Papo com artistas: Joe Bennett

Papo com artistas: Joe Bennett

De passagem por São Paulo para participar da 20ª edição do Fest Comix, lançando a edição remasterizada de “A Insólita Família Titã”, o desenhista Joe Bennett fez uma palestra (aliás, muito mais um bate-papo) em que falou sobre seu trabalho, quadrinhos digitais e, claro, sobre esse relançamento de uma de suas primeiras obras.

Cena de Iron Man 22, um dos trabalhos mais recentes de Joe Bennet

Cena de Iron Man 22, um dos trabalhos mais recentes de Joe Bennet

Joe Bennett, ou Benedito José Nascimento, é um dos mais bem sucedidos desenhistas brasileiros do mercado de comics. Desenha para Marvel e DC desde a década de 1990, quando os artistas nacionais praticamente dominaram o cenário dos super-heróis, com um estilo marcado pela anatomia feminina avantajada (às vezes exagerada), seguindo um padrão que se consolidou com a Image Comics. Outros expoentes dessa época são Mike Deodato, Ed Benes e Marcelo Campos (naquela época, Mark Campos).

Como todos os outros artistas nacionais, o estilo de Bennett evoluiu de maneira interessante, saindo daquele padrão que evocava um estilo quase pornô, para linhas mais limpas e com uma anatomia mais realista.

A facilidade para desenhar formas femininas pode ser explicada pela base em que Bennett se formou. Seus primeiros trabalhos foram para as clássicas revistas de terror brasileiras “Calafrio” e “Mestres do Terror”, que tinham uma dose de erotismo muito elevada. Junto dessas, o desenhista também produziu muitas histórias pornográficas mesmo, para revistas “de fundo de banca”, como se fala no mercado editorial.

Quadro de "A Insólita Família Titã". A arte de Bennett ainda estava se desenvolvendo.

Quadro de “A Insólita Família Titã”. A arte de Bennett ainda estava se desenvolvendo.

“A Insólita Família Titã” vem justamente dessa época. Convocado pelo editor Franco de Rosa para produzir 30 páginas que complementassem uma revista erótica, Joe chamou seu compadre Gian Danton para criar uma homenagem à Família Marvel. “Precisávamos de só duas páginas com sacanagem”, diverte-se o artista. “Vi ali uma oportunidade de fazer algo que queria (super-heróis), começando a sair do pornô”, explica. A primeira publicação aconteceu na revista “Quadrinhos Adultos”, em 1990.

Inovadora para a época, a narrativa da Família Titã é contada toda em recordatórios e conta a trajetória de três jovens brasileiros da periferia que recebem poderes divinos. “Mark Millar fez isso muito tempo depois, mas lá atrás a gente já estava pensando no que aconteceria de verdade com o mundo se houvesse gente superpoderosa andando por ele”, diz Joe.

Mesmo sendo publicada numa revista de menor expressão, a Família Titã ganhou inúmeros fãs, muito em função de ter sido republicada inúmeras vezes em outras revistas e por ser um trabalho autoral de Bennett e Danton, dois expoentes da produção quadrinística nacional. Assim, faz todo sentido o relançamento remasterizado feito agora pela editora Ópera Graphica. A edição traz ainda outra história de Bennett, chamada “Power”.

“A Insólita Família Titã” foi escrita quase no Método Marvel (onde o escritor faz um roteiro geral e o artista tem liberdade para montar as cenas que, depois de desenhadas, voltam para o roteirista colocar os diálogos). Joe conta que foi “quase”, porque sua parceria com Gian Danton é muito forte. “Com o Gian, eu chegava com uma ideia, se ele gostasse começávamos a desenvolver aquilo juntos, eu então voltava para a casa, fazia um ‘rafe’, voltava pro Gian e ele ia colocando os diálogos. É diferente do Método Marvel porque tem uma parceria maior”, comenta Bennett.

Perguntado sobre qual estilo de roteiro mais lhe agradava em trabalhar, nenhuma surpresa. Joe prefere o Método Marvel justamente pela maior liberdade. “Nesse modelo o desenhista passa a ser mais criador, auxilia mais no desenvolvimento da história”, explica. Em se tratando de HQs de super-heróis, a Marvel obviamente segue seu método, enquanto na DC a regra costuma ser a do full script, um roteiro de quadrinhos que tem linguagem mais cinematográfica, com indicações de enquadramento e detalhamento de cada quadrinho para o artista desenhar.

Em Supreme, com roteiro do mago Alan Moore

Em Supreme, com roteiro do mago Alan Moore

Ainda no assunto roteiro, Joe contou um dos casos mais marcantes de sua carreira: desenhar a partir dos escritos do mestre Alan Moore. Isso aconteceu na revista Supreme, uma versão do “mago” para o Superman publicada na Image Comics, para qual Joe desenhou as edições 26-28, 30, 33-39, 41 e o Annual 1, entre os anos de 1995 e 97.

“Tive uma semana de diarreia” (risos), lembra-se de maneira bem-humorada o desenhista. “É sério, fiquei tão nervoso por ser o Alan Moore e pelo roteiro que recebi que tive mesmo diarreia!”. Joe conta que o roteiro (feito em esquema full script) tinha um nível de detalhamento que ele nunca havia visto e que não viu de novo: “Cada página de roteiro é uma página da revista. No roteiro do Alan Moore, cada página da revista tinha cinco páginas de roteiro. É muito impressionante”.

O artista disse ter aprendido muito com a experiência, pois teve que controlar seus impulsos e confiar no que estava escrito, pois cada pequeno detalhe colocado tinha um motivo de estar ali e mesmo algo desenhado no fundo do cenário era uma referência importante para a apreensão total da história.

Da "cópia" em Supreme, para o original, em Adventures of Superman, publicação lançada primeiro no formato digital e que só depois vai para o papel

Da “cópia” em Supreme, para o original, em Adventures of Superman, publicação lançada primeiro no formato digital e que só depois vai para o papel

Falar sobre Alan Moore e quadrinhos de qualidade levou a conversa para a evolução dos quadrinhos como um todo, o que acaba passando pela questão do digital. Joe confessou não ter IPad ou qualquer outro device eletrônico, eu nunca sequer viu suas obras nesse formato, e que se considera “um dinossauro”, pois a transição do papel para o digital é, em sua visão, “um caminho sem volta”. E fez uma importante revelação: já ouviu comentários de que a DC Comics pretende ser 100% digital em breve.

Os impactos de uma mudança desse porte no cenário das editoras de HQs de super-heróis (e de HQs como um todo) ainda não podem ser mensurados, mas é possível entender, especialmente pelo custo em constante elevação do papel no mercado internacional, que é uma trajetória lógica. Revistas mensais no digital, encadernados em papel. E os gibis viveriam o que hoje se vê com os discos de vinil, tornando-se, efetivamente, itens para colecionador.

Para finalizar, perguntado sobre a possibilidade de histórias de super-heróis brasileiros fazerem sucesso junto ao público nacional – que sempre se mostrou reticente a essas produções, o artista mostrou-se otimista. “Há 10 anos, ninguém na rua sabia quem era Tony Stark. Hoje, por causa do cinema, todos sabem. Então tem mais gente entendendo o que é um super-herói. Isso abre possibilidade para serem criadas histórias por aqui. Se a história for boa terá leitores”, completou.

Tietando ao final do bate-papo. E com autógrafo garantido!

Tietando ao final do bate-papo. E com autógrafo garantido!

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).