De que cor é o seu Homem-Aranha?

spiderverse

O pensamento Politicamente Correto interferindo no mundo do entretenimento. Isso não pode dar certo

Texto publicado originalmente em 9 de março de 2015. E que continua cada vez mais atual…

Então a Marvel e a Sony chegaram a um acordo e o Homem-Aranha vai passar a integrar o mesmo universo cinematográfico de Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e demais Vingadores.

Grande notícia? Sem dúvida alguma, tanto do ponto de vista dos fãs – que esperam agora filmes que tenham a mesma qualidade dos dois primeiros da trilogia dirigida por Sam Raimi e estrelada por Tobey Maguire, quanto para uma análise mercadológica: foi um excelente negócio o que fez a Sony, reconhecendo sua incompetência em lidar com esse produto e terceirizando sua produção a quem entende muito mais do riscado.

Tudo saindo como se prevê (e a Marvel é rainha de acertar nisso), o Cabeça de Teia deve aparecer em Capitão América 3: Guerra Civil. Aos não-iniciados, explico: na saga de mesmo nome nas HQs, a comunidade super-heróica se divide entre os que aceitam a interferência do governo em suas vidas (leia-se: abrir sua identidade secreta) e os que querem continuar livres como sempre foram. Do lado do establishment, Homem de Ferro. Do lado da liberdade, seu sempre sentinela, Capitão América.

Nos quadrinhos, seduzido pela segurança de um emprego e por uma suposta estabilidade oferecida por Tony Stark, Peter Parker, o Homem-Aranha, fica do lado dos pró-registro.

Miles Morales, o Homem-Aranha negro, do Universo Ultimate

É isso que deve acontecer também nos cinemas. Mas a grande questão que pulula na internet é “quem será – ou deve ser – o Homem-Aranha?”. Não se trata aqui de discutir se Andrew Garfield continua como o Amigão da Vizinhança (tudo indica que não), mas sim de uma questão étnica. Há quem defenda, inclusive dentro da Marvel, que ao invés de usar Peter Parker como ele sempre foi (caucasiano), que façam Peter agora ser negro ou ainda utilizem outro alterego, Miles Morales – um rapaz que também é Homem-Aranha (de um universo paralelo, gibi é coisa de maluco mesmo), e que é não só negro, mas de origem hispânica.

A discussão sobre a mudança étnica ou de gênero de personagens de HQs em outras mídias (ou até nos próprios quadrinhos) não é nova. Tim Burton tinha planos para um Robin negro, caso continuasse a dirigir a franquia Batman nos anos 1990. O mesmo diretor iniciou um projeto de Superman em que Jimmy Olsen seria negro. Há quem diga que a personagem Jenny, que aparece em “O Homem de Aço”, de Zack Snyder, seria uma versão feminina de Jimmy Olsen. Logo Jimmy, que sempre se travestiu de tanta coisa e nem precisaria disso…

Para complicar mais a discussão, alguns fatos recentes. O primeiro é que na nova versão do Quarteto Fantástico, o papel de Johnny Storm, o Tocha Humana, será de Michael B. Jordan, um jovem ator negro. Bom sempre lembrar que na versão anterior do Quarteto nos cinemas, quem interpretou o cabeça quente foi Chris Evans, loiríssimo que hoje é o Capitão América.

Outra notícia nova foi a forte reação da latina Michelle Rodriguez quando perguntada se ela seria a nova Lanterna Verde nos cinemas. Em resumo, Michelle disse que era bom Hollywood parar de “roubar os heróis dos brancos” e que “começasse a criar os seus próprios”, no sentido de criar novos papéis que fossem originalmente de outras etnias e gêneros.

O questionamento de Michelle ocorreu por conta de um rumor que dava conta que para o seu universo cinematográfico, a DC estaria considerando usar a personagem Jessica Cruz – uma recente adição aos quadros super-heróicos da editora.

Produto do seu tempo

Para analisar toda essa bagunça, é preciso um olhar histórico e crítico aos quadrinhos de super-heróis. Como toda mídia de massa nascida no século passado, as representações nela existentes reproduziam a sociedade de sua época. E as HQs de super-heróis estão por aí desde a década de 1930. Nesse tempo, evoluíram muito, mas é inegável que a representação de outras etnias e gêneros que não o caucasiano masculino sempre foi diminuída.

No caso das mulheres, ainda que houvesse muitas personagens femininas, a discussão era sobre o uso delas, a forma como eram retratadas. Já sobre negros, a História conta que o primeiro super-herói negro foi o Pantera Negra (não bastava a cor, era preciso reforçar no próprio nome, sinal daqueles tempos), publicado pela primeira vez em 1966.

