O Primeiro Homem

O Primeiro Homem

Em seu terceiro longa, Damien Chazelle conta uma história visualmente forte, mas que tem pouco impacto

 

Um embrulho bonito nem sempre traz um conteúdo do mesmo nível. Assim como grandiosidade, muitas vezes, pode ser confundida com exagero. E O Primeiro Homem, novo longa-metragem do jovem e já oscarizado diretor Damien Chazelle, cabe nessas duas categorias.

 

O filme conta a história do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling), o, adivinhem, primeiro homem a pisar na Lua. Acompanhamos a história desde que ele trabalhava como engenheiro na Califórnia, onde já executava voos para além da atmosfera terrestre, até a Apollo 11, a espaçonave da NASA que, enfim, pousou na Lua.

 

E o filme vai bem quando se concentra na construção do longo processo que levou o homem a pisar em um solo fora da Terra. Apesar de certo exagero nos termos e no linguajar técnico, é interessante acompanhar esse passo a passo. E mais curioso ainda é a opção de Chazelle e do roteirista Josh Singer (que escreveu com base no livro de James R. Hansen) de pontuarem os saltos temporais (além de algumas marcações de tempo que aparecem na tela) pelo crescimento dos filhos de Armstrong.

Neil e Janet em casa, sempre na escuridão.

Um homem de família

A escolha não é à toa, a família é parte essencial da trama e desempenha uma história paralela. Ao mesmo tempo em que vemos Armstrong se desdobrando para resolver os problemas do espaço, acompanhamos Janet (Claire Foy) sofrendo com a expectativa de ter ou não o marido de volta e sua dificuldade de lidar sozinha com os filhos. Mas, nada disso parece ser sentido por Armstrong. “O Primeiro Homem” pinta o astronauta praticamente como uma calculadora humana. Ainda que no primeiro ato Chazelle tente quebrar isso com uma cena logo no início, após um evento traumático que define o personagem, o que vemos em tela é alguém frio e obcecado pelo trabalho a ponto de sofrer por colegas, mas ser incapaz de se conectar com os filhos. E isso fica bem ilustrado num momento em que ele conversa com as crianças como se estivesse em uma coletiva de imprensa da NASA, com destaque para um detalhe singelo, porém, bem significativo no final dessa cena.

 

A fotografia, de Linus Sandgren, ajuda a reforçar essa questão. Na maior parte do tempo em que está em casa, Armstrong (não apenas sozinho, também quanto está com Janet) aparece “encaixotado” e transitando por ambientes escuros. Em alguns momentos ele é apenas uma silhueta preta, o que demonstra o seu estado de espírito. Já na NASA, vemos muitas luzes, inclusive sobre Armstrong, e a direção de arte sabe utilizar bem o capacete do astronauta para refletir o que, de fato, faz seus olhos brilharem. É interessante reparar, aliás, quais são os poucos momentos em que Armstrong de fato sorri.

 

Um contraponto ao jeito mecânico de Armstrong é Buzz Aldrin (Corey Stoll). O segundo homem na Lua tem pouco tempo de tela e é retratado como uma pessoa, no mínimo, inconveniente, mas que se mostra bem mais humana que Armstrong. Pelo mesmo caminho segue o Ed White de Jason Clarke, talvez o personagem mais emocional da trama e que também protagoniza uma das sequências mais impactantes, ao passo que Deke Slayton (Kyle Chandler) aparece mais como um burocrata sem muito brilho. A Janet de Claire Foy é uma das poucas personagens femininas do filme e a atriz se esforça e consegue transmitir toda a sua frustração.

Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Mike Collins (Lucas Haas) na coletiva de imprensa sobre o voo da Apollo 11

O espaço…

No que diz respeito ao aspecto visual, é especialmente quando acompanhamos o astronauta na NASA que o filme tem seus momentos mais grandiosos, como nos diversos voos realizados por Armstrong. E e a câmera caótica, até histérica de Chazelle nesses momentos, juntamente com a montagem ágil de Tom Cross e a trilha sonora de Justin Hurwitz (os mesmos do excelente Whiplash, filme de estreia do diretor), ajuda a transmitir a tensão. O problema é que tudo soa meio exagerado e repetitivo. O filme já abre com um voo para além da atmosfera e em todos os outros que vemos, o modo de funcionamento é o mesmo. E é ainda mais complicada a escolha de usar a câmera na mão o tempo inteiro. Assim, mesmo nas cenas mais simples, a câmera está quase sempre tremendo. O diretor buscou dar um tom mais visceral para a narrativa, mas o resultado acaba sendo cansativo.

 

Outra opção de Chazelle foi por utilizar quase o tempo todo ângulos fechados nos rostos dos personagens, além de planos-detalhe (reparem nos destaques que o diretor dá para o relógio de Armstrong e em quais momentos). É possível entender que o diretor buscou um tom mais intimista, quis nos colocar dentro das mentes dos personagens (e de fato há momentos bem utilizados de subjetividade nos quais vemos ou ouvimos como se fossemos Armstrong), mas, em contraste com a busca por grandiosidade em outras partes, isso deixa o filme pouco coeso.

 

“O Primeiro Homem” conta uma história importante. É um filme bonito e suas enormes tomadas do espaço com a Terra de fundo e da Lua são interessante de assistir em uma tela bem grande (eu assisti no Imax). Mas, o longa tem problemas e termina deixando uma mensagem que acaba por diminuir até mesmo a célebre frase de Armstrong ao pisar na Lua: todo aquele esforço e todas as consequências do processo não foram em prol do desenvolvimento humanidade ou algo mais nobre, foram apenas para ganhar a disputa com Rússia.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.