Seduzido pelo demônio

Seduzido pelo demônio

Ok, então acabei de assistir ao primeiro episódio de “Demolidor” no Netflix e… Simplesmente estou abismado.

Seriados de super-heróis não são novidade. Existem desde as versões para o cinema de Batman, Capitão Marvel, Superman e Capitão América, na década de 1940, e desde lá já se faz o esquema de separar uma história em pequenos pedaços que se sustentam em si mesmos e, que em alguns casos, contam uma narrativa maior.

E desde Smallville, com seus intermináveis 10 anos, que a TV não fica sem uma série super-heróica na programação. Netflix é outro bicho, mas o fato é que esse tipo de produção tem audiência e gera interesse.

Na distinta concorrência, “The Flash” vem quebrando recordes de audiência, num caminho aberto por “Arrow” duas temporadas atrás. A própria Marvel tem o seu “Agents of S.H.I.E.L.D”, que vem numa second season bem meia boca, se comparada com a primeira.

Mas “Demolidor”, meus amigos, faz com que o jogo mude completamente. Nunca uma série de super-herói foi tão bem feita, organizada e pensada. Eu sou fã de “The Flash”, mas a diferença aqui é entre crianças e adultos.

Claramente não foi algo feito para fanboys. É algo para quem gosta de seriados adultos policiais. Se você já leu as aventuras do demônio Homem Sem Medo, parabéns. Se não, venha que te abraçamos e não te chamamos de idiota nerd em nenhum momento.

Estamos falando de uma série do nível de “True Blood” – só para comparar com o último trabalho de Deborah Ann Woll, que interpretava a vampirinha Jessica lá e aqui faz o papel de Karen Page.

E quando eu digo “nível”, quero dizer quebradeira e sangue. Só perde em sexo, mas até isso a produção teve coragem de fazer.

A história

No primeiro episódio somos apresentados a Matt Murdock, um advogado que ficou cego quando era criança. Filho de um boxeador, Matt está iniciando a carreira ao lado do amigo e também advogado Foggy Nelson.

O primeiro caso deles é tentar salvar uma jovem perdida na cidade grande (Karen Page) que se vê envolvida numa trama com assassinato e corrupção. Aliás, pontos extras para a Marvel aqui. De onde vem a corrupção? Da reconstrução de New York após a zona que fizeram lá os Vingadores.

Tudo no mesmo universo. Mas, como na vida real, cada pessoa é um mundo e o de Matt Murdock, o Demolidor, é frio e sombrio. Se Capitão América e Homem de Ferro brilham ao sol, este herói se veste de preto e tem nas sombras um grande aliado.

A trama se apresenta sutilmente neste primeiro episódio que, espertamente, planta todas as sementes para algo que vai crescer e explodir fortemente – disso não fica nenhuma dúvida.

A produção

Fiquei muito positivamente impressionado com a qualidade do roteiro, que não faz concessões e constrói uma narrativa sólida e complexa, com idas e vindas no tempo que evitam a bobagem de se ficar somente na origem do herói.

No escuro, quem manda é ele.

Outra coisa bem interessante é o uso de luz e sombra. O clima mais pesado foge completamente das produções do gênero. Aliás, acho até que “Demolidor” é algo tão diferente (pro bem) que merece uma nova classificação, para além de super-herói. É um drama policial, que tem entre suas características o fato de ser baseado em uma HQ e cujo personagem principal é um herói com habilidades especiais.

“Gotham” tenta fazer o que “Demolidor” entrega. Algo visceral e, principalmente, verossímil. Nada aqui é caricato, cartunesco. As fraturas dos bandidos e pau que o herói leva confirmam isso.

Mas, mesmo assim, entendo “Demolidor” como a produção mais “Marvel” de todas as que a Marvel já fez. Porque, agora, pela primeira vez, heróis sofrem, vivem e demonstram sua humanidade – de verdade. Do jeitinho que Stan Lee queria, quando inventou essa brincadeira lá nos anos 1960…

Ah, e nunca mais ninguém vai lembrar do filme do Ben Affleck, isso eu garanto.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).