Sobre ressurgir e mudar: os motivos para o Renascimento DC

Sobre ressurgir e mudar: os motivos para o Renascimento DC

Reboot da DC Comics chega ao Brasil após sucesso nos EUA e é resposta ao mal gerenciamento dos personagens da Marvel

 

Anatomia matadora

Renascimento. Da última vez que essa palavra foi usada nos quadrinhos, os resultados foram um tanto traumáticos. Alguém mais se lembra de “Heróis Renascem”, quando a Marvel terceirizou a produção de “Capitão América”, “Vingadores”, “Quarteto Fantástico” e “Homem de Ferro” para os estúdios de Jim Lee e Rob Liefield?

 

O bom livro “Marvel Comics – A História Secreta” conta os detalhes dessa malfada empreitada da Casa das Ideias, que terminou até com morte. Um dos editores do Capitão América teve um mal súbito ao ver a primeira edição pronta. Maldosos vão dizer que a culpa é da arte do Liefield, mas o estresse todo pelo qual passava, em função da crise enfrentada pela Marvel na época deve ter sido o principal motivo.

 

Muito menos dramático e traumático é o Renascimento DC (DC Rebirth, no original) que começa a ser publicado aqui no Brasil pela Panini.

 

Reboot

O Renascimento DC é uma resposta à queda nas vendas e péssimas histórias geradas pelo reboot “Novos 52”. Em 2011, numa tentativa de se aproximar de um público mais jovem, a DC Comics reiniciou seu universo ficcional, tirando todo o peso da sua extensa cronologia das costas dos personagens. Assim, foi-se embora a “Sociedade da Justiça”, com seus heróis mais velhos e também de legado; Superman não era mais casado com Lois Lane e agora tinha um relacionamento com a Mulher-Maravilha; nunca havia existido um grupo de Novos Titãs com Cyborg, Robin/Asa Noturna, Ravena, Estelar, Mutano, Kid Flash e Moça-Maravilha; e Bárbara Gordon deixou de ser Oráculo e voltou a ser a Batgirl. Além disso, todos os heróis eram mais jovens, inexperientes e, basicamente, bobos.

 

A grande diferença da DC em relação à Marvel sempre foi a postura mítica de seus heróis e a intrincada cronologia, que dava aos leitores uma sensação de pertencimento a uma longa e rica história. Mas, com os Novos 52, tudo isso foi para o ralo.

 

De fato, algumas coisas interessantes surgiram: um renovado protagonismo do Aquaman, um excelente uso dos personagens místicos, especialmente no grupo chamado de Liga da Justiça Sombria (Justice League Dark) e … E nada mais. Principalmente, nada de realmente bom com os grandes personagens. O Batman praticamente não foi afetado, então seguiu-se sua história. O mesmo aconteceu com o Lanterna Verde.

 

Superman e Mulher-Maravilha tiveram um ou outro arco interessante, mas de resto, eram histórias sofríveis que não respeitavam a grandiosidade que essas figuras merecem.

 

Como tudo é um grande negócio, com vendas em baixa e fãs reclamando, a hora de mudar chegou novamente.

 

Tudo que é velho vira novo outra vez

É interessante contrapor a ideia da DC em “renascer”, trazendo de volta conceitos antigos, com a fúria de mudança a qualquer custo da Marvel.

 

Recentemente, a toda-poderosa do cinema de super-heróis envolveu-se numa polêmica quando seu vice-presidente comercial disse que os leitores não queriam diversidade e por isso os gibis não estavam vendendo bem.
Mas será mesmo culpa da diversidade?

 

Uma coisa é preciso dizer: fãs de super-heróis são conservadores. São tradicionalistas. Você pode querer até aponta-los como preconceituosos, mas não é bem assim.

