Sangue Velho: GTA – The Trilogy

Sangue Velho: GTA – The Trilogy

GTA: The Trilogy relembra as origens de uma das maiores franquias de games e fica a pergunta: será que os jogos sobreviveram ao passar dos anos?

*Por João Bönecker

Se você teve um Playstation 2 (ou estava vivo) entre 2001 e 2004, uma das mais incríveis épocas na história dos vídeo-games, com certeza já jogou, mesmo que em uma visita na casa de algum amigo do colégio, algum dos jogos da trilogia clássica da polêmica franquia “Grand Theft Auto”, ou GTA como é conhecida por todos.

Esta trilogia consiste dos jogos “GTA 3”, “GTA: Vice City” e “GTA: San Andreas”. Quando lançados originalmente, há 15, 14 e 12 anos atrás respectivamente, estes jogos foram aclamados pela crítica e público, sendo sucessos absolutos de vendas. Agora, em 2016, a Rockstar Games (desenvolvedora dos jogos da série) relançou esta trilogia na loja online do Playstation 4.

Como estes jogos se saem após mais de uma década de seu lançamento? Ainda mais agora que temos um jogo tão sofisticado quanto GTA 5 à nossa disposição? Vejamos um de cada vez.

GTA 3 (2001)

gta3Este jogo é tão importante para o mundo dos games quanto “Super Mario Bros”. Foi ele que definiu varias características no estilo de jogos de mundo aberto até os dias de hoje, desde mini mapas no canto da tela, até a mecânica de missões que podem ser acessadas pelo jogador na ordem que quiser e quando quiser. Caso o jogador prefira, pode passar horas simplesmente vagando pelas ruas de Liberty City, uma recriação da cidade de Nova York, participando de missões secundarias de vários tipos. Roubar um carro da policia permitirá que você participe de missões de (ironicamente) caça à bandidos. Tomar o controle de uma ambulância, abrirá a possibilidade de participar de missões de salvamento, enquanto adquirir um taxi, lhe permitirá… bem, ser um taxista. No que diz respeito a possibilidades e coisas para fazer, GTA 3 fica na frente de muito jogo lançado atualmente, mesmo que seus visuais deixem bem claro a sua idade. Porém, quando você começa a jogar, recebe uma surpresa não muito agradável: a câmera não é controlada com a ajuda do analógico direito, como é hoje em dia.

Pode parecer pouca coisa, mas não é. Atualmente estamos tão acostumados em ter controle total sobre nossos jogos que, quando temos uma restrição dessas, parece que alguém colocou um cadeado no controle. Minha reação primaria quando estava jogando e precisava atirar em algum inimigo ou manobrar um carro, era girar, sem sucesso o analógico para visualizar melhor a situação. Isso resultou em algumas mortes e eu fui diversas vezes no menu de opções do jogo para ver se poderia mudar o controle da câmera de alguma maneira, mas não tinha jeito, era assim que o jogo funcionava.

Não apenas os controles mas um outro grande detalhe me incomodou: a falta de checkpoints. Quando você falha uma missão, não surge uma opção de “gostaria de tentar de novo?”. Se quiser uma outra tentativa, deverá se dirigir novamente ao ponto em que a missão foi ativada, mesmo que signifique ir até o outro lado da cidade. Além disso, morrer ou ser preso significa ter suas armas confiscadas.

Mas, mesmo assim, consegui me divertir bastante. Depois de um tempo percebi que o jogo não era feito para ser jogado a pé. O foco era na direção. Sim, por mais que algumas missões lhe façam sair do carro para atirar em inimigos, a maneira mais eficiente de sair vivo dos combates era dirigindo. Muitas vezes quando o jogo dizia “mate tal pessoa” eu atropelava o mesmo, ou corria o risco de ser alvejado repetidamente por espingardas. Isso não apenas pela câmera, mas pelo próprio sistema de mira que (a não ser por rifles de precisão) funciona com uma mira automática que, para ser ativada, exige que você esteja em proximidade com os inimigos. Isso quase sempre resulta em morte por que sua energia do personagem não dura mais do que alguns tiros.

Após ler o que eu disse, não vá pensando que tudo o que acontece sobre quatro rodas é perfeito. De jeito nenhum, dirigir no jogo também é uma tarefa perigosa. Dar uma curva fechada em uma velocidade acima de 60 km por hora pode resultar em seu carro capotando, graças à física louca do game.

Mesmo que as mecânicas sejam incômodas, o enredo do jogo é excelente. A Rockstar sempre foi muito boa neste quesito, criando histórias interessantes e dignas de filmes. Neste caso, a história segue uma linha na pegada de “Os Bons Companheiros” de Martin Scorcese. A história segue um bandido mudo e sem nome (em outros jogos da série descobrimos que ele se chama Claude) enquanto ele vive em Liberty City fazendo serviços para diversos grupos criminosos, como a máfia italiana e a yakuza, a máfia japonesa. Os dubladores e trilha sonora, que consiste de diversas rádios, que vão desde rock clássico, passando por eletrônica e chegando ao rap, também fazem um ótimo trabalho, dando vida a história com maestria.

