Voltada para público infantojuvenil, 24ª edição da Bienal do Livro desaponta

Voltada para público infantojuvenil, 24ª edição da Bienal do Livro desaponta

Com poucos escritores de peso e descontos mínimos, Bienal passa batida e não quebra recorde de público ou vendas

* Por Carolina Ferreira

Essa 24ª edição da Bienal do Livro sabia que precisava estar acima da média. Além da crise econômica, que poderia afetar diretamente a venda de livros, o evento ainda dividiria a atenção com a Brasil Game Show (BGS) em seu último fim de semana.

Sabendo deste cenário, os produtores decidiram apostar em massa na fama dos youtubers e blogueiros, que dominaram a programação do início ao fim e atraíram milhares de jovens que gritavam em coral cada vez que um deles aparecia para divulgar seu mais novo livro. O preço do ingresso este ano já começou salgado, mais que o dobro da última edição, uma amostra de como seria o evento que decepcionou nas ofertas e livros.

Os descontos este ano eram mínimos – para não dizer pífios. Editoras de peso como Panini, Rocco, Record não passaram dos 20%, o que poderia até ter sido aproveitado se muitos dos títulos ali expostos não apresentassem um valor quase exorbitante, reduzindo o desconto em quase nada. Quem fez a lição de casa e pesquisou o preço de alguns títulos antes de ir ao evento provavelmente saiu de mãos vazias, já que muitos livros da feira estavam com preço até 50% superior aos das livrarias, assim mesmo com as etiquetas anunciando o “valor baixo” era fácil ver que saia mais barato comprar de casa.

Ruas... Nem tão cheias assim.

Ruas… Nem tão cheias assim.

As editoras que de fato apresentavam algum desconto considerável decepcionaram nos títulos, prova disso que foi a Martins Fontes, que apesar de não elevar o preço de seus livros dando falso desconto, veio para um evento como a Bienal sem a trilogia completa dos Senhor dos Anéis, era até possível encontrar a parte um e dois, mas se você procurasse pela terceira descobriria que está em falta há quase um mês.

No dia de maior movimento também foi possível perceber a falta de estrutura de alguns expositores. O Submarino, que este ano decidiu levar livros físicos para o evento, estava sem sistema para cartão. Ironicamente a loja anunciava que só aceitava pagamentos em cartão! A Saraiva também se mostrou pouco preparada, já que em pleno sábado era possível ver pessoas brigando por livros que tinham apenas um ou dois exemplares a venda.

E os clássicos?

Livros, aliás, não faltaram, mas não os clássicos. Se você estava à procura de Nabokov, Tolstói, Freud ou Foucault precisou penar para encontrar alguns títulos. Mas se estivesse à procura dos livros do momento não precisava dar dois passos para encontrar As Crônicas de Gelo e Fogo, Harry Potter e até mesmo o livro dos Cúmplices de um Resgate.

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Quem mesmo?

Os verdadeiramente escritores Mauricio de Souza com a sua Turma da Mônica, Pedro Bandeira, com o clássico O Fantástico Mistério de Feiurinha e Mirian Keys (o nome por trás do best-seller Melancia), apesar de terem suas sessões lotadas, quase passaram em branco.

As filas e estandes deram destaque a nomes como Kéfera Buchmann, Christian Figueiredo, Maju Trindade, PC Siqueira etc.. Para os fãs dos blogueiros e youtubers, a Bienal não receberá queixas, pelo contrário será lembrada para a eternidade (enquanto ela durar).

A verdade é que a Bienal apenas refletiu o mercado de livros e a crise na qual ele se encontra. A queda em vendas tem feito as editoras apostarem no que é popular, por isso a ascensão dos livros assinados por jovens que estão fazendo sucesso no YouTube. É necessário refletir mais do que sobre o evento em si, mas sim no caminho que a juventude vem trilhando e o conteúdo que vem consumindo.

Não adianta reclamar que as crianças só se preocupam em consumir a Galinha Pintadinha se os pais não tem tempo ou paciência para lerem para os seus filhos uma obra de Lewis Carroll ou L. Frank Baum. Se continuarmos assim, Alice no País das Maravilhas ou O Mágico de Oz se tornarão apenas boas lembranças que logo serão esquecidas e todo o trabalho dos irmãos Grimm em transcreverem os contos de fadas com medo que eles desaparecessem… será em vão.

Números dessa edição

  • Investimento de R$34 milhões, mesmo valor de 2014.
  • 684 mil visitantes. Em 2014 foram 720 mil e em 2012, 750 mil.

 

carolCarolina Ferreira é formada em jornalismo, nerd, cinéfila e maluca por super-heróis (sejam eles da DC ou Marvel), não gosta da rivalidade entre Star Wars e Star Trek. Ama ser ela mesma, mas se pudesse seria o Batman.

 

 

 

 

2 Comentários

  1. Ótimo artigo carolina. Sou escritor e queria saber como tinha sido e seu texto confirmou minhas suspeitas. Hasta!

  2. Ótimo artigo carolina. Sou escritor e queria saber como tinha sido e seu texto confirmou minhas suspeitas. Hasta!

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