Joe Kubert mostra o sofrimento de um editor na Guerra da Bósnia

Joe Kubert mostra o sofrimento de um editor na Guerra da Bósnia

HQ inédita do Mestre Kubert retrata os dramas vividos em um dos conflitos mais longos e sangrentos dentre as guerras modernas

Começa na sexta-feira, dia 26 de agosto, a 24ª Bienal do Livro de São Paulo e nós aqui do Armazém temos recebido muitas informações sobre lançamentos. Mas, confesso, a maior parte deles não fez meus olhos brilharem.

Até que chega a notícia do lançamento no Brasil dessa maravilha chamada “Fax de Saravejo”. Trata-se de um raro registro de jornalismo em quadrinhos publicado pela primeira vez no Brasil pelas editoras Via Leitura e Levoir. A graphic novel foi lançada originalmente em 1996 e, com muito atraso, vem ao Brasil agora.

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A forma pela qual a “Fax de Saravejo” nasceu já vale uma reflexão. Ervin Rustemagić trabalhava com quadrinhos antes da guerra explodir e, acompanhado por sua esposa e seus filhos, sofreu o Cerco de Saravejo, iniciado em abril de 1992. Ninguém podia deixar a cidade sem arriscar cair nas mãos de patrulhas ou franco-atiradores sérvios.

 

Depois de ter a casa nos subúrbios de Dobrinja bombardeada e de perder seu lar e seus bens – incluindo uma vasta coleção de originais de grandes desenhistas do mundo todo –, Ervin e sua família buscam a sobrevivência de abrigo em abrigo na cidade devastada. O editor de quadrinhos consegue se comunicar com o exterior apenas por mensagens via fax, nas quais conta o horror da guerra e do genocídio em solo europeu, que resultou na morte de milhares de bósnios.

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Joe Kubert (divulgação)

Um dos destinatários desses faxes irregularmente enviados foi justamente o mestre Joe Kubert, que decidiu narrar, a partir dos relatos e das imagens enviadas, os dois anos e meio de privações e medo pelos quais passaram Ervin e sua família, que escaparam da guerra fugindo para a Eslovênia.

Para adaptar uma maravilha dessas ao mercado nacional, uma tarefa tão especial, a escolha foi por ninguém menos do que o grande Sidney Gusman. O popular “Sidão” adaptou a tradução portuguesa para o português brasileiro.

Para quem não conhece, Sidney é editor da Mauricio de Sousa Produções, idealizador, entre outras, das Graphic MSP, linha de quadrinhos especiais feitos por diversos autores a partir dos personagens de Maurício de Sousa. Com seus livros e trabalhos sobre (e com) quadrinhos, já recebeu mais de duas dezenas de prêmios no Troféu HQ Mix, o maior reconhecimento dos quadrinhos nacionais.

Lá fora, “Fax de Saravejo” foi publicada pela Dark Horse e recebeu alguns dos maiores prêmios mundiais dos quadrinhos, incluindo o Eisner, o Harvey e o prêmio de melhor álbum internacional do Festival Internacional de Angoulême, na França.

Essa é daquelas que não pode faltar na estante. E é uma mostra do poder narrativo dos quadrinhos. Kubert ficou conhecido por HQs de guerra (Sargento Rock) e também pelos super-heróis (Hawkman, entre outros). Mas quando tomou para si a tarefa de, com sua arte, mostrar os horrores reais de um conflito, o fez com maestria. Porque qualquer boa história, seja ela real ou imaginada, pode ser contada com palavras e imagens, em quadrinhos – e obter o mesmo impacto de qualquer outra mídia.

Ficha Técnica
Editora: Via Leitura
Tradução: Filipe Faria
Adaptação à edição brasileira: Sidney Gusman
Número de páginas: 208
Preço: R$ 79,90

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).