Pantera Negra

Pantera Negra

Livre das amarras do universo da Marvel, Ryan Coogler investe na cultura que envolve o Pantera Negra e cria um dos mais diferentes filmes de origem de super-heróis

 

Em alguns momentos de Pantera Negra, a sensação é de que estamos diante de uma produção da Disney. São tantas pessoas em roupas coloridas cantando e dançando ao som de musicas tribais, com uma bela paisagem natural de fundo, que quase esquecemos que trata-se de um filme de super-herói. E isso não é demérito.

 

Escrito (juntamente com Joe Robert Cole) e dirigido por Ryan Coogler, Pantera Negra é uma das mais diferentes entradas do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). É uma junção da cultura africana com as cenas de ação, luta e violência que estamos acostumados a ver nos filmes do gênero. No fim, é um reflexo do próprio universo do Pantera, afinal, Wakanda, o país africano fictício onde se passa a maior parte da trama, é uma mistura de vida selvagem com a mais avançada tecnologia.

 

Wakanda: a mais avançada tecnologia com a mais rústica das paisagens.

Um novo rei chega ao trono

Pantera Negra conta a história do herói que foi apresentado pela primeira vez em Capitão América: Guerra Civil. Lá, vimos o pai dele, então rei de Wakanda, morrendo após um atentado na ONU. E aqui, vemos as repercussões desse evento, com T’Challa (Chadwick Boseman) assumindo o trono. Após sua confirmação como rei (em um processo que evidencia a culturalidade do filme), o protagonista passa a lidar com questões mal resolvidas do passado e que ameaçam a paz em Wakanda, onde estão todas as reservas mundiais do vibranium, o metal mais poderoso e versátil (e, portanto, visado) do mundo.

 

Ao contrário da maioria dos filmes da Marvel, Pantera Negra não conta com a participação de outros super-heróis e dedica o tempo para construir seu universo e apresentar seus habitantes. E, em outra demonstração de como o filme é diferente, o protagonista, em suas missões, conta sempre com o apoio de mulheres, que são essenciais para a trama e estão bem representadas, a começar pela general Okoye (Danai Gurira, a Michonne, de The Walking Dead), a habilidosa e leal líder da guarda real, que é toda feminina. Há também Nakia (Lupita Nyong’o), a espiã e interesse amoroso de T’Challa e o prodígio da tecnologia Shuri (Letitia Wright), que é irmã do rei e desempenha um papel parecido com o do agente Q em 007, sendo responsável por criar as armas usadas pelo irmão durante os combates.

 

T’Challa acompanhado por Nakia (esquerda) e Okoye. Por aqui, as mulheres comandam a ação.

 

Coogler conseguiu reunir um elenco cheio de destaques em Pantera Negra. Além dos já citados, o filme conta com Michael B. Jordan, o protagonista do seu filme anterior, Creed, que aqui assume o papel do vilão Erik Killmonger, um personagem complexo por conta do seu passado traumático e do presente, no qual transita por vários caminhos; Daniel Kaluuya (que concorre ao Oscar por Corra), no papel de W’Kabi, um personagem com arco dramático problemático por tomar atitudes bem pouco convincentes, além de participações rápidas, porém, incisivas de Sterling K. Brown (N’Jobu), Forest Whitaker (Zuri) e Angela Bassett, como a Rainha-Mãe Ramonda. Martin Freeman, como o agente Everett Ross, e Andy Serkis, revivendo o exagerado vilão Ulysses Klaus completam o elenco principal. Ah, é claro, também tem o Stan Lee.

 

Questões raciais em foco

Pantera Negra é diferente também no discurso. Enquanto o herói reverbera o padrão de união da humanidade – como o próprio T’Challa diz, a certa altura, “os sábios constróem pontes e não barreiras” – parte dos vilões, mas não só eles, faz uma defesa irrestrita da raça negra (há até um comentário, feito em tom descontraído, que coloca o homem branco como “colonizador”), o que deixa o protagonista em uma posição delicada na qual, a certa altura, se vê obrigado a enfrentar seus pares. E se Coogler acerta ao questionar o embate entre dois pontos de vista justificáveis, erra ao não tratar das consequências de conterrâneos derrubando o sangue de seus iguais. Por mais que o filme tenha um clima de Disney, não se justifica o “final feliz”.

 

T’Challa enfrenta Killmonger em um dos combates tribais do filme. Vilão faz no seu corpo uma marca para cada morte que realiza.

 

Coogler vai bem em escolhas de direção, com uma câmera que sabe ser inquieta, ficar parada, “passear” pela cena e até ficar de cabeça para baixo quando necessário. As sequências de luta podem ser muito frenéticas e cheias de cortes em alguns momentos, mas tornam-se mais lentas e cadenciadas em outros, evidenciando as dificuldades do Pantera Negra. O diretor tem seu trabalho facilitado pelo ótimo figurino (de Ruth E. Carter), que transita entre cores mais escuras nas cidades e todo o colorido africano de Wakanda e também pela trilha sonora, que é eficiente em mesclar batidas e cânticos tribais com elementos da cultura pop. Destaque, ainda, para a direção de fotografia de Rachel Morrison, a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria (por Mudbound), que realça a beleza natural de Wakanda, ao passo que escurece as cenas passadas fora de lá e envolve em roxo os momentos em que personagens viajam a um plano no qual estão outros que já morreram.

 

Alguns dos momentos de maior destaque da Marvel nos cinemas vieram com personagens menos conhecidos e com os quais é possível arriscar mais. Foi assim, por exemplo, com os Guardiões da Galáxia, recheados de humor e é assim, agora, com Pantera Negra e toda a sua celebração cultural. Que venham mais experiências.

 

Obs.: o filme tem duas cenas pós-créditos.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.

1 Comentário

  1. […] você assistiu Pantera Negra e ficou maravilhado. Quanta representatividade, quanto respeito. Aí você ficou se perguntando: […]

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