Brasil: só a ficção consegue lidar com a realidade

Brasil: só a ficção consegue lidar com a realidade

Comparar nossa História com narrativas ficcionais pode ser a chave para nos protegermos de situações ainda piores

 

A narrativa política do Brasil dos últimos anos é mais fantasiosa do que qualquer obra de ficção. Nos últimos dias, com gravações envolvendo o Presidente da República, a comparação primeira foi com House of Cards.

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Tá puxado mesmo…

 

Os esquemas de Frank Underwood se mostram até simples quando comparados com o que os jornais brasileiros retratam em suas páginas.

 

O lado negro da Força

Já houve também comparações com Star Wars e a trama para a chegada ao poder do Império. Tudo bem que a semelhança de Temer com o senador Palpatine ajuda muito nisso também.

 

Clichê sem tamanho, a frase “A Vida imita a Arte” demonstra a nossa necessidade de buscar um significado para os acontecimentos estapafúrdios nas obras ficcionais.

 

Jung já dizia que as histórias estão todas lá, no inconsciente coletivo, e que todos bebemos dessa fonte na tentativa de encontrar equilíbrio psíquico em nossas vidas. Dessa forma, vamos fazendo na realidade o que vimos nos livros, no cinema, nos quadrinhos; e usamos os fatos reais para basear as criações nessas e em outras plataformas.

 

E é olhando para situação brasileira atual que se torna possível pensar no futuro e relacioná-lo com outra obra. Essa, um pouco menos conhecida (infelizmente), mas que é assustadoramente possível. Falo de The Spider vs the Empire State.

 

Um homem aranha, mas não o Homem-Aranha

 

Master of Men!

Primeiro, um pouco de contexto: o Spider é um personagem nascido nos pulps, aqueles romances policiais e de aventura que precederam os quadrinhos de super-heróis, tanto em popularidade, quanto em termos de público atingido.

 

Foram nos pulps que nasceram personagens como O Sombra, Doc Savage, Tarzan, Buck Rogers, Jim das Selvas, entre outros.

 

O Spider, especificamente, foi criado para ser um concorrente direto do Sombra. Suas histórias eram extremamente violentas e contavam como o milionário sem família Richard Wentworth se disfarçava, com capa, chapéu, às vezes máscara, para combater o crime e a injustiça que assolavam Nova Iorque na época da Grande Depressão.

 

Hummm… milionário sem família que combate o crime? Acho que já vi isso em algum lugar…

 

Não é novidade para ninguém que nosso querido Homem-Morcego deve muito aos pulps. O Sombra e o próprio Spider foram grandes fontes de inspiração na criação do Batman.

 

Mas a grande diferença do Spider para os outros heróis é que, em um dado momento, suas histórias começaram a entrar em discussões políticas e se tornaram praticamente um libelo pela liberdade e contra o fascismo e autoritarismo que começavam a ganhar força na Europa pós Primeira Guerra Mundial.

 

E é nessa hora que nasce a maior aventura desse vigilante sombrio: The Spider vs the Empire State.

 

Um Estado fraturado

 

Nessa história, o estado de Nova Iorque, subitamente, se vê tomado por um surpreendente “Partido da Justiça”. Vencendo eleições de modo bastante suspeito, esse partido elege prefeitos e até mesmo o Governador.

 

E ao chegar ao Poder, começa a reescrever as leis, com a desculpa de que isso se faz necessário devido ao caos que está instaurado na cidade e no Estado de NY: a taxa de criminalidade está alta, a corrupção está entranhada nas instituições.

 

Então, com apoio da mídia, o Partido da Justiça “bota ordem” em tudo, estabelecendo um toque de recolher, criando uma tropa policial de elite que age sob a égide de que “bandido bom é bandido morto” e chegando ao extremo de escravizar a população em campos de concentração para gerar mais riquezas para o Estado.

 

Os impostos começam a ser aumentados e, quem não paga, tem seus bens confiscados pelo Governo.

