O Rastro tenta retomar terror e suspense para o Cinema Nacional

O Rastro tenta retomar terror e suspense para o Cinema Nacional

Gêneros pouco explorados no Brasil são a base para um filme de roteiro errático, mas de boa estética

 

Você se lembra do último filme de suspense brasileiro que você assistiu? E de terror? Bom, eu me dediquei a ver a obra do eterno José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Então, respondo que o último terror nacional que vi foi Encarnação do Demônio, de 2008.

 

Foi bom? Foi Zé do Caixão. Quem já viu, sabe o que isso significa. Aliás, recomendo… Mas voltemos à questão em pauta: não há uma produção nacional realmente significativa desses gêneros. Ficamos quase que restritos a comédias românticas derivadas de programas de TV ou similares, usando atores conhecidos das novelas.

 

É nesse sentido que precisamos receber com alguma paciência O Rastro, filme nacional que estreia no próximo dia 18 de maio e que tem no elenco nomes consolidados da teledramaturgia nacional, como Leandra Leal, Cláudia Abreu, Rafael Cardoso, Felipe Camargo e, in memoriam, Domingos Montagner.

 

Imagens boas. Trama nem tanto

Toda a narrativa de O Rastro se desenrola ao redor de João Rocha (Rafael Cardoso), um médico que deixou a prática da Medicina para trabalhar na secretaria de saúde do estado do Rio de Janeiro.

 

O caos na saúde pública torna-se então o pano de fundo para desenvolver a trama em cima de um hospital decadente, prestes a ser fechado. Nesse ponto, a direção de J.C Feyer vai bem, escolhendo imagens, sequências e diálogos que criam um clima de suspense num cenário típico de filme de terror, o tal hospital caindo aos pedaços.

 

As coisas complicam quando a ação continua e João passa a ficar desesperado e obcecado com o sumiço da última paciente do lugar, a menina Júlia (Natalia Guedes). Ele tenta seguir o caminho que o leve até a garota ao mesmo tempo em que precisa cuidar da mulher grávida, Leila (Leandra Leal).

 

Essa mistura de suspense com doses de sobrenatural, misturado com uma tentativa de thriller político simplesmente não funciona. A sensação é de que os roteiristas Beatriz Manela e André Pereira, com a oportunidade de criar um filme, decidiram juntar vários plots interessantes em uma produção só, com medo de não poder fazer outras coisas depois.

 

Fica uma sensação de que pensaram assim: “Vamos juntar todas ideias que temos em um filme só! Elas são mais ou menos parecidas. Dá pra encaixar! ”. Bem, talvez não.

 

Tem cara de terror!

 

Por outro lado, a direção de arte e a fotografia são muito interessantes, fogem do padrão solar e de cores chapadas que parece ter se tornado obrigatório no cinema nacional que se apresenta em circuito comercial.

 

Que rastro?

Incomoda também o título do filme. Pode parecer bobagem, mas quando se fala de “rastro”, cria-se uma expectativa de que haverá uma caçada por migalhas, detalhes, algum real rastro a ser perseguido. Não acontece.

 

A sinopse oficial diz assim: “Na busca pela verdade, João confronta os antigos colegas de trabalho, Olívia Coutinho (Claudia Abreu) e Heitor Almeida (Jonas Bloch), esbarra nas burocracias do sistema público de saúde, e desvenda inóspitas alas do hospital, abandonadas e infestadas de pombos, e repletas de mistérios. Quanto mais João se aproxima da verdade, mais ele mergulha em um universo obscuro, que nunca deveria ser revelado”.

 

Leandra Leal convence.

João até desvenda alguns mistérios, mas nada que não estivesse mais ou menos declarado. O tal rastro é quase um luminoso piscando e levando o protagonista às suas descobertas.

 

Os atores se esforçam e entregam boas atuações, especialmente nos plot twists que o filme propõe. Não vou revelar spoilers porque tem daqueles que estragam o filme. Mas é bom ver, especialmente Rafael Cardoso e Leandra Leal fora do que é mais habitual vermos de ambos.

 

Vale também ver Domingos Montagner, ator que faleceu no ano passado, em uma das suas últimas atuações cinematográficas. Pelo seu papel como Governador do Rio de Janeiro e sua capacidade técnica, somados ao fato dele não estar mais entre nós, a sensação de que ele poderia ter sido mais bem aproveitado é bem forte.

 

Frequência

Mesmo não sendo um filme espetacular, O Rastro merece ser assistido – justamente para que outros filmes com temática parecida apareçam. Caso contrário, nosso mercado continuará restrito, chato e emburrecedor.

 

Há que se ter mais frequentemente filmes assim. Desse mesmo, era possível tirar uns dois ou três. Restou esse, que pelo menos tentou. Tomara que ele deixe um rastro para outros melhores seguirem.

 

Para saber mais sobre o terror nacional

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).