Vidro

Vidro

Ao concluir sua trilogia sobre super-heróis, Shyamalan acaba deixando de lado o que tinha conseguido de melhor no início

 

Se existe um diretor que realmente divide opiniões em Hollywood é M. Night Shyamalan. Após o seu estouro com o indiscutível “Sexto Sentido”, seguido por dois sucessos, “Corpo Fechado” e “Sinais”, o indiano embarcou em uma montanha-russa que, na maior parte do tempo, ficou parada na parte de baixo. Conhecido pelas suas famosas reviravoltas e pelo poder de construir tensão, ele, que muitas vezes foi comparado a grandes nomes, como Steven Spielberg, acabou se tornando refém do seu estilo e, quando quis ampliar, as coisas não funcionaram tão bem.

 

Nem tudo é ruim

Mas há muitos méritos no cinema de Shyamalan. Seus primeiros sucessos mostram um diretor extremamente detalhista na construção dos elementos narrativos, que sabe posicionar bem sua câmera e utilizar de movimentos sutis para que o espectador possa absorver as imagens. E ele merece mais créditos por, ainda em 2000, apostar em um filme original de histórias em quadrinhos. Ainda que, na revisão, tenha perdido um pouco do fôlego, “Corpo Fechado” traz uma história de origem intrigante e com experimentos do gênero HQ (como cenas que remetem a quadros de revistas) pouco vistos ainda hoje. É por isso que “Vidro”, a conclusão da franquia iniciada ali (“Fragmentado”, lançado em 2017, é o segundo filme), deixa uma sensação de potencial desperdiçado.

Dunn (Bruce Willis) abraçou de vez seu lado super-herói. (Divulgação)

 

Sobre “Vidro”, com alguns spoilers de “Corpo Fechado”

A história começa de onde “Fragmentado” parou, com as 19 personalidades de Kevin (James McAvoy) sequestrando e matando pessoas na Filadélfia para satisfazer a mais bestial de todas elas, “A Fera”. Os crimes são investigados de perto por David Dunn (Bruce Willis), o protagonista de “Corpo Fechado”, que agora é, junto com o filho, Joseph (Spencer Treat Clark), dono de uma loja de equipamentos de segurança e atua como o justiceiro conhecido como “O Vigilante”. O último personagem do trio, Elijah Price (Samuel L. Jackson), ou Senhor Vidro, continua detido e pesadamente sedado na instituição para presos com problemas psicológicos para qual havia sido enviado no final de “Corpo Fechado”.

 

Algo que incomoda em “Fragmentado” é a questão de Shyamalan, que também é o roteirista de toda a trilogia, não ter conseguido introduzir muito bem o fator sobrenatural, o que acabou prejudicando a execução do filme. Em “Vidro”, o diretor já joga dúvidas sobre esse ponto por meio da psicóloga Ellie Staple (Sarah Paulson), que busca, utilizando lógica, desacreditar os poderes do trio e, assim, tenta tornar a história mais interessante.

 

Patricia, a personalidade mais polida entre as 19 de Kevin (James McAvoy) (divulgação).

 

Narrativa sem equilíbrio

Mas, se nesse aspecto Shyamalan consegue obter maior equilíbrio, por outro lado, ele acaba por transitar entre o excesso de explicações (conte quantas vezes ele mostra que um personagem do presente é o mesmo do passado) e a falta delas – em nenhum momento de “Fragmentado”, por exemplo, é justificada a tamanha empatia que Casey (Anya Taylor-Joy) tem por outro personagem do filme em “Vidro”. Esse problema de coesão também vale para a costura entre os filmes, o diretor faz muito bem a ligação de uma cena de “Corpo Fechado” com uma informação revelada em “Vidro”, ao passo que utiliza outras cenas antigas apenas para reforçar informações mais do que já mostradas, deixando uma sensação de que só as inseriu porque podia.

 

Entre as atuações, destaques para o malabarismo de McAvoy e a capacidade de Jackson de ocultar sentimentos. Apesar de que ambos acabam prejudicados pelo roteiro, o primeiro, por ter menos tempo de trabalhar seus personagens do que em “Fragmentado”, onde foi o grande destaque do filme, e o segundo pelo maniqueísmo, que foi ampliado por Shyamalan em “Vidro”. Já Willis faz um trabalho até mais consistente do que no longa original, mas, dos três, é o que menos tem tempo de tela e, até por isso, não consegue desenvolver muito bem seu David Dunn.

 

Price (Samuel L. Jackson), uma mente na escuridão. (divulgação)

 

Perdendo a essência

E é o Senhor Vidro, de Samuel L. Jackson (aliás, um detalhe curioso, a atriz Charlayne Woodard, que interpreta a mãe dele, é na verdade cinco anos mais nova do que o “filho”), que dá nome ao filme, quem mais representa o que foi perdido de 2000 para cá. Ele costumava ser um um personagem bem mais instigante e misterioso, o que refletia por todo o estilo do filme. Inclusive, tinha melhores motivações. Já em “Vidro” ele assume uma clara faceta de vilão e, assim como o filme, não consegue engrenar.

 

Estamos em uma época em que é quase impossível ir ao cinema e não se deparar com pelo menos um filme de super-herói. Com maior ou menor qualidade, a questão é que todos vêm de outras mídias. O grande mérito de Shayamalan com sua trilogia, portanto, é ter apostado em uma história original, com personagens criados para o cinema. E, por mais que dê para entender e apreciar a mensagem que o diretor busca passar ao final, é uma pena que as principais forças do seu cinema e os melhores aspectos da transposição das HQs para as telonas, vistos no filme original, tenham ficado pelo caminho.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.