A roupa de humano de Donnie Darko

A roupa de humano de Donnie Darko
Donnie: “Por que você está vestindo esta estúpida roupa de coelho?”
Frank: “Por que você está vestindo esta estúpida roupa de humano?”.

Em outubro de 2001, Donnie Darko foi lançado nos cinemas norte-americanos. A trama rocambolesca, extremamente reflexiva e pra lá de complicada não colou muito naquele momento pois o público de lá tava querendo mais “diversão descomplicada” e filmes como O Senhor dos Anéis, Shrek, Onze Homens e um Segredo, Monstros S.A., Velozes e Furiosos e O Diário de Bridget Jones se tornaram alguns dos maiores sucessos daquele ano. Além disso, os EUA passavam por um período muito tenso devido aos atentados de 11 de setembro e aí é que não rolou mesmo.

Apesar de não ter se tornado um sucesso comercial na América, Donnie Darko foi muitíssimo bem aceito pelos cinéfilos da Grã-Bretanha e recebeu premiações em alguns festivais importantes. A partir daí, o boca-a-boca terminou o serviço: o longa do diretor Richard Kelly alcançou o status de cult e hoje é celebrado como um dos mais significativos representantes entre os filmes sci-fi, de fantasia, de mistério, de suspense e até de terror pois possui elementos de todos esses gêneros e mais alguns.

Definir Donnie Darko é complicado: digamos que é algo como se David Lynch e John Hughes tivessem resolvido se unir pra adaptarem pras telonas, de forma conjunta, algum conto sombrio de Stephen King num filme produzido por Steven Spielberg. É mais ou menos isso.

A trama se passa em outubro de 1988, na cidade de Middlesex, EUA. O protagonista Donnie (Jake Gyllenhaal – excelente!) é um jovem problemático, esquizofrênico e inteligentíssimo que vive às turras com a família – principalmente com mãe e a irmã mais velha – e é submetido a uma rigorosa terapia. Até aí, nada de tão anormal… até uma noite em que ele passa a ser assombrado por uma misteriosa entidade que veste uma macabra fantasia de coelho. A criatura que se denomina Frank o faz se levantar da cama e sair de casa no meio da madrugada pra revelar em seguida que em 28 dias o mundo vai acabar. Porém, até lá o garoto precisa seguir suas recomendações e pistas pra que algumas coisas sejam acertadas. Quando volta pra casa na manhã seguinte, ele descobre que sua vida foi salva por Frank pois justamente naquelas horas em que esteve fora, uma turbina de avião – de origem desconhecida – caiu em cima de sua casa, destruindo completamente o quarto em que ele deveria estar dormindo. A partir daí, Donnie vivencia experiências fantásticas – que envolvem viagens no tempo e os misteriosos buracos de minhoca – enquanto frequenta suas sessões de terapia, comete atos de vandalismo na escola (influenciados pelo coelho sinistro), se mete em brigas e se apaixona por uma bonita e meiga garota de sua classe. Tudo isso acontece enquanto ele e sua turma de amigos se preparam pra uma tradicional festa de Halloween que deve acontecer às vésperas do fatídico momento em que o mundo deverá ir pras cucuias.  

Além de todos esses elementos fantásticos, o filme aborda a difícil fase da juventude e temas religiosos, sexuais e científicos – como na sequência em que Donnie debate com seu professor de Física a possibilidade da viagem no tempo tendo como base os estudos e a obra de Stephen Hawking... 

O elenco também conta com nomes como Drew Barrymore (também produtora do filme), Patrick Swayze (ótimo!), Maggie Gyllenhaal (irmã de Jake no filme e na vida real), Noah Wyle, Jena Malone e Mary McDonnell. Outro destaque: a irmã mais nova de Donnie é interpretada por Daveigh Chase – também conhecida como a Samara Morgan de “O Chamado”.

Por fim, não poderia deixar de citar a cereja do bolo: a incrível trilha sonora que inclui clássicos oitentistas como “Head Over Heels” (Tears For Fears), “Notorious” (Duran Duran), “Love Will Tear Us Apart” (Joy Division), uma versão de arrepiar de “Mad World” (do Tears For Fears, aqui interpretada por Gary Jules) e a emblemática, soturna e bela “The Killing Moon” – maior sucesso do Echo & the Bunnymen.

12299828_920668788012369_187432888_oAté hoje, 14 anos após seu lançamento, Donnie Darko é um dos meus filmes preferidos e vez ou outra me faz refletir sobre vários aspectos e mistérios da vida e do universo e também buscar novas soluções pros seus enigmas. Confesso que passei um tempo meio “de birra” com esse filme porque ele virou uma espécie de unanimidade entre os moderninhos e foi envolvido por uma onda hipster que chegava a irritar. Mas há alguns meses comprei o blu-ray – que também inclui uma versão do diretor – e fui fisgado novamente.

Essa versão do diretor, mais sci-fi do que filosófico, inclui cenas que dão uma direção a mais pra quem não entendeu muito bem a versão que rolou nos cinemas ou foi assistido em home video nos anos seguintes. Eu prefiro a versão mais filosófica, a do cinema… e querem saber da boa? Tem no Netflix!