Uma despedida muito atual

Uma despedida muito atual

Despedida em Grande Estilo é muito mais que uma simples comédia de velhinhos ladrões

 

Terceirização. Fim da aposentadoria. Idosos desesperados. Bancos agindo de maneira inescrupulosa.

 

Todos esses temas não parecem ter espaço num texto sobre cinema ou, mais especificamente, sobre um filme de grande estúdio, com atores conhecidos e com um belo orçamento.

 

Mas Despedida em Grande Estilo, que entrou em cartaz recentemente e ainda pode ser visto nos cinemas, fala disso tudo. Com charme e bom humor, mas está tudo ali.

 

Um “senhor”  trio

As estrelas são Morgan Freeman, Michael Caine e Alan Arkin – por acaso, três vencedores do Oscar -, que se uniram para interpretar Willie, Joe e Al, três amigos que são impulsionados para o crime graças à ganância da empresa na qual trabalharam a vida toda e que, subitamente, acaba com seus fundos de pensão.

 

O filme ganha significado maior no Brasil atual, em que se discutem temas como reforma previdenciária e trabalhista. No ambiente dos EUA, de livre negociação entre funcionários e empresas, no qual não existe FGTS e outros elementos formadores da rede de proteção social governamental, os protagonistas se veem acuados quando a companhia à qual dedicaram décadas de suas vidas decide eliminar as suas operações naquele país.

 

Sem estar no país, a companhia se livra do “peso morto” de cuidar dos seus aposentados e maximiza seus lucros. E a aposentadoria estatal praticamente não existe, deixando os idosos simplesmente ao léu.  Cenas do próximo capítulo no Brasil? Quem sabe…

 

Para pensar

Michael Cain: uma atuação gigante

Quem comanda a gangue septuagenária é Joe, personagem do primoroso Michael Cain. Um homem de bem, Joe vive com a filha e a neta, mas está prestes a perder a casa, porque sem os valores de sua pensão não consegue pagar as prestações da hipoteca.

 

É de se notar que filha e neta moram com Joe porque não conseguiriam se sustentar sozinhas e porque ele vive em uma vizinhança boa, que tem escolas bacanas para a menina estudar.

 

Willie e Al (Freeman e Arkin) dividem uma pequena casa, pois também não conseguiriam se manterem sozinhos. Al dorme numa poltrona, nem cama tem. E a saúde de Willie vem se deteriorando rapidamente.

 

E agora, desamparados, para onde devem seguir? Como resolver os dramas do crepúsculo de suas vidas, reforçados pelo abandono da empresa em que trabalharam por tanto tempo?

 

Há que se pensar o que causa o desespero. O que as pessoas ditas normais são capazes de fazer quando numa situação extrema?

 

Ainda é Hollywood

Mesmo tendo todas essas questões como pano de fundo, Despedida em Grande Estilo ainda é uma comédia hollywoodiana, com tudo que se espera desse tipo de filme: piadas fáceis, algum drama e, neste caso, uma pitada de sensibilidade – daquela que faz a gente chorar por lembrar dos avôs, pais, tios e todos mais.

 

Isso significa final feliz e certa redenção e até uma licença poética, na qual roubar é justo quando se tira de quem abusa dos pequenos. Mas ainda assim, é possível ver mais do que a superfície no que o diretor Zach Braff criou. A essência está registrada numa frase marcante, dita logo no início do filme: “Um país deveria sempre cuidar de seus velhos”. Fica a dica.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).