Rápida demais, versão de Death Note para o Netflix é decepcionante

Rápida demais, versão de Death Note para o Netflix é decepcionante

Um dos animes mais interessantes dos últimos anos chegou em versão live action ao ocidente pelas mãos da Netflix. Mas, algo deu errado no caminho

 

Death Note, um mangá e um anime do Japão, é praticamente como uma partida de xadrez disputada pelos melhores jogadores do mundo. Então, a notícia de que a Netflix iria produzir a tão aguardada versão live action ocidental da história (no oriente já foi realizada uma série de filmes) era animadora. Mas, a realidade não é bem essa.

 

Na história, basicamente acompanhamos Light (Nat Wolff), que é um dos melhores alunos do colégio e tem sua vida mudada quando, um dia, pega um caderno que vê cair do céu, o Death Note. O objeto é acompanhado de um deus da morte, Ryuk (voz de Willem Dafoe), que é uma espécie de guardião dele, amante de maçãs e responsável por explicar como funciona o caderno que mata aqueles que tiverem seus nomes escritos em suas páginas. Em pouco tempo, Light começa a matar criminosos em série e se torna uma espécie de justiceiro que junta adoradores mundo afora, conhecido como Kira. Sem conseguir descobrir sua identidade, as autoridades recorrem ao jovem e brilhante investigador independente chamado de “L” (Lakeith Stanfield), famoso por solucionar grandes e complicados casos. A partir daí, Light e L protagonizam uma série de embates, disputando quem faz a jogada mais genial, um tentando desmascarar, o outro tentando se manter no anonimato. Mas, não vemos quase nada disso no filme.

L e Light na escuridão e no único confronto que protagonizam no filme.

 

Diferenças grandes

O anime, com seus 37 episódios, é um tanto longo, mas toma o tempo necessário para esmiuçar as regras do Death Note e, principalmente, as personalidades e motivações dos personagens. O filme não tem tempo para isso, vemos poucas das regras e algumas das mais importantes nem são citadas. Acontece que, de alguma forma, as consequências dessas regras precisavam aparecer e o resultado é um roteiro que corre, dá saltos que devem ser difíceis de compreender para quem não conhece o anime, tenta surpreender com situações óbvias e deixa uma série de buracos pelo caminho. Fica um tanto injustificável, por exemplo, a mudança da narrativa de um continente para outro na história. Assim como é difícil aceitar a maioria das ações do protagonista Light e é esse o maior problema da adaptação: o tom.

 

Se o diretor Adam Wingard e os roteiristas Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater assumissem que o filme é sobre o universo de Death Note e não uma adaptação direta, seria mais compreensível. Além de terem transformado uma história policial cerebral em um romance adolescente mergulhado em gore e que lembra a série Premonição, nenhum dos personagens foi trazido corretamente do original. Light passa de um jovem inteligente e que nunca questionou seu grande objetivo para um nerd inseguro e manipulável. L vai de um rapaz extremamente focado e com o comando da situação para alguém histérico, descontrolado e impulsivo. E as personagens femininas do anime, que com personalidades distintas criam um interessante triângulo com Light, foram condensadas em uma, Mia (Margaret Qualley), que acabou absorvendo características que deveriam ser do protagonista e acaba soando apenas como uma garota interesseira e manipuladora.

Ryuk levando sua desagradável companhia a um assustado Light.

 

Visualmente, este Death Note também deixa a desejar, não pela ocidentalização do elenco, o que foi alvo de reclamações durante a produção, mas pelas escolhas de Wingard e do diretor de fotografia David Tattersall, que deixa o filme bem escuro, especialmente quando Ryuk está em cena (e o CG do deus da morte também não é dos melhores).

 

Então, não tem nada de bom? Sim, como um filme de terror, até que há méritos. O próprio Ryuk de Dafoe, ainda que com uma personalidade bem diferente do original, na maior parte do tempo consegue transmitir uma atmosfera ameaçadora. E, quando chega no fim, o filme traz uma sequência de eventos que remetem ao clima do original. Mas, é pouco e já tarde demais. Death Note ainda precisa de uma boa adaptação por estes lados.

 

Obs.: Por curiosidade, veja os momentos em que Light conhece Ryuk no filme e no anime (em inglês).

 

Obs. 2: o anime também está disponível na Netflix.

 

Para conhecer o original

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.