Thor – O Mundo Sombrio: escuridão só no título

Thor – O Mundo Sombrio: escuridão só no título

Com muito humor, a Marvel acerta outra vez

Uma das principais características das revistas em quadrinhos – e que diferencia esta mídia de todas as outras – é a independência do roteiro em relação ao orçamento. Explico: não custa mais desenhar NY, Buenos Aires ou mesmo a imaginária Atlântida. Os roteiristas não estão presos por nada que não apenas sua criatividade.

O cinema, notadamente, sempre teve esse tipo de restrição. Algumas adaptações de HQs para as telonas tentaram distorcer essa realidade, mandando a linguagem dos quadrinhos para a sala escura. Sin City, 300 e Scott Pilgrim contra o mundo são bons exemplos, enquanto é melhor ignorar The Spirit.

Mas algo muda a partir deste Thor – O Mundo Sombrio. Desde que a Marvel começou seu universo cinemático, nenhum filme foi tão verdadeiramente quadrinístico quanto este.

Nesta segunda aventura do filho preferido de Odin, o público é convidado a conhecer com mais profundidade Asgard, além de outros locais de Midgard (a nossa Terra) e ainda Vanaheim e Svartalfheim. Saltando de um local para outro como o virar de uma página, o filme lembra muito a lógica de um gibi.

Mas não é só isso que aproxima o segundo Thor das HQs. O roteiro é rápido (e um pouco falho, é verdade), lembrando em muitos momentos uma revista dos Vingadores escrita por Brian Bendis: ação em grande escala entremeada por diálogos espertos em cenas focadas no desenvolvimento dos personagens.

Não faltam sorrisos nem humor neste filme

Isso faz de Thor – O Mundo Sombrio o mais divertido dos filmes Marvel, rivalizando com o primeiro Homem de Ferro, mas com muito mais piadas. Este elemento, aliás, certamente vai incomodar muitos fãs das revistas em quadrinhos. Mas o componente do humor humaniza e cria empatia, algo difícil de ser feito quando a matéria prima para a história a ser contada são deuses e outras dimensões.

Mas para agradar aos fãs, há muito mais tempo de tela para Heimdall, Lady Sif, Volstagg e Fandral, que se envolvem mais na trama. E há motivo para isso.

O foco aqui, diferente do primeiro filme, dirigido pelo shakespeareano Kenneth Branagh, é mostrar que os deuses têm desejos e aspirações humanas. Como a vingança dos Elfos Negros, os vilões desta fita, que querem fazer o universo voltar aos tempos da escuridão, antes da luz asgardiana chegar. E outras vinganças que surgem no decorrer da narrativa e que terminam por unir os diametralmente opostos irmãos Loki e Thor.

Os irmãos reunidos. E Loki sendo espetacularmente Loki...

Falando neles, Chris Hemsworth (Thor) e Tom Hiddelston (Loki), depois de dois filmes (aqui se soma também Os Vingadores), estão muito mais à vontade em seus papéis, com desempenhos muito bons. Hemsworth, que no primeiro filme da franquia era apenas um grandalhão bonito, mostra que tem um timing notável nos diálogos – em especial naqueles feitos com a gracinha nerd absoluta, Natalie Portman (que como sempre, está ótima).

Sendo o filme que sucede o complexo Homem de Ferro 3, Thor – O Mundo Sombriotraz um bem vindo sopro de leveza, com um visual (apenas visual, não se assustem) que lembra Star Wars – Episódio 1 – A Ameaça Fantasma e uma mistura de magia, aventura e um “quê” de ficção científica gostosa de assistir.

É diversão garantida e que parece ter sido feita para dizer claramente para a Distinta Concorrência que lançou seu Homem de Aço neste ano que as histórias de super-heróis podem (e às vezes devem) ser mais solares e menos pesadas.

Além disso, tem a cena pós-créditos mais maluca desde que Nick Fury chamou Tony Stark para participar da Avengers Initiative, preparando o bem o terreno para Guardiões das Galáxias. Mas é também uma cena para fãs. Entendedores entenderão.

Em resumo, Thor – O Mundo Sombrio é mais uma prova de que a Marvel sabe bem o que faz no cinema. E que nunca foi tão bom ser nerd.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).