 

Os quadrinhos de super-heróis funcionam como “objetos transicionais”. O pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott definiu esse conceito como algo que intermedia a relação entre o mundo interno e externo das pessoas. Esse objeto ou fenômeno transicional recebe três usos diferentes: um processo evolutivo, como etapa do desenvolvimento; vinculado às angústias de separação e às defesas contra elas; representando um espaço dentro da mente do indivíduo (para saber mais sobre esse assunto, clique aqui).

 

Quadrinhos de super-heróis são diversão, entretenimento, mas são também um porto seguro para seus leitores. São o lugar para o qual é possível fugir quando mundo não os trata bem.

 

E aí é óbvio que fazer o Homem de Ferro e Thor virarem garotas e o Homem-Aranha não ser mais Peter Parker vai irritar quem tem esse tipo de apego.


Nessa surge o Renascimento DC, trazendo de volta personagens amados pelo público, como Wally West (o primeiro Kid Flash e terceiro Flash), Besouro Azul (Ted Kord), além das versões mais clássicas de Superman e Mulher-Maravilha.

Jaimie e Ted juntos no Renascimento DC

 

Mas isso não fez sumir o Besouro Azul que muitos conheceram pelos desenhos animados: Jamie Rayes, um menino de origem latina. Também não foi alterada a sexualidade da Batwoman, pois Cathy Kane continua sendo lésbica. Assim como outros personagens gays, negros, asiáticos, latinos e pertencentes a várias minorias continuam a povoar as histórias.

 

Personagens novos, interessantes e com força para se tornarem queridos do público. E não simplesmente pegar os clássicos e dar a eles outras etnias e orientações sexuais simplesmente para agradar o “politicamente correto”, o que é absolutamente ridículo – e é o que a Marvel fez e ainda está fazendo.
Depois a culpa é do leitor? Não mesmo.

 

Um universo novo, com o aconchego do antigo

Nas revistas que agora começam a sair no Brasil, está de volta o Superman que conhecemos e amamos, aquele que não é blogueiro, mas sim repórter do Planeta Diário, casado com Lois Lane, tendo como chefe Perry White e como fotógrafo parceiro Jimmy Olsen.

 

Batman e Robin, Superman e Superboy. Pais e filhos.

Muito tradicional? E que tal um plot twist como esse: agora Lois e Clark são pais de um menino de 9 anos que tem de aprender a lidar com seus poderes e responsabilidades.

 

Além da volta do Superman tradicional, em Renascimento, o Arqueiro Verde se reaproxima da Canário Negro; os Titãs clássicos voltam a se reunir, entre outras novidades boas que não vale a pena contar para não estragar a leitura.

 

O resultado é que, nos EUA, as revistas da DC, que há muito tempo só apanhavam da Marvel e de outras editoras voltaram a bater recordes de vendas.

 

Por aqui não deve ser muito diferente e a Panini organizou o lançamento da seguinte forma: serão lançadas cinco revistas especiais (edição única: Universo DC: Renascimento, Titãs: O retorno de Wally West, Batman do Futuro: Renascimento, Hellblazer: Renascimento, Capuz Vermelho e os Foragidos: Renascimento), dez revistas mensais (Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Detective Comics, Action Comics, Liga da Justiça, Lanternas Verdes, Arlequina, Esquadrão Suicida e Os Jovens Titãs) e três revistas trimestrais alternadamente (Arqueiro Verde, Flash, Exterminador: Renascimento).

 

Quem vigia os vigilantes?

O primeiro lançamento é “Universo DC: Renascimento”, que já chegou às bancas. Os títulos mensais serão lançados ao longo dos meses de maio e junho e os demais lançamentos se estendem até outubro. É possível acompanhar todas as informações sobre os lançamentos no hotsite www.renascimentodc.com.br.

 

Para deixar os fãs ainda mais contentes (ou não), a narrativa do Renascimento DC incorpora a seminal maxissérie “Watchmen” ao Universo DC. Como? E será que funciona? Bom, aí já é uma outra história, para um outro texto…

 

 

 

 

Para começar a ler

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).