Sobre mangás e preconceito

Sobre mangás e preconceito

Boas histórias podem ser contadas em qualquer plataforma

Sou, como diz minha assinatura lá no final deste texto, um nerd old school. Minha escola (em vários sentidos) foram os quadrinhos de super-heróis americanos. Tive, muito na infância, uma passagem pelos gibis da Disney e de Maurício de Sousa, mas nunca abandonei meus seres fantásticos com a cueca por cima da calça.

E preciso confessar algo muito feio – tinha um preconceito tremendo com mangá. Não conseguia ler nada japonês, nem me interessava, não queria nem saber.

Preconceito significa ter uma ideia pré-concebida sobre alguma coisa. Formar uma opinião a respeito de algo sem ter fundamento. E eu não tinha nenhum fundamento mesmo. Sempre adorei Animes, especialmente os mais antigos. Tokusatsus, então… Sou apaixonado. Changeman, Jiraya, Jaspion, Jiban e até os mais toscos como Bicrossers, Machine Man e Google Five. Amo todos.

Então por que diabos os gibis me incomodavam tanto?

Tinha a ver também com a forma de leitura. Essa coisa de ler da direita para a esquerda travava meu cérebro treinado desde muito pequeno a fazer a leitura no padrão ocidental.

Mas, acredito, tinha muito a ver também com os temas e materiais disponíveis. E aí criei um paradigma. Minha opinião sobre os quadrinhos japoneses era basicamente:

  1. É coisa de criança;
  2. Os desenhos são feios, com aqueles olhos enormes esbugalhados;
  3. As histórias são fracas;
  4. Não tem texto, só desenho.

Aí veio Akira, um desenho que marcou minha infância (uma das brincadeiras mais bobas entre os meus amigos quando mais novo era alguém gritar TETSUO, para outro responder KANEDA e ficar nisso ad infinitum) e depois a Editora Globo começou a lançar as revistas de onde o anime se baseou.

Mas aquela coleção de Akira no meu depósito é uma versão americana do mangá. Remontada para o mercado dos EUA, então – de verdade – não era um mangá.

Fast forward e estamos em 2015. Minha opinião continuava a mesma e, pensando bem, isso vinha provavelmente dos mangás de Dragon Ball, One Piece e Naruto.

Mas tudo mudou e, preciso confessar: a “culpa” é de Cassius Medauar e seu trabalho na editora JBC. Principal editora brasileira no setor de mangás, a JBC foi pioneira no mercado lançando Sakura Card Captors e Samurai X.

Novos temas, nova visão

Com a parte editorial sob o comando de Medauar, nos últimos anos materiais diferentes chegaram às bancas. Especialmente em 2015, os temas variaram muito. E aí eu, um cachorro velho, consegui aprender alguns truques novos.

Herói, vilão? Essa capa e esse nome me ganharam...

Herói, vilão? Essa capa e esse nome me ganharam…

Minha primeira incursão nesse mundo foi por meio de Zetman. Fui atraído pela capa da primeira edição e pelo nome. Comprei e minha cabeça explodiu. Os desenhos eram extremamente detalhados e a trama me deixou vidrado, louco pela edição número 2. E eu não me lembrava de quando havia sido a última vez que senti isso com uma HQ de super-herói.

Pronto. Fui fisgado.

Aproveitei a Comic-Con Experience para conversar com Cassius sobre seu trabalho, o que rolou em 2015 e o que vem por aí no ano que vem e fiquei feliz em saber que a pluralidade de temas foi algo pensado e planejado.

“Temos que mostrar que mangá pode ser muito mais do que as pessoas pensam”, explica o editor da JBC. “Durante 2015, continuamos com os títulos mais clássicos, que o público já estava acostumado, mas arriscamos mais e lançamos algumas coisas bem diferentes”.

Cassius: boas ideias e vontade de mostrar o diferente

Cassius: boas ideias e vontade de mostrar o diferente

Com “diferentes”, Cassius quer dizer, por exemplo, uma versão de H.P Lovecraft em mangá. Em O Cão de Caça e outras histórias, Gou Tanabe adapta três contos do mestre do oculto com um ritmo e uma arte que me surpreenderam pela combinação de fidelidade ao material original e criatividade.

O próprio Zetman, que me chamou atenção, também se encaixa na categoria “diferente”. A linguagem visual utilizada foge da maior parte dos mangás, justamente pelo detalhamento da arte e também pela diagramação.

zetman

Riqueza de detalhes e linguagem cinematográfica. Zetman é ótimo!

