O que aconteceu com Star Trek Sem Fronteiras?

star trek beyond

O que aconteceu para este Star Trek: Sem Fronteiras não ter tido tantos comentários? Apenas os fãs mais ardorosos da franquia parecem ter se importado com o terceiro episódio da nova roupagem, criada por J.J Abrams.

Relevância… é realmente algo a se pensar. O que torna uma obra relevante? Arrisco dizer que é a conexão que gera com os espectadores. O que ressoa dentro de você ao assistir, ler ou jogar algo.

Pensando assim, quem não assistir o novo Star Trek pode estar perdendo uma oportunidade interessante. Não que seja um filme inesquecível. Nessa trilogia, Sem Fronteiras se encaixa em segundo lugar, atrás do primeiro e bem à frente do errático Além da Escuridão. Mas é uma produção que propõe reflexões sobre o papel de cada um na vida (o que você faz e o que gostaria de estar fazendo?) e também sobre os laços que nos ligam às outras pessoas. Amizade, lealdade, dever. Tudo isso embalado numa caixinha de aventura, bons efeitos especiais e atores competentes.

Confesso que esperava mais loucuras do diretor Justin Lin, conhecido por dirigir filmes da franquia Velozes e Furiosos. Mas ele me surpreendeu com um primeiro ato lento e introspectivo. A história começa com o Capitão Kirk se empenhando numa missão diplomática (e se enrolando nela) e levando a tripulação da Enterprise por sua cansativa missão de cinco anos em busca de novos mundos, novas civilizações. Mas há muito pouco de audacioso nisso.

kirk_star-trek-beyond-2

Um capitão em busca de aventura

A rotina está frustrando o intrépido Kirk. Ele se questiona sobre suas escolhas, o que o levou até aquele ponto e para onde seguir. Guiado pelo instinto e emoção, o capitão se esvai na falta de desafios. De outro lado, sua contraparte lógica, Spock, pensa no dever que acredita precisar cumprir. Confrontado com a realidade insofismável de que toda vida tem um fim, o vulcano imagina o que precisa fazer com a herança de responsabilidades que recebe.

Mas é aí que algo surge, na melhor tradição da boa narrativa heroica, para tirá-los do marasmo, do peso de suas existências mundanas, para fazê-los mergulhar no Além (o Beyond do título original) para de lá retornar com o elixir de uma nova visão da vida.

O desafio

Para além da fronteira com o universo conhecido pela Federação dos Planetas Unidos está uma tripulação em apuros. Mas, como num episódio qualquer da série clássica, nada é tão simples quanto parece e a Enterprise é atacada fortemente. A tripulação acaba encalhada em um planeta desconhecido, com seus membros de comando separados e sem comunicação.

Quem causa o tumulto é um alienígena desconhecido que atende pelo nome de Krall (um irreconhecível Idris Elba). Comandando uma frota de naves que se assemelham a insetos, o vilão busca uma arma capaz de destruir o universo. E ele acredita que esse artefato poderosíssimo está, vejam só, nas mãos de James T. Kirk.

O que vem daí para frente não deve ser muito difícil de imaginar, não é mesmo? Mas importa menos o que acontece e muito mais o como acontece.

Apoiado num elenco de ótimos atores, Justin Lin consegue criar uma sequência de cenas que constrói um todo sólido, interessante e com a tal relevância do início do texto. Sejam Vulcanos ou vindos de qualquer outro planeta, todos ali são tão humanos no que diz respeito aos sentimentos, quanto eu e você.

Chris Pine está em seu auge como Kirk. Relembra a canastrice deliciosa de William Shatner, mas deixa sua marca – especialmente nas cenas de mais ação. Zachary Quinto mantém o nível de seu Spock, mas os destaques estão com Scotty (Simon Pegg), Bones McCoy (Karl Urban) e Pavel Checov (Anton Yelchin). Especialmente os dois primeiros ganham bastante tempo de tela e não o desperdiçam. As interações entre McCoy e Spock, e entre Scotty e a novata Jaylah (Sofia Boutella) rendem alguns dos melhores diálogos de todo o filme.

mccoy_spock

Uma parceria interessante

E é muito triste ver que, depois de ser o sidekick oficial de Kirk neste filme, o Checov de Yelchin não terá mais chance de ser visto, com a morte trágica do ator. O personagem cresceu muito em Sem Fronteiras e, se houver continuação, não vai ser simples compensar sua ausência na dinâmica do grupo.

kirk_checov

RIP Yelchin

 

Para fazer fã chorar

Star Trek: Sem Fronteiras tem detalhes para deixar os fãs bastante emocionados. Confesso que a despedida criada para Leonard Nimoy, o Spock original, falecido em fevereiro deste ano, me fez ficar com nó na garganta. Porque com ele despediu-se também toda aquela geração inicial.

É ainda interessante ver que o filme tem uma estrutura muito parecida com os episódios da série clássica, o que não deixa de ser legal para quem conhece – e um jeito fácil de entender o filme para os não-iniciados.

Star Trek: Sem Fronteiras mostra que há muita história ainda para ser contada em futuros filmes. A entrada de todos os episódios de todas as séries já produzidas de Star Trek no Netflix entre o final de 2016 e início de 2017 deve resgatar o interesse geral pela franquia.

Aí muito mais gente vai poder entender como é relevante ir aonde nenhum homem jamais esteve.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).