 

Dá para perceber para onde isso vai e qual a relação com o que está acontecendo por aqui? Ganha um beijo do Bolsonaro quem notar alguma semelhança.

 

Um herói contra um Estado inteiro

 

Capa da edição original – Novembro 1938

Vigilante matador sim, mas defensor da liberdade acima de tudo, o Spider começa a achar tudo aquilo muito estranho. Ao investigar a situação, o herói percebe que na tal tropa de elite (chamada de Black Legion), só trabalha gente com um passado questionável…. Ex-presidiários, bandidos soltos em julgamentos duvidosos. Algo de podre parece estar acontecendo.

 

Mais e mais investigações levam a descobertas sinistras: o dinheiro recolhido dos impostos (que foram aumentados significativamente) não vai para os cofres públicos, mas sim é desviado para os bolsos dos governantes – que cada vez mais são descobertos como grandes mafiosos.

 

O Spider então começa uma cruzada contra toda essa estrutura, um herói contra todo um Estado corrupto, contra instituições quebradas e, como não seria diferente numa história clássica do Bem contra o Mal, contra “O Mestre” – o vilão misterioso por trás do esquema todo.

 

Depois de muitas idas e vindas, de perdas e ganhos, o Spider consegue derrotar o Mestre e, com a ajuda da própria população, revoltada com a situação em que se encontrava, o caminho da liberdade é reencontrado e a verdadeira justiça é reinstaurada.

 

Sem vilão, mas com o cenário pronto

 

Seria muito mais fácil se existisse um grande vilão, um único culpado para tudo que estamos passando aqui no Brasil. Infelizmente não temos tanta sorte.

 

Porém, discursos de ódio e que pedem, de maneira ignorante e débil, por intervenção militar ou por uma ação mais dura dos políticos, nos conduzem a um caminho muito parecido de opressão. E que pode colocar no poder os vilões da vida real. Gente que não tem a menor capacidade de fazer nada para efetivamente melhorar alguma coisa por aqui.

 

A gana de buscar um salvador, alguém capaz de estabelecer uma suposta ordem, cria o cenário perfeito para surgir um estado autoritário e que acaba com toda e qualquer chance de pensamento ou comportamento considerado fora do padrão estabelecido como “certo”.

 

Se a ficção serve para algo além de nos levar para lugares melhores e que nos salvam das vicissitudes diárias, é justamente nos preparar para o que pode acontecer, dando a todos nós subsídios para pensar e escolher melhor nossos caminhos.

 

E é interessante ver que, originalmente, The Spider versus The Empire State foi publicado em 1938 e servia como analogia para o Nazismo.

 

Será esse o nosso destino, repetir a História? Melhor não, né?

 

Para saber mais

 

Em 2009, a editora Ace of Aces republicou em um único volume a história, num livro muito caprichado. A publicação original, escrita por Norvell Page, havia sido em três volumes: “The City That Paid To Die“, “The Spider at Bay“, e “Scourge of the Black Legions“.

 

Infelizmente não há versão em Português e mesmo a Amazon Br não entrega o livro no Brasil. É preciso pedir da Amazon gringa.

 

Mas, quem quiser tomar contato mais rapidamente pode ler uma versão em quadrinhos, criada pela Dynamite Comics e republicada por aqui pela Mythos, chamada Máscaras.

 

Capa da versão nacional

Usando a situação colocada na narrativa original, essa versão reúne um grupo de heróis dos pulps para combater o Partido da Justiça ao lado do Spider. É uma excelente chance de ver o Sombra, Besouro Verde e Kato, Zorro, além dos menos conhecidos Lama Verde, Miss Fury, Terror Negro e Morcego Negro em ação.

 

Não tem o mesmo charme e nem o detalhamento do livro original, mas é uma excelente diversão.

 

Que possamos então nos divertir. E aprender. Porque nada pode ser melhor para o Brasil hoje do que uma população que entenda de verdade o que está acontecendo e tome para si o seu destino, sem esperar por salvadores da pátria, pois eles não existem. E nem, infelizmente, heróis como o Spider.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).