulos inusitados com a sua câmera subjetiva, por outro, o excesso de movimento – afinal, este é um filme de (muita) ação – gera incômodo em alguns momentos. O mesmo não se pode dizer da violência, que chega a ser bastante gráfica, mas se beneficia do humor, que contrapõe a simplicidade e obviedade do roteiro, escrito pelo próprio Naishuller, com colaboração de Will Stewart.

 

Hardcore: Missão Extrema é um experimento narrativo diferente e bem realizado, que, no final, é divertido para o espectador em geral. Já o gamer, vai estar pensando “isso daria um bom jogo”.

 

 

marcaoMarcus Vinícius Benedicto Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.