Um herói para os nossos tempos

Um herói para os nossos tempos

O HOMEM DE AÇO, NOVO FILME DO SUPERMAN, DEIXA DE LADO A INGENUIDADE DO PASSADO E PARTE PARA A AÇÃO DE PROPORÇÕES ÉPICAS

O que faz um homem se tornar um Super-Homem? Seriam seus poderes sobre-humanos ou o que decide fazer com eles? Essa é, desde a sua criação, há 75 anos, a essência do Superman. Estranho visitante de outro planeta, Kal- El é criado no Kansas como Clark Kent e, conscientemente, decide usar seus dons extraordinários pelo bem da humanidade.

Zack Snyder, que já havia encarado o desafio supremo de adaptar o clássico quadrinístico Watchmen para as telonas, recebe outra tarefa hercúlea: traduzir esse conceito – que para muitos é pouco plausível e crível – para o cinema. E em O Homem de Aço ele entrega algo bastante consistente, mas faz isso distorcendo a lógica de tomada de decisão do personagem. Nuances e motivações são acrescentadas para que Clark se transfigure de jovem fugitivo e solitário, no emblemático Superman. E é isso que faz o filme se sobressair em meio a tantas adaptações de super-heróis para o cinema.

A linha seguida em O Homem de Aço, não por acaso, é a mesma da trilogia Batman de Christopher Nolan. Afinal, é o diretor dos filmes do Cavaleiro das Trevas que faz às vezes de produtor aqui. Ou seja: pés no chão e tentativa de parecer o mais próximo possível do mundo dito real.

Houve quem, ao avistar o nome de Christopher Nolan, criador da vitoriosa trilogia recente de Batman, na equipe desta produção se apressasse a imaginar que o Homem de Aço seria transformado em uma mera cópia do Cavaleiro das Trevas com botas e capa vermelha. Ledo engano. Este Superman tem uma identidade própria, um jeito de ser que o diferencia dos outros super-heróis – afinal, ele é o primeiro deles. O que aproxima, sim, os filmes do Cruzado de Capa de Gotham da fita deste herói da solar Metrópolis é a abordagem mais realista, que permeia o filme do início ao fim.

estranho visitanteO ponto de partida do roteiro é a pergunta: “o que aconteceria com o nosso mundo se um ser de outro planeta chegasse aqui?”. A partir dessa premissa, o script de Goyer constrói uma narrativa envolvente e que tenta, com relativo sucesso, equilibrar ação e emoção.

A base para o desenrolar da história é, como não poderia deixar de ser, a mitologia. Ou melhor, a famosa “Jornada do Herói”, delineada pelo mitólogo Joseph Campbell. Para que Clark Kent torne-se Superman ele precisa necessariamente passar pela Sintonia com o Pai – um dos pontos básicos daquela estrutura. Mas, neste caso, os pais, pois é da dicotomia entre o audaz Jor-El e o cuidadoso Jonathan Kent que se forja um herói perfeito para os nossos tempos.

Outro elemento mitológico bastante forte é a presença do sol. Praticamente toda cena tem a luz solar refletindo. Fonte do poder do herói, o astro-rei se relaciona com o “auxílio sobrenatural” do início da Jornada e também com “resgate com ajuda externa”, da parte final do esquema de Campbell.

Pai e filho

Dureza e profundidade

O universo de O Homem de Aço é, na comparação com os filmes da Marvel, por exemplo, muito mais duro e seco. A linguagem de câmera na mão de que muitas vezes Snyder se utiliza reforça essa sensação. Mesmo quando o cenário é a exuberância tecnológica de Krypton, com suas naves e dragões voadores, a tentativa é sempre aproximar o espectador daquela realidade. É uma busca, exagerada às vezes, por empatia e aceitação.

Isso faz com que uma coisa fique muito clara: este não é o Superman com o qual a maior parte do público cresceu. Esqueça um Clark Kent que tropeça em seus próprios pés, o sorriso frondoso e o salvamento de gatinhos de cima de árvores que fizeram a fama de Christopher Reeve na clássica série cinematográfica do século passado.

