O Lar das Crianças Peculiares

O Lar das Crianças Peculiares

Tim Burton dá tons macabros para a fábula infantil “O Lar das Crianças Peculiares”

Por Marcus Vinícius Benedicto

De todos os representantes da onda de filmes para o público infanto-juvenil, O Lar das Crianças Peculiares talvez seja… o mais peculiar, graças ao trabalho de Tim Burton. Se por um lado o filme não conta com a estética visual que permeia quase toda a obra do diretor, por outro, é carregado do seu tom sombrio, neste caso, até mesmo macabro, que poucos cineastas aplicariam a uma fábula para os mais jovens. Isso, claro, sem deixar de lado o também característico senso de humor. Sério, quantos realizadores conseguem transformar um bombardeio nazista em um momento festivo por parte de quem está sendo atacado?

Após os créditos iniciais, durante os quais é mostrado um álbum de fotografias antigas (o que por si só já é meio macabro), conhecermos Jake (Asa Butterfield), um adolescente comum, deslocado no mundo, aparentemente sem muitos amigos e que é ignorado e sofre bullying por parte dos alunos mais populares do colégio. Acostumado desde pequeno a ouvir de seu avô Abe (Terence Stamp) histórias sobre um orfanato que abriga crianças com poderes fantásticos, decide, após uma série de acontecimentos incomuns, viajar com seu pai (Chris O’Dowd) para verificar o que realmente é verdade.

É aí que conhecemos a Srta. Peregrine (Eva Green), uma mulher também peculiar e que toma conta de um grupo de crianças que inclui, entre outros, gêmeos que vivem com os rostos cobertos, um menino invisível, uma garota extremamente forte, outra que flutua e um rapaz capaz de controlar os mortos. Mas não é só, também tem o Victor, que… sem entrar em spoilers, é bem assustador.

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A maravilhosa Eva Green

Nesse universo, O Lar das Crianças Peculiares beneficia-se das performances do elenco jovem e de um ótimo trabalho de Eva Green, que constrói sua Srta. Peregrine com enorme força e confiança desde a sua primeira aparição, sem esquecer da pequena, mas marcante ponta de Judi Dench. Por outro lado, tem alguns tropeços no seu grupo de vilões, especialmente com Samuel L. Jackson, que na pele do líder Barron, entrega uma atuação que funciona mas é genérica, pouco diferindo, por exemplo, do trabalho do ator em “Jumper”.

O roteiro, escrito por Jane Goldman a partir do livro de Ransom Riggs, é eficiente em estabelecer o universo geral da história e conduzir o espectador para que o conheça. Também constrói bem a ameaça do filme, tornando o perigo para os personagens palpável. Contudo, torna-se um pouco confuso no terceiro ato ao lidar com as diversas datas, entre passado e presente, pelas quais a história transita. Além disso, peca por não explorar mais a fundo a história das crianças do orfanato e, pelo pouco que pudemos ver, é algo que poderia enriquecer a história.

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A montagem também apresenta alguns problemas para definir as ambientações: o filme tem um lar no título, o que mostra o quão importante é aquela casa, mas o espectador não consegue se acostumar com o espaço, aprender a se movimentar por lá. O mesmo ocorre com a ilha na qual boa parte da trama se desenvolve. Essas questões são amenizadas pelo design de produção, além da fotografia, aqui a cargo de Bruno Delbonnel, que ao transitar entre paletas de cores quentes, frias e em alguns momentos até pálidas, sem vida, ajuda o espectador a se situar melhor sobre o que ocorre na tela.

O Lar das Crianças Peculiares é uma história instigante e até surpreendente pelo tom da sua narrativa. Deve ser apenas o primeiro de uma série de filmes e fico curioso para saber se vai se manter por esse caminho. Estaria o público preparado para mais do Victor?

marcaoMarcus Vinícius Benedicto
Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.