No fim das contas, é inegável que GTA 3 seja um jogo ultrapassado, graças às suas mecânicas primitivas. É algo incrível pensar em como a série evoluiu até se tornar o que é hoje. Mas mesmo assim, é um jogo que ainda pode ser bem aproveitado, mas tendo em mente que uma dose grande de paciência é necessária.

GTA: Vice City (2002)

Este era o único dos jogos do pacote em que eu nunca havia tido a oportunidade de experimentar. Sempre que eu pesquisava sobre ele, não faltavam coisas boas para ler. História incrível, missões divertidas, personagens sensacionais, mapa que reconstruía fielmente uma Miami anos 80 (para mim este era um ponto alto). Para um fã da serie como eu, este jogo tinha o hype no teto. Porém, eu tive uma grande (e desagradável) surpresa.vice city

Mesmo que eu tenha adorado a história a lá “Scarface” (muitas referências a este filme estão presentes) que conta a história de Tommy Vercetti, um criminoso que vai subindo na vida criminosa de Vice City. A vibe dos anos 80 é perfeitamente representada nos diálogos, visual e excelente trilha sonora do jogo. O problema é que praticamente todas as mecânicas que me incomodaram em GTA 3 estavam presentes. A falta de controle na câmera, falta de checkpoints, mira estritamente travada e outros. Isso quer dizer que o jogo é tão bom quanto GTA 3? Não.

Lembra quando eu disse que, apesar dos defeitos de câmera e mira, GTA 3 não era necessariamente um jogo de tiro? Pois é, este aqui já se mostrou guinando notavelmente para uma linha focada em tiroteios. Muitas missões colocam o jogador em um cenário recheado de inimigos e o forçam a enfrenta-los na raça com um arsenal que vai desde facas, até lança misseis. Isso seria muito divertido se, como eu mencionei antes, a mira não te obrigasse a se aproximar perigosamente dos inimigos armados. Quando entrava em um tiroteio, eu me via imediatamente me afastando e utilizando um dos rifles que permitiam mira manual.

Honestamente devo dizer que GTA: Vice City é , entre os três games incluídos na compra, o que menos se sai bem hoje em dia, sendo muitas vezes absolutamente frustrante.

GTA: San Andreas (2004)

Este game pode não ter sido revolucionário, como foi o caso de GTA 3, mas GTA: San Andreas é com certeza um dos maiores pilares da história dos games. É o jogo mais vendido do catalogo do PS2 e, sejamos honestos, o GTA mais famoso. Com seu mapa colossal, que abriga não apenas uma cidade, mas todo um estado, conta com três grandes metrópoles (baseadas em Los Angeles, São Francisco e Las Vegas) cada uma com diversas coisas para fazer, que podem deixar o jogador ocupado por semanas.

A história segue uma linha mais “Os Donos da Rua”, contando a trajetória de Carl “CJ” Johnson como um ex-membro de gangue na periferia de Los Santos (a fiel representação do jogo da cidade de Los Angeles) que ao retornar à cidade após 5 anos vivendo fora, encontra sua família a beira do desastre. O enredo é extremamente interessante e o leva em uma viagem de tirar o folego por todo o fictício estado, passando por cerca de 103 missões. Viajar em uma autoestrada, passando por uma floresta enquanto um céu alaranjado de pôr do sol pira acima de você, enquanto “Horse With No Name” do America toca no rádio é uma experiência que poucos jogos podem proporcionar.

Fora do quesito história, este é o jogo que finalmente resolveu (quase) todos os problemas técnicos que assombravam os títulos anteriores. Agora a câmera é controlada livremente com o analógico direito e, ao utilizar armas, é possível mirá-las manualmente para atingir os inimigos a uma longa distancia e acertar tiros mais certeiros, como na cabeça por exemplo. Os carros também passam uma sensação mais firme e capotam bem menos. Infelizmente, problemas como a falta de chekpoints em missões ainda estão presentes.

Entre os três jogos, este é o que melhor se sai na atualidade graças as suas mecânicas que, apesar de velhas, não ficam de jeito nenhum no caminho da diversão. Qualquer um poderia aproveita-lo hoje.

Conclusão

GTA: The Trilogy é uma viagem nostálgica. Fora uma sutil remasterizada nos gráficos, nem um pixel foi mudado de lugar para o lançamento destes games na atual geração de consoles. Isso pode ser muito bom, ao mesmo tempo que pode ser muito ruim. Por mais que algumas pessoas prefiram jogar clássicos exatamente como eles eram no lançamento, alguns jogos precisam de mecânicas um pouco mais atualizadas para uma época diferente.

joao boneckerJoão Bönecker é um paulistano, aspirante a escritor, e com uma paixão por cinema. Adora quadrinhos e fotografia. Dono e autor do blog Interest You.

2 Comentários

  1. […] Post originalmente publicado por mim no blog Armazém Pop. […]

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