Aqui o que se tem é um Superman físico, viceral. Grave e profundo. Mas nem por isso menos heroico e inspirador. Afinal, como é mostrado muito claramente, ele está disposto a salvar a humanidade, seja qual for o custo para isso.

Os fãs mais puristas do gibi podem até se incomodar um pouco com essa linha criativa, mas Snyder e o roteirista David Goyer são espertos e frequentaram Comic-Cons suficientes para saber quais ossos jogar para alimentar essa faminta matilha.

A etapa de kryptoniana do filme deve agradar especialmente essa parcela do público, com inúmeras referências, especialmente a três arcos: o homônimo “Homem de Aço”, de John Byrne; “O Legado das Estrelas”, de Mark Waid; e o mais recente “Origem Secreta”, de Geoff Johns.

O filme todo, aliás, parece ter misturado essas três histórias, mais o belíssimo “Grandes Astros Superman” de Grant Morrison, para chegar ao seu produto final. Quem conhece esses quadrinhos sabe que eles possuem pontos discordantes entre si sobre a origem do super-herói e pode se perguntar se o saldo dessa mistura é positivo. Mas é possível afirmar, sem medo de errar, que sim.

De cada uma dessas produções quadrinísticas O Homem de Aço pega os elementos certos. Dos escritos de Byrne da década de 1980 vem a sociedade asséptica de Krypton e o robô Kelex da Casa de El. Da visão mais romântica do personagem apresentada por Waid chega o questionamento de como o alien seria recebido entre os terráqueos. Já Johns emprestou seu conceito sobre o vilão General Zod e a divisão de funções da sociedade kryptoniana. Para Grant Morisson sobrou oferecer a postura de Jor-El, o pai do Superman, e o nível de poder apresentado pelo herói.

Força sem limites

Snyder e Goyer constroem um caminho dramático bastante interessante para o filme. Tudo começa com Krypton, onde é possível conhecer não apenas a família biológica do futuro Superman, mas também Zod e suas motivações.

Mas depois do envio do bebê Kal-El para a Terra e destruição de seu planeta de origem não se acompanha cronologicamente o crescimento de Clark. Ele já é visto adulto, tentando adaptar-se à sua condição de outsider. Aliás, é nessa fase que há a única lembrança aos filmes anteriores, numa cena em um bar, como em Superman II. Uma sequência que, aqui, parece ter sido feita para dizer em alto e bom som que todo o passado foi deixado para trás.

A infância e adolescência do jovem Superman é mostrada em flashbacks, em mais uma busca por empatia no espectador. O pequeno Clark é vítima de bullying e não pode revidar, sob o risco de esmagar completamente seus opositores colegiais.

Father and sonÉ nessas cenas começa a surgir um dos maiores (senão o maior) destaque entre as atuações de O Homem de Aço, o Jonathan Kent de Kevin Costner. O ator veterano é uma presença tão grande que, mesmo com poucas cenas, faz delas as mais emocionantes e fortes do filme. E assim, este Superman não ganha o público com socos em pleno voo (que são, sem dúvida, espetaculares), mas sim com nó na garganta e coração apertado.

Essa emoção é, por outro lado, entremeada com um nível de batalha que os filmes de super-heróis nunca viram. Se Nova Iorque sofreu em Vingadores, nada consegue se comparar à destruição de Smallville e principalmente de Metrópolis. O Homem de Aço consegue mostrar, da maneira mais próxima quanto se pode imaginar, o que causaria em nosso frágil planeta a presença de seres poderosos como deuses.

Houve até indicação, nos Estados Unidos, de que pessoas que ainda estão traumatizadas pelo que viram no 11 de Setembro, evitassem assistir ao filme. Não é uma dica infundada, pois a destruição apresentada não tem barreiras. É o exagero característico de Zack Snyder, mas com esteroides.

"Look, up in the sky..."

Mas essa energia visual toda seria mal aproveitada sem atuações consistentes. Quem assistiu a Imortais, também estrelado por Henry Cavill, sabe o motivo de ele ter sido chamado para encarnar o Homem de Aço. Lá, ele corre em poses heroicas com uma capa amarrada no pescoço o praticamente o filme todo.

