Paixão Obsessiva é suspense sobre abuso e seus impactos

Paixão Obsessiva é suspense sobre abuso e seus impactos

Sem grandes surpresas, filme traz Katherine Heigl interpretando sua primeira vilã

 

É muito interessante ver como a produção cultural representa bem o nosso humor, nossas causas e nossas paixões. Paixão Obsessiva é desses filmes que têm tudo a ver com o momento atual. Pois precisamos falar sobre violência e assédio contra a mulher.

O filme é protagonizado por Rosario Dawson, nossa eterna Claire de todas as séries da Marvel no Netflix, e tem como antagonista Katherine Heigl (“Vestida para Casar”, “Ligeiramente Grávidos”), que sempre fez papel de mocinha, agora atacando (e atacando mesmo) de vilã.

À primeira vista, um suspense nos moldes do clássico “Atração Fatal”. Mas, na realidade, um drama sobre mulheres abusadas – por seus parceiros e por seus pais, gente que deveria cuidar e zelar por elas, mas que as transforma em vítimas. A questão é como cada uma delas reage à situação.

Trama básica

Não há segredos na narrativa que o trailer (veja abaixo) não conte: Tessa Connover (Heigl) é uma mulher com dificuldades para lidar com o fim de seu casamento e que descobre que David (Geoff Stults), seu ex-marido, vai se casar com Julia Banks (Dawson) e que já está trazendo a nova mulher para morar com ele e sua filha, Lily (Isabella Rice). Mas o ciúme de Tessa torna-se doentio e nada a impedirá de transformar o sonho de Julia em seu maior pesadelo.

 

Mas por que será que Tessa é maluca? Por que seu ciúme é doentio?

Barbie do capeta

 

Neste primeiro filme dirigido pela produtora de vários sucessos hollywoodianos Denise Di Novi (“Amor a Toda Prova”, “Golpe Duplo”), suas escolhas são de mostrar Tessa como uma Barbie do mal (até chamam a personagem assim no filme). A personagem de Heigl é perfeitamente dura, milimetricamente contida. Uma “patricinha” de simétricos cabelos loiríssimos, pele alva, que só anda de vestidos justos. A não ser quando monta a cavalo e quando põe a filha para dormir cantando para ela em francês, com vistas a transformá-la numa princesa ideal.

Já a Julia de Dawson é uma força da natureza de cachos rebeldes e uma linda pele morena, a qual mostra sem medo em blusas de alcinha e shortinhos. Uma mulher simples e bastante real, que apenas leva sua vida, sem querer parecer nada a mais.
Katherine Heigl racionaliza sobre essa diferença: “A Tessa não entende como o David poderia escolher uma mulher tão diferente dela. A Julia tem beleza e charme naturais, enquanto a Tessa é mais rígida, controlada e habilidosa”.

 

Mas e o abuso?

Julia é traumatizada porque foi abusada por um namorado violento. Ele a espancou num acesso de raiva e ela precisou de tratamento psicológico para voltar a ter uma vida funcional. Seu medo de que o ex volte a atormentá-la e de que o atual namorado a veja como fraca a deixam travada, impedindo até de compartilhar o sofrimento passado com David.

E Tessa… bem, o caso de Tessa é mais complicado. Sabemos a trajetória de Julia logo nos primeiros instantes do filme. Mas o arco da personagem de Heigl só se revela ao longo da narrativa. Nada escondido, você logo percebe o que aconteceu para deixá-la no estado atual. E, evidente, trata-se de abuso. Mas de um tipo diferente.

Quando a diva Cheryl Ladd aparece em cena como Helen, a mãe de Tessa, o encaixe começa a ser feito. As reprimendas, os comentários ácidos seguidos de frases como “Eu só quero o melhor para você”. Tudo está ali, é Freud puro – a culpa é da mãe.

Dicotomias

Observar as diferenças de como cada mulher lida com seu passado abusivo é o mais interessante em Paixão Obsessiva. As atuações não são tão espetaculares, ainda que seja divertido ver quem sempre foi a boa menina fazendo a maluca que quer matar a nova namorada do ex.

Porém, é natural ver Katherine Heigl como a all-american girl. Mais significativo é ver que a direção e o roteiro não fazem nenhuma questão de esconder a questão racial: a branca rígida versus a negra cheia de balanço.

Ainda nas dicotomias, o filme tem um ritmo e uma fotografia relativamente leves, com abundantes imagens de sol californiano. Que servem de contraponto para as repentinas aparições de cenas de sexo um tanto exageradas e, sinceramente, dispensáveis.

Em resumo: um filme interessante, que oferece mais do que parece ao início. E que é mais uma peça para fazer pensar nos impactos que relacionamentos abusivos, de todo tipo, causam nas pessoas. Se alguém se reconhecer na tela, o que não é difícil, e decidir tomar outro caminho na vida, já é bem mais do que parece pretenderem os produtores. E tá ótimo assim.

Para saber mais

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

1 Comentário

  1. Não assisti o filme ainda. Mas no meu caso só de não ter minha filha perto de mim, já seria suficiente para ficar louca.

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