Batman vs Superman é um soco no estômago

batman vs superman

Zack Snyder cria um épico triste e soturno para o primeiro encontro cinematográfico dos maiores heróis dos quadrinhos

Este texto contém um caminhão de spoilers. Se não quer saber de coisas que ESTRAGAM o filme para quem ainda não viu, clique aqui e vai ler nossa análise spoiler free.

Três anos de espera depois de “O Homem de Aço” e chegou a hora de ver “Batman vs Superman – A Origem da Justiça”. O mesmo Zack Snyder dirigindo, então já sabemos o que vem por aí: filtros escurecendo a tela, um tom mais grandiloquente para toda a narrativa e um esforço enorme para demonstrar o distanciamento daqueles heróis dos humanos comuns.

Ou seja, tudo que fosse possível para afastar a DC da Marvel. Se lá do outro lado do muro tudo é colorido, divertido e mágico – bem Disney mesmo, aqui o negócio é duro, áspero e machuca, de verdade.

Em “Superman vs Batman” ninguém tem medo, por exemplo, de colocar a mãe no meio da briga. Ou mesmo de matar um dos personagens principais.

Eu deveria ter visto esse trem chegando… Tô nessa brincadeira há mais de 30 anos. Quando colocaram o Doomsday no trailer, uma luz amarela deveria ter se acendido na minha cabeça, afinal trata-se de um personagem criado especificamente para a saga de 1992 dos quadrinhos, “A Morte do Super-Homem”.

Mas nunca imaginei que Snyder teria bolas suficientes para repetir esse esquema no cinema. E palmas para a Warner que conseguiu segurar essa informação totalmente até a estreia do filme.

Li um bando de rumores: que ia ter Lanterna Verde (errei essa, que havia comentado no nosso vídeo pré-filme), que o personagem do Scott McNairy seria o Dr. Will Magnus, que fariam menção à Supergirl (não a do seriado, mas uma Supergirl)… Enfim, a lista é longa. Só nunca chegava a menor pista de que o Superman terminava o filme morto.

É claro que ele vai voltar e a cena final já dá abertura para essa possibilidade, mas foi muito corajoso irem por esse caminho.

Agora a Marvel que segure a bronca de ser acusada de “copiona” quando o Capitão América aparecer morto no final de Guerra Civil…

Voltando ao filme, fiquei incomodado com o clima tão pesado. Passada uma noite de ter assistido, quando escrevo esse texto, o gosto ruim ainda continua na minha boca.

Isso pode ter (muito) a ver com a minha relação afetiva com os personagens, especialmente com o Superman. Mas o filme me deixou essa sensação de impotência diante do mal. No Universo Cinemático DC tudo pode acontecer, até mesmo o maior de todos os heróis sucumbir.

Entendo essa escolha e, ela faz sentido para uma guinada para algo mais suave e aberto, uma mudança de tom – explícita no diálogo (e na maior luminosidade da cena) final entre Batman e Mulher-Maravilha.

O Homem-Morcego se culpa (grande novidade…) pela morte do Superman, mas não vai deixar o legado dele acabar. E o legado do Azulão é apolíneo, solar. Completamente diferente do que está acostumado o Cavaleiro das Trevas. Está aí a tal “Origem da Justiça”.

O que gostei

Ben Affleck mandou um enorme “CHUPA” para os haters e fez um senhor Batman. Mais do que isso, ele é um Bruce Wayne excelente. Eu acredito muito mais em Affleck como bilionário dono de empresa do que em Christian Bale.

E nunca o Batman foi, no cinema, tão parecido com o dos quadrinhos. Aliás, foi uma mistura do Morcegão dos gibis com o dos jogos da franquia Arkham Asylum. O que nos leva a outra questão:

Aquele pesadelo do Batman saiu diretamente do jogo Injustice. Então o Flash vem e diz que a Lois é a razão de tudo e o Homem-Morcego sempre esteve certo? Então Lois morre e o Superman fica doidão e decide dominar o mundo? É isso mesmo, produção? Pô, gostei demais deles seguirem esse caminho!

Gostei também de como será feito o recrutamento da Liga e do que, parece, vem por aí. É preciso encontrar os heróis e prepará-los para uma grande batalha, que não vai ser pequena… Se a Marvel precisou de uns 10 filmes para chegar no Thanos, a DC vai quebrar tudo com o Darkseid daqui a pouquinho, em “Liga da Justiça – Parte 1”, previsto para 2017.

O que não gostei

O filme se arrasta por pelo menos 1 hora até engrenar mesmo. As cenas são longas demais e a mania do Snyder de fazer slow motion chega uma hora que irrita.

Já falei do tom soturno da narrativa e isso me incomodou muito. Para mim, erraram a mão nesse tempero. Ficou amargo demais.

Quem podia ser o raio de luz nessa escuridão toda era a Mulher-Maravilha e ela tem pouquíssimo tempo de tela. Não gostei disso. Queria mais e mais de Gal Gadot, que está maravilhosa (há!) no papel. Minha maior ansiedade agora é para o filme dela, mais do que todos os filmes desse ano.

Nem melhor nem pior, apenas diferente

Em resumo, “Superman vs Batman” deixou claro que existe um outro jeito de usar os super-heróis no cinema. É um filme que poderia seguir a fórmula de sucesso da concorrência e ficar na mesmice, mas não o fez.

E é ótimo que isso não tenha acontecido. Faz a gente pensar, por exemplo, no que pode rolar em “Esquadrão Suicida”, porque se com os heróis rolou tudo isso, com os vilões então, pode ser ainda mais forte.

Entendo que não vai ser possível usar esse tom negativo em todas as franquias (não dá pra pensar em “Shazam” tão para baixo, por exemplo), mas pelo menos estabeleceu-se uma nova ideia, um novo caminho.

Para quem reclama que o cinema atual só tem filme de super-heróis e que eles são todos iguais, taí “Superman vs Batman” para mostrar que as coisas não são bem assim. Foi um soco no estômago e vai fazer criancinha chorar.

Só espero ver, nos próximos filmes, um fio de luz em meio a tantas trevas.

Batman vs Superman – A Origem da Justiça
Batman vs. Superman: Dawn of Justice
Direção: Zack Snyder
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Ben Affleck, Diane Lane, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Holly Hunter, Laurence Fishburne
Distribuidor: Warner Bros
Duração: 2h33
NOTA DO THIAGO: 7,0

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).