A experiência deu resultado. Tem-se um Superman plausível, infinitamente superior ao boneco de cera Brandon Routh do malfadado Superman – O Retorno. Com ou sem seu uniforme, Cavill constrói um personagem firme, interessante e natural. Ele não é um ator fantasiado de super-herói (mesmo sem a cueca por cima da calça). Na tela, ele é o Superman.

Lois Lane

A química entre ele e Amy Adams, que interpreta Lois Lane, é boa. Não é perfeita, mas mesmo assim convence. Um pouco desse descolamento entre eles advém da grande força da personagem de Adams. A Lois Lane de O Homem de Aço não é, em momento algum, uma donzela em perigo. Ela toma a rédea das situações e dá o tom dos humanos no filme, acabando como a representante maior de todos os coadjuvantes.

Aliás, o elenco de apoio é todo muito bom. Laurence Fishburne como Perry White poderia, inclusive, ter mais tempo de tela. Christopher Meloni (conhecido por seus anos de Law & Order), que faz o coronel Nathan Hardy também está excelente. Suas cenas de embate com o fiel braço direito de Zod, Faora-Ul, interpretada por Antje Traue estão entre as mais interessantes do filme.

"Son of Jor-El..."

Falando em vilões, Michael Shannon, interpreta um general Zod que é determinação pura. Uma força da natureza disposta a cumprir o que foi desenhada a fazer. Suas feições angulares reforçam a dureza de propósito desse antagonista, que é – indubitavelmente – o melhor que o Superman já enfrentou no cinema. Como já dizia Stan Lee, um herói se mede pelo tamanho de seu vilão e este Zod certamente contribui para o engrandecimento do Homem de Aço.

Um universo se abre

Com todos esses elementos, outro ainda surge (até como um peso) neste O Homem de Aço. É a possibilidade da criação de um universo compartilhado da DC Comics, nos moldes do que a Marvel já fez com destacado sucesso.

Sem dúvida que as portas estão abertas. Há muitas pistas espalhadas pelo filme. Nomes que surgem em caminhões, satélites… Quem tiver olhos atentos verá. Mas o mais importante é que um estilo foi definido.

Se o universo em que podem vir a aparecer Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, entre outros, é o mesmo deste Superman, então é evidente que a Marvel fica com as piadinhas espirituosas e as cenas pós-créditos engraçadinhas. Já a DC quer seus super-heróis sérios, firmes, reais e, ao mesmo tempo, maiores que a vida. Uma separação que se vê também nos gibis.

Nesse sentido, O Homem de Aço é comparável não ao Homem de Ferro, mas sim com a trilogia Batman mais recente. Isso em termos de qualidade e profundidade. É um filme de super-herói com tudo que os outros recentes também têm: ação, quebradeira e romance. Mas tenta ser algo mais.

Jor-ElEspecialmente as ações do arrojado e revolucionário Jor-El, numa acertada atuação de Russell Crowe, mostram uma vontade do filme em reforçar o questionamento da ordem estabelecida e incentivar a busca por uma liberdade natural. O próprio Superman se coloca como alheio ao Sistema, um agente livre a favor de todos, independente de raças, credos ou mesmo nacionalidades.

Apesar de todas as qualidades, O Homem de Aço tem falhas. É um filme que exige muita suspensão de descrença do espectador, que precisa “completar” muitas cenas. Muita coisa ocorre entre uma sequência e outra sem ter explicação. Essa estrutura, é preciso dizer, acaba aproximando a produção de uma revista em quadrinhos, na qual o leitor faz sempre a conexão entre um quadro e outro.

Além disso, há quem possa se ofender pelo final do filme, que foge de tudo que já foi visto com o Superman, tanto no cinema quanto na TV. Mas não é nada que os leitores dos gibis não tenham vivenciado. Por outro lado, o final de O Homem de Aço é, também, um marco nos filmes desse gênero. Aqui se separaram os meninos dos homens e o primeiro super-herói da História mostra que continua tão relevante como quando foi criado por dois meninos da periferia de Cleveland há 75 anos.

Como o Superman mesmo diz no filme, o símbolo em seu peito significa esperança. E a esperança é de que tudo mude no panorama dos super-heróis no cinema. O primeiro passo foi dado, para o alto e avante.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).