“Estamos trazendo gente que não lia mangá antes e isso é muito legal”, comenta Cassius. Nesse contexto, a grande vitória da JBC foi o lançamento de Ultraman. O mais clássico dos super-heróis japoneses chegou aos quadrinhos numa continuação direta da série clássica. O que aconteceu com Hayata trinta anos depois de sua última batalha?

Com essa premissa fisgou fãs novos e antigos. “Vimos Ultraman sendo comentado em lugares e por pessoas que jamais haviam se conectado aos mangás. Isso é uma grande vitória”, empolga-se Cassius.

Esses desconectados provavelmente sofriam do mesmo mal que eu: PRE CON CEI TO. Ou burrice, se preferir.

Ultraman: reencontro com um velho amigo

Ultraman: reencontro com um velho amigo

Para 2016, dois clássicos prometem chacoalhar as bancas: a republicação de Akira – pela primeira vez no Brasil no formato original e Ghost in the Shell. Ambos são muito conhecidos por seus animes e possuem uma legião de fãs. “Estamos muito empolgados em lançar dois títulos tão importantes. Sabemos da responsabilidade, mas é o movimento certo a se fazer”, afirma o editor.

“Someliers de papel”

Quando fala em “responsabilidade”, Cassius sabe que tem de lidar com uma comunidade de fãs muito complicada. Se o mercado cresce para o lado de gente como eu, novatos, por outro lado existe uma base estabelecida grande e exigente.

Um dos fenômenos desse pessoal que mais chama atenção diz respeito às traduções. Como no caso das HQs americanas, os piratas também atuam nos mangás, pegando versões escaneadas e as traduzindo e disponibilizando online.

Resultado? Quando os títulos são lançados oficialmente, vários leitores reclamam da tradução, dizendo que os scannners é que estão certos.

A questão toda é que o japonês é uma língua que permite diferentes interpretações, com um sem-número de expressões idiomáticas. Duas traduções nunca serão iguais. Mas esse mundo conectado traz desafios como esse para quem se aventura no mundo editorial.

E, para completar, há o papel. “Comecei a dizer que existem ‘sommeliers de papel’”, brinca Cassius. Tradicionalmente, os mangás são lançados em papel jornal, em função de custos, devido ao sempre elevado número de páginas.

Para alguns produtos, a JBC tem feito experiências muito boas com papéis de mais qualidade, como off-set e pisa brite. Mas tem gente que reclama… Como antes reclamavam do papel jornal. Ah, a internet… Como diz o ditado correto, que nunca foi tão atual, “quem tem boca vaia Roma”.

 Mangá é veículo, não estilo

Independente de papel ou tradução (que na JBC parece boa, para quem não lê japonês, como eu. A revisão pelo menos é melhor do que a da Panini, que tem mais erros), o certo é que mangá não se resume a um estilo. Tem os mais românticos e considerados “femininos” (uma bobagem essa divisão, mas vamos lá), chamados de shoujo; tem os mais infantis e bobos e os fora da casinha, inovadores e interessantíssimos. Exatamente como nas HQs ocidentais.

Mangá é veículo, mais uma forma de contar histórias, que tem uma certa maneira de ser. Eu deixei para trás meu preconceito e estou aproveitando. Mensalmente me delicio e surpreendo com o Jin e Kouga em Zetman. Me reencontrei com Hayata em Ultraman. Fiquei fã da indiferença fingida de Manji, protagonista de Blade – A Lâmina do Imortal. E, daqui a pouco, vou me jogar no volume de Lovecraft.

Boas histórias não têm nacionalidade. Elas simplesmente acontecem. Se fechar para o que o mundo tem de interessante e diferente só te empobrece. Como acontece com todo tipo de preconceito.

Eu aprendi. E você, topa? #ficaadica

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

4 Comentários

  1. […] teve 4 mangás, mas eu só li 1: Pokemon Adventure, e ele era ótimo. Com histórias um pouco mais maduras, um […]

  2. […] teve 4 mangás, mas eu só li 1: Pokemon Adventure, e ele era ótimo. Com histórias um pouco mais maduras, um […]

  3. […] é para os amantes do Mangá – que nós já aprendemos, são […]

  4. […] é para os amantes do Mangá – que nós já aprendemos, são […]

Comentários estão desabilitados neste post.