O ofício de escrever e editar quadrinhos

O ofício de escrever e editar quadrinhos

Tive a oportunidade de conversar (via Twitter) com os escritores Kurt Busiek (Avengers, Astro City, Marvels), Gabriel Hardman (Planet of the Apes, Star Wars) e Jerry Ordway (Superman, Shazam, JSA) sobre o trabalho de escrever e, especialmente, sobre como os editores se envolvem no processo de criação de uma história.

Jerry Ordway

Tudo começou quando Ordway comentou que escrever arcos curtos, em revistas regulares das grandes editoras, não dá a oportunidade de criar ou mesmo desenvolver com mais profundidade algum personagem.  A discussão é complexa, porque envolve também a questão de direitos autorais em relação às criações feitas para editoras e não de forma independente. Ou seja, criar algum coadjuvante, por exemplo, é “dar de presente” à empresa algo que pode crescer e se tornar um sucesso em diferentes plataformas.

É verdade também que, atualmente, todas as grandes empresas de mídia buscam (até para não ficar mal com a comunidade de fãs) dar o crédito e pagar aos criadores quando usam seus personagens em outras mídias. Mas, independente disso, o tratamento dado a novidades não parece ser o mais amistoso no que se refere aos quadrinhos.

Kurt Busiek apontou que, hoje em dia, quando novos personagens são criados, o próximo escritor chega e joga todos fora. “Portanto, a não ser que você esteja em um título em longo prazo, não tem a chance de fixar um novo personagem na mente dos leitores”, disse o escritor, que completou de maneira bastante crítica: “Se você não é dono do personagem, se não tem um acordo adequado, não terá controle nenhum e as chances são de o personagem ser descartado assim que você não estiver mais por lá. Não é um cenário muito animador”.

Kurt Busiek

Ordway se mostrou desanimado com essa situação: “Nenhum escritor parece querer ler os números anteriores como parte de seu trabalho de criação”. Busiek contou então uma de suas experiências: “Quando eu estava em um título da DC, geralmente me via trazendo de volta personagens criados originalmente por Len Wein, que eram sempre muito sólidos, mesmo os menores”. Na visão de Ordway, o escritor que pega um arco de histórias deveria entregar os personagens no mesmo patamar que os encontrou.

Busiek concorda, mas lembra de que, no mercado atual, escrever um arco curto de histórias é parecido demais com escrever apenas uma edição, não há muito espaço para interpretar e criar. “Mesmo assim gosto de trazer velhos personagens de volta, é parte da diversão em trabalhar com um universo compartilhado”, afirmou. Ordway ainda recordou: “Quando escrevi JSA deixei alguns tópicos em aberto que nunca foram seguidos, mas fiz isso porque esse é o jeito que gosto de ler quadrinhos”. E Hardman completou: “Juntar elementos familiares em uma história é divertido, mas grandes e novas ideias também são. Eu acho que é necessário ter um equilíbrio”.

 

Editores

Questionei os escritores sobre qual seria o papel de um editor nesse processo. Não seria função de um editor dizer quais personagens podem ou não ser usados e em que ponto eles deveriam ser deixados? Minha visão é baseada no papel do editor jornalístico, que diz aos repórteres (escritores) qual história deve ser escrita e também mexem no texto depois de pronto.

Kurt Busiek foi incisivo: “Encontrar sua própria voz em um personagem não é algo que um editor possa fazer por você. E explorar sua própria direção é divertido. O editor fazer isso por você? Pode ser divertido para eles, mas não é para mim!”.

“Não me recordo de um editor tendo alguma vez ditado uma história para mim. Como Kurt disse, é muito mais divertido encontrar seu próprio caminho”, disse Jerry Ordway.

Eu disse então que pensava ser função do editor dizer em que ponto um personagem deveria ser deixado, após um arco de histórias. “Um editor pode te dizer isso, mas ele ou ela certamente não tem obrigação de fazer isso”, Busiek respondeu.

Comentei que em revistas e jornais, um editor diz aos seus repórteres o que deve ser escrito, e Busiek disse que esse não é o caso nos gibis. “A maioria dos quadrinhos é ficção, não reportagem. Não é o mesmo esquema”. Ordway então se lembrou da lenda Juilus Schwartz, um dos pioneiros não somente dos comics, mas da ficção científica e que trabalhou na DC Comics por 42 anos, a maior parte deles como editor: “Acho que Julie costumava passar ideias para histórias para os escritores, mas duvido que alguém hoje em dia faça isso”. “Geralmente os editores respondem ao plano do escritor, eles não dizem previamente o que deve ser feito”, completou Busiek.

Perguntei então sobre quais personagens podem ou não ser usados, se o editor não direcionava isso, pensando até no universo compartilhado. Por exemplo: talvez alguém do elenco de apoio de uma série, que naquele momento esteja sendo pouco utilizado, esteja nos planos do escritor de outra revista. Mas será que isso pode ser feito sem complicar a série original de onde aquele personagem saiu?

Ordway respondeu: “Normalmente passo uma lista de personagens pouco utilizados nos últimos tempos para que o editor possa me aconselhar”. Busiek, sempre mais polêmico, foi direto ao ponto, dizendo “Se eu quiser usar Ixar e os Ultroids, posso sugerir e o editor vai me dizer sim ou não. Mas a ideia sempre nasce em mim. Se um editor me diz quem usar, vai que ele diz que devo usar o Gambit? Eu não gosto do Gambit!”.

Aqui começa uma série de comentários (com os quais este escriba concorda inteiramente) sobre a inutilidade de Gambit, personagem-ícone dos anos 1990:

Ordway: “E aqui se vão todos os seus seguidores fãs do Gambit. :-)”.

Busiek: “E boa viagem para eles!”.

Hardman: “Eu não achava que o Gambit era motivo de riso, eu me sinto ofendido por isso, Kurt!”.

Ordway: “O que você tem contra jogar cartas, Busiek?”.

Busiek: “Ah, todo discreto com sua camisa Pink…”.

Ordway: “Estou achando que Kurt e Gabriel estão mandando para nós o aroma de sua minissérie secreta do Gambit”.

Busiek: “O segredo da mini do Gambit é um novo personagem: MINI-GAMBIT”.

Ordway: “É esse o papel de Peter Dinklage no novo filme dos X-Men?”

Hardman: “Essa minissérie vai ser sensacional. Queria poder tuitar meus designs do Mini-Gambit”.

Busiek: “Cara, era um SEGREDO! Não dá para levar vocês a todo lugar”.

Depois de várias risadas às custas de Gambit, agradeci aos escritores pelo papo e perguntei se poderia transformar a conversa neste post. Ordway concordou na mesma hora e disse apenas para ver se os outros concordavam. Hardman e Busiek só pediram para deixar claro que nenhum deles apoiava o Gambit de maneira alguma.

Terminei desejando que “o Gambit estivesse com eles” e recebi a melhor resposta de Busiek: “Ghaah!”.

Da conversa, ficou para mim a impressão de que o papel dos editores nos quadrinhos de super-heróis é bastante burocrático (cobrar prazos, revisar textos gramaticalmente) e pouco criativo. Fiquei surpreendido, pois pensava mais em uma parceria criativa e no editor como quem tinha contato com o todo do universo e sabia o que poderia e o que não poderia ser feito. Mas também fiquei feliz em saber que os criadores têm tamanha liberdade, pois eles são grande parte do que me faz, enquanto fã, querer comprar determinada revista.

E uma frase de Ordway serve para fechar tudo isso: “Bons editores sabem quando ajudar, e quando ficar fora do seu caminho”.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).