O que aconteceria se o Batman fosse contador?

O que aconteceria se o Batman fosse contador?

Filme estrelado por Ben Affleck encontra um herói de ação em um dos lugares menos prováveis, mas traz peças que não se encaixam

Para falar sobre “O Contador”, longa de Gavin O’Connor com roteiro de Bill Dubuque, vamos começar analisando o quadrado. Sim, a figura geométrica, aquela formada por quatro retas exatamente do mesmo tamanho, posicionadas em paralelas perfeitas. Quadrado é sinônimo de careta, daquilo que é muito certinho. E quando comparamos com outras figuras geométricas, o quadrado perde para o círculo, porque enquanto o primeiro parece difícil de se mover, o segundo gira com a maior facilidade. E é justamente enquadrado que encontramos o contador Christian Wolff (Ben Affleck) pela primeira vez. Ele está no seu escritório, imerso em cores cinzas e sem vida, enquanto ensina a um casal de clientes como dar um jeitinho para pagar menos imposto de renda.

Wolff é a definição do quadrado (como aquele em que ele aparece dentro na parede cozinha de sua casa também cinza, em oposição aos círculos e cores quentes encontrados em um local especial para ele): é extremamente metódico, desde para calcular o tempo exato entre chegar na rua de casa e apertar o botão para abrir o portão da garagem, até o período cronometrado para suas sessões diárias de música alta, luzes piscantes e autoflagelo, que mantêm sua condição psicológica sob controle (ele tem um grau de autismo, o que descobrimos logo no início do filme, em um flashback). Juntando isso à sua ampla afinidade com os números, vemos que Wolff é praticamente um relógio humano. Agora, que ninguém tente interrompê-lo antes de ele terminar uma tarefa, pois todo esse equilíbrio desmorona. Aqui, faço um parêntese para a caracterização de Affleck, que mantém-se inexpressivo na maior parte do tempo, chega a movimentar-se quase que como um robô, mas consegue transparecer a euforia quase infantil de Wolff em alguns momentos.

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Bom de porrada, tiro e… matemática

A habilidade de Wolff com números (e com mudanças de identidade) faz com que ele seja bastante requisitado tanto por criminosos quanto por grandes corporações. É nesse contexto que sua assistente (à qual apenas conhecemos por uma voz robótica) lhe passa um trabalho para analisar as contas de uma empresa de tecnologia robótica. Quando está próximo de encontrar um problema, a tarefa é interrompida e tanto o contador quanto Dana Cummings (Anna Kendrick), uma funcionária da empresa que o auxiliava, veem suas vidas ameaçadas pelo grupo do habilidoso assassino profissional Brax (Jon Bernthal). Mas, por sorte (?), Wolff também é um militar e parte para o contra-ataque (aliás, o principal modo como ele dá conta de seus inimigos, também utilizado por Brax, é outra demonstração de como ele é metódico para finalizar as tarefas que inicia).

Como vimos até aqui, “O Contador” faz todo um trabalho de roteiro, design de produção e fotografia (a luz piscante da terapia de Wolff impacta o espectador de maneiras diferentes, dependendo do estado de espírito dele) para demonstrar quem é aquele homem e como funciona sua cabeça. Mas, ainda assim, sente a necessidade de, a certa altura, fazer com que o personagem fale novamente tudo isso. E o excesso de exposição vai além, mais para o final, quando os dois funcionários do Tesouro que estão tentando capturar o contador, Medina (Cynthia Addai-Robinson) e King (J.K. Simmons, em atuação sem grandes destaques), têm uma longa conversa com o único objetivo de despejar sobre o espectador um caminhão de informações, muitas das quais, de certa forma, já haviam sido mostradas.

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Como um filme de ação, “O Contador” é competente, lembrando inclusive a série “Jason Bourne”. É também mais uma produção que questiona o quanto vale a pena ceder ao mal em troca de benefícios pessoais ou até algo grandioso. Mas, o filme tem a intenção de ir um passo além na história da vida e nas (poucas) conexões pessoais do seu protagonista e é aí que muitas peças do quebra-cabeça não se encaixam. O que, por exemplo, ocorreu entre ele e o irmão mais novo, que nos flashbacks eram bastante unidos por ação do pai (que em alguns momentos os tratava exatamente como cachorros raivosos presos na coleira)? O mistério sobre a ajudante do contador é resolvido, mas é algo tão inverossímil, mesmo dentro do universo do filme, que não é tão fácil de perceber.

“O Contador” tem potencial para se tornar uma franquia de ação. Resta saber se os próximos episódios serão realizados de maneira um pouco mais redonda.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.

2 Comentários

  1. […] passa boa parte do tempo com a fisionomia impassível (eu elogiei essa característica em “O Contador”, onde fazia sentido, mas agora está parecendo mais uma muleta do ator), em contraposição com […]

  2. […] passa boa parte do tempo com a fisionomia impassível (eu elogiei essa característica em “O Contador”, onde fazia sentido, mas agora está parecendo mais uma muleta do ator), em contraposição com […]

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