Você aceita que mexam nos seus brinquedos? E no seu passado?

Você aceita que mexam nos seus brinquedos? E no seu passado?

DC Entertainment anuncia nova linha de quadrinhos com personagens da Hanna-Barbera.  Motivo de comemoração ou desespero?

A DC Entertainment apresentou novidades bastante interessantes aos fãs de desenhos animados clássicos: uma nova linha de quadrinhos reinventando as principais franquias da Hanna-Barbera, sucesso na TV desde os anos 1960 e que já aparecerem em filmes, games e mesmo em quadrinhos.

O “porém” dessa história é que não serão as narrativas clássicas. Serão releituras, novas visões sobre os personagens. A lista de títulos é essa:

Scooby Doo

Scooby Apocalypse – Ao que parece é uma versão daqueles garotos enxeridos com esse cachorro impertinente num cenário de apocalipse zumbi. A equipe criativa é formada por Keith Giffen, Jim Lee e Howard Porter. Lee deve ficar nos desenhos a partir de esboços de Porter e ambos seguem as maluquices tradicionais de Giffen.

Jonny Quest / Space Ghost

Future Quest – Todas as séries de aventura da Hanna-Barbera, juntas num só título. Tem Jonny Quest, Space Ghost, Herculoides, Homem-Pássaro, Galaxy Trio, Frankenstein Jr., Os Impossíveis e Mightor. Todos juntos! Aqui quem comanda é Jeff Parker e Evan “Doc” Shaner.

Corrida Maluca Mad Max

Wacky Raceland – Uma versão Mad Max da Corrida Maluca. E Mad Max mesmo, porque chamaram Mark Sexton, um dos designers do filme para ser o desenhista, acompanhado nos roteiros por Ken Pontac.

The Flintstones

The Flintstones – Amanda Conner, que está fazendo um tremendo sucesso com a queridinha do momento, Harley Quinn, desenha a nova versão da família de Bedrock, a partir do texto de Mark Russell.

E aí, gostou? Eu tenho sentimentos contraditórios com tudo isso. De um lado, uma certa curiosidade para ver um Scooby Doo do Jim Lee. As informações no site da DC dizem que a narrativa vai girar em torno de “encontrar a cura para um mundo cheio de criaturas mutantes infectadas por um vírus nanite que aumenta os medos, terrores e instintos básicos”.

Scooby versus Zumbis. Prefiro Scooby encontra o Kiss. Sério mesmo.

Future Quest

Só essa imagem já me faz querer comprar esse gibi.

Aí vem, na minha visão, o que parece ser o mais legal… Esse tal Future Quest. Pode fazer muito sentido reunir todos os heróis de ação, tendo como base Jonny Quest. Um Jonny Quest do espaço, talvez? E esse artista, o Doc Shaner tem um estilo retrô lindo demais (veja o site dele, é ótimo!). Pode dar uma lambança enorme misturar Herculoids, Frankenstein Jr e Galaxy Trio? Pode. Mas aí é igual brincar de bonequinho… Super-heróis, Comandos em Ação e até aquela Barbie perdida entram na dança. Acho que rola, porque o deslocamento é relativamente pequeno.

Essa mesma lógica parece se aplicar ao Flintstones. Ainda que eu fique com bastante receio de ler a seguinte frase, tirada do site da DC: “Russell vai usar a família mais popular de Bedrock para iluminar os costumes e instituições do passado remoto da humanidade, numa divertida história da origem da nossa civilização”.

Fico com a impressão de estar lendo um trabalho de aluno do primeiro ano de História achando que vai mudar o mundo. E eu posso dizer isso com tranquilidade por ter sido esse aluno.

Por fim, Wacky Raceland. Corrida Maluca meets Mad Max. Boa ideia? Seria Penélope Charmosa a nova Furiosa? Dick Vigarista como Immortan Joe? Ah, forçou a barra! Forçou demais! Pode ser que eu queime a língua, mas esse me soa como o mais aproveitador de todos.

Algum gênio do marketing parou e disse: “Mad Max fez muito sucesso. O que temos com carro aí? Corrida Maluca? Tem alguma personagem feminina? Tem? Ah, é esse mesmo!”

Desculpe se parece ranhetice de velho chato, mas me fale qual remake valeu a pena mesmo, tirando o próprio Mad Max (melhor filme de 2015, na minha nada humilde opinião)? Vi alguns minutos do novo Caçadores de Emoção na Comic Con e fiquei com a impressão de estar assistindo uma matéria sobre esportes radicais no Esporte Espetacular da Globo.

Entendo que evolução é necessária, mas então que se invista em novas franquias, novas ideias. Essas, do passado, estão num lugar gostoso e quentinho dentro das nossas mentes e corações. Arrancá-las e zoar com elas vai machucar.

Pode ser que sejam os melhores gibis dos últimos vinte anos. Seria ótimo, porque tá puxado ser fã da DC nos últimos tempos. Mas eu duvido. Dou 12 edições para cada e olhe lá. Ninguém se sente à vontade quando alguém mexe com memórias afetivas, queremos deixar o passado intacto e fã que é fã gosta é de mais do mesmo.

Não é bonito de se dizer, mas é a verdade.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).