Coloca um Jack n’ Coke aí…

Coloca um Jack n’ Coke aí…

2015 termina levando um dos últimos rock heroes do mundo. Um brinde a Lemmy Kilmister!

O ano era 2000 e o mundo não era esse de hoje não. Sim, havia internet, mas não You Tube. Os blogs nasciam, o Twitter nem era uma ideia. Naquele tempo longínquo eu iniciava minha carreira no jornalismo musical e as revistas, tanto aqui, quanto lá fora, tinham um papel decisivo na difusão das informações.

O que isso tem a ver com a morte de Lemmy? Vem comigo que daqui a pouco você entende.

Meu primeiro emprego foi na Editora HMP, que publicava, entre outras revistas, a Cover Guitarra, a Batera e a Cover Teclado. Eu entrei para trabalhar nesta última, tendo como editor o hoje maestro da Jazz Sinfônica, Fábio Prado.

Como o mentor intelectual de todas as revistas, o mestre Regis Tadeu destilava sua fúria em linhas e mais linhas sobre todos os estilos musicais, mas o rock era a base de tudo que rolava por ali.

Como falei mais em cima, a internet ainda dava passinhos de bebê aqui no Brasil, então as publicações impressas eram como ficávamos sabendo o que estava rolando com os artistas, os pequenos segredos das produções de cinema e os próximos álbuns que estavam sendo produzidos e que seriam comprados em CDs em breve. Ah, o século passado…

Foi nesse contexto que recebi, das mãos do já citado Regis, uma revista Q inglesa, que tinha ninguém menos do que o líder, baixista e voz do Motörhead: Lemmy Kilmister. (Viu, eu disse que chegava a parte sobre ele…).

Na matéria, o repórter contava como bateu na porta de Lemmy em Manchester e foi recebido por ele de cueca, botas e sem camisa, com um cigarro pendurado no canto da boca e sem saber muito bem que dia era aquele.

A matéria seguia contando como Lemmy levava uma vida completamente desregrada, à base de Jack n’ Coke, num ambiente completamente zuado, por falta de adjetivo melhor. As fotos mostravam um tapete (ou carpete) cheio de bitucas de cigarro, pedaços de pizza e muita, muita sujeira.

Lemmy contava ainda que já não gostava de fazer sexo, que havia um monte de mulher querendo transar com ele, mas que já estava cansado demais e pedia apenas para elas fazerem sexo oral, “porque dá menos trabalho”.

Meu ponto nisso tudo? Faz quase 16 anos dessa matéria. 16 fucking anos. E Lemmy ainda tocava, até outro dia. Qualquer um de nós, só agora nas festas de final de ano, bebe um pouco a mais e já fica com uma ressaca monstro, tem piriri, dor de cabeça e tudo mais. Mas Lemmy? Lemmy se mantinha lá, distorcendo o baixo só com o volume no máximo nos seus Marshalls, fazendo um som que ninguém mais conseguia, só o Motörhead.

Nenhuma banda jamais soou como o Motörhead. A essência do Power Trio estava ali, numa sonoridade completa, cheia. Houve mudanças na formação, mas o baixo de Lemmy mantinha o peso e também a melodia sempre muito clara.

É engraçado ouvir Motörhead porque é um peso diferente de outras bandas de Metal, porque melodicamente a banda é incrível. Canções como Iron Fist, a clássica Ace of Spades e mesmo as versões de God save the Queen e a mais famosa, Louie Louie, mostram isso.

O Motörhead, ao lado de Iron Maiden e Judas Priest, foram as bandas que me educaram musicalmente. Graças ao meu primo mais velho Johnny, rocker de raiz e conhecido DJ de rockabilly do underground paulistano, ouvi doses constantes os sons dessas bandas desde moleque. Daí para o resto foi um pulo, misturando ainda com as coisas que minha mãe tocava: Beatles, Bee Gees e muito sertanejo (raiz e aqueles bem bregas da década de 1990). Isso abriu minha cabeça e foi extremamente útil naquele início de carreira que falei ainda há pouco.

Voltando ao Lemmy, tive o prazer de assistir no dia 6 de maio daquele mesmo ano 2000. Num show com energia sem limite, ainda que com um som não dos melhores, eu e meus amigos pudemos testemunhar nosso ídolo da adolescência tocando como ele melhor sabia: microfone no alto, ventilador embaixo fazendo o cabelo esvoaçar e aquela voz rasgada que só muito Jack Daniels e Marlboro é capaz de dar.

Aliás, falei que 16 anos atrás Lemmy já era bagaceiro. Mas é claro que isso vinha de muito antes. Lembra do meu primo Johnny, que falei agora há pouco? Então… O ano era 1989 e o Motörhead estava no Brasil pela primeira vez. Naquela época, os artistas quando vinham para São Paulo, ficavam quase sempre no hotel Hilton, no centro da cidade.

E o centro sempre foi a casa de quem gostava de rock, com a Galeria, a Woodstock e os bares todos. Pois bem, Johnny estava dando um role, passou em frente ao Hilton e viu um amigo seu ali na escada e foi trocar uma ideia. Descobriu que o cara estava trabalhando de roadie para o Motörhead e começaram a conversar. Nisso começa uma gritaria no lobby do hotel. Olhando lá para dentro a visão não poderia ser mais rock n’roll: Lemmy de cueca samba-canção, jaqueta de couro sem camisa e botas brancas, gritando que alguém havia sumido com seu Jack Daniels.

Óbvio que quem sumiu foi ele mesmo, para dentro do copo e de lá para a boca. Apagou e nem percebeu.

Grande Lemmy. Como disse meu mestre Regis, no seu texto no Yahoo:

“Quero acreditar que ele agora está aqui ao meu lado, com um copo de Jack Daniels e Coca-Cola em uma mão, um cigarro na outra, com as indefectíveis botas brancas e jaqueta de couro surrada, dizendo em meu ouvido “Viu como vale a pena ser genuíno, cagar e andar para o que as pessoas pensam ou esperam de você e viver do jeito que se deve?””

É isso aí! Como Lemmy mesmo nos ensinou:

You know I born to lose, and gambling is for fools
But that’s the way I like it baby
I don’t wanna live forever

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

4 Comentários

  1. Muito bom! Essa 1a vez deles no Brasil foi histórica! Os “antigos” contam muita história!!

    • Pois é… tem várias outras histórias dessa passagem pelo Brasil. Virou até música, né? “Going to Brazil”!

  2. Muito bom! Essa 1a vez deles no Brasil foi histórica! Os “antigos” contam muita história!!

    • Pois é… tem várias outras histórias dessa passagem pelo Brasil. Virou até música, né? “Going to Brazil”!

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