Singular e expansivo: o novo desafio do Astronauta

Singular e expansivo: o novo desafio do Astronauta

Quando analisei a primeira edição de Astronauta, dentro da série Graphic MSP, disse que um dos problemas era justamente a falta de notícias sobre uma continuação. Bem, não poderia ser melhor o resultado desse segundo álbum. Se Magnetar tinha um problema de ritmo, terminando de maneira abrupta, Singularidade é uma obra exemplar de Sci-Fi e aventura.

A impressão ao ler é de que Danilo Beyruth está muito mais à vontade com o personagem e com o universo (agora expandido, com mais personagens) do Astronauta. Neste segundo volume, a história começa logo após os eventos do primeiro, com nosso querido Astro sendo analisado, após ter sido resgatado à deriva no espaço.

Mas, mesmo sem estar completamente recuperado, Astro e sua nave em forma de bola são requisitados para investigar um buraco negro – uma singularidade – em parceria com um major de um país aliado ao Brasil.

Cabe aqui um parênteses interessante. É muito bacana ver como o Brasil é um elemento presente nas Graphic MSP, série da qual faz parte Astronauta. Em Piteco – Ingá acontece o mesmo. E é um Brasil bacana, do qual podemos nos orgulhar.

Em Astronauta, trata-se do futuro, no qual nosso país tem até um real e prodigioso programa espacial não-militar. Para quem, como eu, cresceu e se habituou a ler sobre heróis de várias nacionalidades, especialmente norte-americanos, essa mudança de cenário – especialmente quando mostrada de maneira tão natural e positiva – é uma surpresa das mais agradáveis. É o toque “mauriciano” num álbum adulto de aventura: a esperança e a crença em dias melhores permeia toda a narrativa.

Nesse sentido, Singularidade poderia facilmente fazer um salto transmidiático e transformar-se num blockbuster de sucesso mundial. Tudo que se espera de um bom filme de ação está ali: a surpresa, o interesse amoroso do herói e as dificuldades inerentes a esse tipo de situação, o mistério, a traição e a vilania.Astronauta-Singularidade-preview-6

O álbum, aliás, parece ter sido escrito no esquema Syd Field de roteiro, dividido claramente em três atos, mas com um final modulado com duas conclusões, mostrando qual era a real ameaça o tempo todo.

Evidentemente não vou dar spoiler, então leia (mas leia mesmo) para saber o que mais Astro enfrenta. Mas posso dizer que majores que usam roupa preta e são mal-encarados nunca trazem coisas boas consigo. E que brincar com buraco negro não é das coisas mais simples…

Em outra camada da narrativa, Singularidade discute também o uso das descobertas científicas e os limites éticos que pesquisadores e cientistas devem ou não ultrapassar, questões que permeiam a Ciência há séculos e que, neste caso, trazem reminiscências de Einstein e do Projeto Manhattan. Se algo em alguma medida bom puder ser transformado em uma arma, isso deve existir? É esse um dos dilemas propostos na obra.

Mas essa análise é uma extrapolação, algo que complementa uma obra, com o perdão do trocadilho, singular. Pois trata-se de uma das melhores HQs nacionais de ficção científica e aventura de todos os tempos. O storytelling de Beyruth está no ápice aqui. A construção das páginas e, especialmente, as cenas de batalha, possuem uma riqueza emocional – Astronauta-Singularidade-preview-3reforçada pelo inteligente uso de zoom in e zoom out – que em nada deve a qualquer grande obra estrangeira.

Isso sem falar na suavidade e, ainda que possa parecer contraditório, a força das cores de Chris Peter que fazem a ação saltar da página e bater na cara do leitor numa pulsação constante e precisa.

Magnetar era mais filosófico e agradava mais quem está acostumado com HQs autorais e independentes ou mesmo álbuns europeus. Singularidade não. Esse os marvetes e os decenautas fanáticos podem ler com tranquilidade, é um quadrinho direto, porém grandioso. E, principalmente, muito bem feito, em todos os sentidos.

Se este segundo álbum é exemplo do que pode acontecer, que venham o terceiro, o quarto e tantos mais Beyruth, o editor Sidney Gusman e o mestre Maurício de Sousa conseguirem mandar. Afinal, como é dito na HQ, “[…] Astronauta é perfeito para desempenhar seu trabalho como explorador espacial”. E em tempos em que a Terra parece girar na rotação errada, nada melhor do que olhar para o alto e avante.

Astronauta – Singularidade
Panini Comics – Estúdios Maurício de Sousa
Escrito e desenhado por Danilo Beyruth, Cores por Chris Peter
82 páginas – R$ 19,90 (capa mole)

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

2 Comentários

  1. […] da HQ nacional tem usado sua influência e entrada junto a um enorme público para fazer trabalhos fora da caixinha e também levantar alguns temas bastante […]

  2. […] não conhece, Sidney é editor da Mauricio de Sousa Produções, idealizador, entre outras, das Graphic MSP, linha de quadrinhos especiais feitos por diversos autores a partir dos personagens de Maurício de […]

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