John Stewart, o Lanterna Verde negro, quando de sua criação

Com o passar dos anos, naturalmente, como em outras mídias, mais personagens pertencentes às minorias apareceram nos quadrinhos. O Lanterna Verde John Stewart, por exemplo, já nasceu negro em 1971. Anos depois, ele foi o Lanterna escolhido (há milhares de Lanternas Verdes, eles são uma tropa de policiais intergalácticos) para fazer parte da Liga da Justiça no desenho animado de bastante sucesso nos anos 2000.

O caso citado anteriormente, de Miles Morales como Homem-Aranha, ocorreu no chamado Universo Ultimate – uma versão da Marvel nos quadrinhos em que os heróis eram “atualizados” na comparação com suas versões originais – a maior parte delas da década de 1960. Nessa cronologia, Peter Parker morreu e Miles assumiu seu lugar como figura heroica.

Os filmes podem ser vistos como uma mistura do universo original com esse Ultimate e, nesse sentido, poderia até fazer sentido colocar Miles como o Aracnídeo na telona. Mas a questão é a motivação dessas alteração. É aí que mora o problema.

É uma cilada, Bino!

O que leva um estúdio a querer mudar a etnia ou o gênero de um personagem não é o pensamento (correto) de dar espaço e voz às minorias. É pura e simplesmente o horrendo pensamento politicamente correto em curso. E pior: é uma tentativa rasteira de atrair uma parcela de público daquela minoria retratada.

O cinema tem essa força, a de gerar identificação, empatia, com o público espectador. Na sala escura, nos projetamos nas personagens e, com super-heróis, esse processo é ainda mais forte. Mitos modernos, eles representam a libertação do homem contemporâneo de suas amarras mundanas. Quando vemos Tony Stark voando, divertindo-se com sua potência mecânica e sendo tão incrível quanto ele é, uma parte de nós também se sente incrivelmente capaz.

Observe qualquer criança com uma máscara e uma luva de Homem de Ferro e você entenderá o que estou dizendo. Adultos (alguns deles) apenas escondem melhor suas máscaras.

Os estúdios, portanto, tentam ludibriar o público apresentando personagens em novas roupagens, novas cores, numa tentativa de se aproximar mais de uma parcela do público e de se livrar da responsabilidade em serem acusados de não dar espaço às minorias. É como se houvesse uma tabela: temos que ter um negro, uma mulher, um gay, um oriental e assim sucessivamente. Uma tremenda bobagem.

Quer ter uma personagem que represente uma minoria? Faça ela relevante para a narrativa. Um ótimo exemplo está na série “Gotham”, exibida no Brasil no Warner Channel: um dos coadjuvantes mais interessantes do seriado é a policial Renee Montoya.

Criada no sensacional desenho “Batman – The Animated Series”, da década de 1990,

Renee, a morena, na época em que namorava Kathy Kane, a Batwoman

Renee fez o salto transmidiático e seguiu para os quadrinhos. Lá, ganhou enorme profundidade. Em sua narrativa, revelou-se gay, viveu com outra policial (Maggy Sawyer, coadjuvante de histórias do Superman) e namorou a Batwoman – outra personagem lésbica criada assim, desde o início, não transformada para cumprir alguma suposta cota.

Agora em “Gotham”, Reene – que também é latina, bom ressaltar – continua sendo da polícia e, para acrescentar drama à narrativa, teve um relacionamento com a atual namorada de James Gordon, protagonista da série.

Tudo muito bem feito, sem forçar nenhuma barra. É uma personagem pensada e desenvolvida, desde o início, com algumas características. Não algo transformado – tipo um Tocha Humana negro – só para ficar bem na foto.

Não faço aqui uma defesa de que deva haver personagens apenas brancos e héteros, isso é evidente. Mas mudar apenas “porque sim” ou porque “é o que deve ser feito” é estelionato intelectual. É chamar o público de idiota. Foi isso que Michelle Rodriguez quis dizer e com o que concordo totalmente.

Entendo também que os super-heróis, por beberem da fonte mitológica e serem representantes de narrativas básicas da cultura humana, são modelos plásticos aos quais cabe qualquer tipo de adaptação. Eles perduram, desde seu nascimento, em toda plataforma de mídia que o Homem foi capaz de criar e nas mais diferentes formas possíveis.

É até por essa característica que pouco importa sua cor ou seu gênero. Eles estão acima e além dessa diferenciação. São espelhos côncavos nos quais nos vemos maiores, sejamos nós meninos, meninas, brancos, pretos, amarelos, azuis e seja lá qual for nossa condição sexual.

Agora que o sonho nerd de ver Peter Parker ao lado dos Vingadores no cinema está tão próximo de se tornar realidade, não cabe errar só para agradar uma suposta opinião pública. Tenho fé na Marvel, porque o histórico joga a favor. Mas nunca se sabe o que pode sair da cabeça de executivos que estão apenas interessados em números e não em histórias – e que não percebem que boas histórias sempre vão gerar bons números.

É só deixar como está, como sempre foi. Pode ter certeza que crianças de todas as idades, credos, raças e gêneros vão adorar. Conte a história certa e eles virão.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).