Superficialidade empobrece live-action de Ghost in the Shell

Superficialidade empobrece live-action de Ghost in the Shell

Adaptação do anime para o cinema acerta ao construir um universo distópico, mas falha ao não conseguir se aprofundar nas importantes discussões que propõe

 

O dilema sobre qual o limite para o uso da tecnologia é um assunto frequente em produções audiovisuais. Recentemente, tivemos a ótima série “Westworld”, da HBO, mas muito tempo antes, em 1995, era lançado “Ghost in the Shell”, um anime que encarava essa questão abertamente e de maneira até profunda. “A Vigilante do Amanhã” é sua adaptação cinematográfica, que é interessante por ser até fiel ao original, mas não consegue ir além da superfície dos assuntos com os quais lida.

 

No filme, acompanhamos a história da Major (Scarlett Johansson), uma androide de tecnologia de ponta e com um cérebro humano. Ela é a principal integrante de um grupo especial da polícia chamado Seção 9 e precisa investigar as misteriosas mortes de cientistas da enorme corporação que a criou, ao mesmo tempo em que lida com frações do passado que insistem em aparecer na frente dela e que a levam a questionar o modo como vive.

 

A Major atacando as robôs gueixas, uma das cenas que vieram direto do anime.

O longa é baseado principalmente no primeiro anime e é uma experiência bastante relacionável para quem o assistiu. A icônica cena de abertura da animação está lá quase inteira, bem com a sequência do salto do prédio e ataque às gueixas, os espaços onde a Major mora e vai relaxar, a luta em que ela está invisível no mar e até o confronto final. Com relação ao anime, o filme vai um passo além, na apresentação da vida pessoal da protagonista, o que acaba fazendo parte das derrapadas do longa.

 

Em meio a um bom trabalho de ambientação, que usa bem a computação gráfica para criar uma Tóquio futurista e que em muito lembra a distopia de “Blade Runner”, somos colocados diante da busca por humanidade. O filme até tem um ritmo de anime, menos frenético do que filmes de ação no geral. O problema é que, para apresentar aquele universo, o diretor Rupert Sanders deixou as importantes discussões levantadas pelo filme muito superficiais. E isso fez, inclusive, com que o vilão Kuze (Michael Pitt) e as consequências que ele poderia trazer para a protagonista fossem diminuídos, tirando força da história.

“Whitewashing”

Batou (Pilou Asbæ) em ação com a Seção 9.

As críticas sobre “whitewashing” (o uso de atores ocidentais para um filme que se passa no Japão) bombardearam o longa desde quando Scarlett Johansson foi anunciada como a protagonista, mas não é algo que chega a ser um grande problema. É até compreensível que uma multinacional utilize um modelo ocidental para fazer um androide, especialmente nesse futuro, em que a miscigenação parece ser bem forte. Também é aceitável que uma mulher ocidental, a Dra. Ouelet (Juliette Binoche) seja a responsável pelo projeto. O que não é compreensível são personagens falando inglês quando claramente não poderiam, especialmente quando um dos principais, o superior da Major, Aramaki (Takeshi Kitano), só fala japonês. Era um cuidado de produção que faria o filme ganhar bastante em qualidade.

 

A Major talvez seja uma das atuações de menos destaque de Scarlett Johansson. A atriz tem bagagem em filmes de ação, mas tenta imprimir um efeito robótico à maneira como a Major se movimenta que, de forma caricata, tira a naturalidade em muitos momentos. E ela também é prejudicada pelo roteiro, de Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger, que faz a protagonista passar por toda uma transformação interna para chegar na última cena e negar absolutamente tudo aquilo.

 

A construção do universo tem bom design de produção.

“Ghost in the Shell”, o anime, se preocupava em apresentar um conceito, até mais do que uma história, e por isso até hoje tem sua relevância. “A Vigilante do Amanhã” parece claramente ter vindo para começar uma franquia. Vamos ver se terá um amanhã para continuar.

 

 

 

Para saber mais sobre Ghost in the Shell, a recém publicada no Brasil versão em mangá é uma ótima pedida.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.