Nostalgia, diversão e suspense em doses certas: It – A Coisa

Nostalgia, diversão e suspense em doses certas: It – A Coisa

Excelente adaptação do clássico romance de Stephen King consegue ser assustador, nostálgico, divertido, incômodo e encantador na mesma intensidade

 

‘It’, de Stephen King, é um calhamaço com mais de mil páginas e um dos livros mais cultuados do célebre escritor americano – e provavelmente uma de suas obras mais difíceis de serem adaptadas pras telonas.

 

A trama fala sobre um grupo de garotos de uma cidadezinha do interior dos EUA que enfrenta seus maiores temores personificados através de uma misteriosa entidade que constantemente assume a forma de um palhaço macabro – que atrai e captura as crianças da cidade para devorá-las em seguida. Décadas depois, e após uma nova onda de desaparecimentos, a turma de garotos – agora adultos, mas ainda traumatizados – se reencontra para combater Pennywise e tentar livrar sua cidade da ameaça definitivamente.

 

A história já foi adaptada pra TV, como uma minissérie, pela rede americana ABC em 1990. Dirigida por Tommy Lee Wallace, a adaptação rodou o mundo (inclusive o Brasil) através de home video, condensada num filme de aproximadamente 3h de duração. Considerado ‘cult’ por muitos, o “filme” transformou o Pennywise vivido por Tim Curry em um desses personagens símbolos do terror – e num dos maiores culpados pelo aumento de casos de coulrofobia (medo de palhaços) nas crianças e jovens da época. Por conta da boa atuação e personificação de Curry, os mais fãs mais saudosos do “telefilme” torceram o nariz quando anunciaram o jovem Bill Skarsgård como o novo intérprete de Pennywise. Mas…

 

Uma feliz surpresa

Vamos falar sobre ‘It: A Coisa’ (EUA/2017) que estréia nos cinemas brasileiros em pleno feriado de 07 de setembro. Minha gente… que filme! Confesso que estava meio receoso com essa readaptação de um dos meus livros preferidos de Stephen King (que levei quase um ano pra ler inteiro, mas que realmente curti demais) e honestamente nunca fui um grande entusiasta da minissérie/filme de 1990 – que tem um primeiro ato bem interessante mas descamba pra uma baita tosqueira da metade pro final. E hoje em dia, o produto final também ficou bastante datado, com suas atuações de uma canastrice indigente e aqueles efeitos pra lá de mambembes.

 

Felizmente, muito felizmente, o filme dirigido pelo argentino Andrés “Andy” Muschietti (do terror ‘Mama’) é um verdadeiro primor e já pode ser considerado um novo clássico moderno do horror cinematográfico. Andy Muschietti, assim como David F. Sandberg (de ‘Lights Out’ e do recente ‘Annabelle 2: A Origem do Mal), também se tornou relativamente conhecido mundo afora (antes de Hollywood) através de um curta de terror. ‘Mamá’, de 2008, acabou chamando a atenção de Guillermo del Toro – que resolveu produzir a adaptação ‘Mama’ (2013) com o próprio Muschietti na direção. ‘Mama’ é bom. Não é perfeito… mas apesar das pequenas falhas no roteiro e do final meio piegas, já dava pra notar o potencial do diretor argentino em cenas bem dirigidas, na atmosfera sinistra e nos bons sustos.

 

Dessa vez, o diretor nos entrega um filmaço de terror – praticamente irretocável – ao mesmo tempo divertido e incômodo, assustador e belo… e incrivelmente nostálgico. Talvez essa seja uma das melhores adaptações cinematográficas de um livro/conto de Stephen King, ao lado de filmes como ‘O Iluminado’, ‘À Espera de Um Milagre’, ‘Conta Comigo’, ‘Louca Obsessão’ e ‘O Nevoeiro’. Aliás, citar ‘Conta Comigo’ é bem conveniente pois ‘It’ tem muitos elementos que lembram as aventuras daquela outra turma de garotos lidando com as incertezas, o medo, o bullying, as descobertas e as adversidades da juventude.

 

A trama

O ano é 1989. Um grupo de pré-adolescentes – que se autodenomina ‘Clube dos Perdedores’ – , vive na fictícia e interiorana Derry, no Maine. Um deles sofre com o trauma de ter o irmão mais novo na lista de crianças desaparecidas da cidade. Um dia, ele decide recrutar seus três melhores amigos e os convence a tentar solucionar o sumiço do irmão nas antigas galerias subterrâneas (ou seja, o esgoto) de Derry. A eles se juntam uma menina do colégio que sofre abusos nas mãos do próprio pai, um jovem funcionário de um abatedouro bovino e um molequinho gorducho, tímido, estudioso… e fã do New Kids On The Block (!).

O Clube dos Perdedores

 

Então, o inusitado grupo se depara com um mal que jamais poderiam imaginar: uma entidade que assume a persona de Pennywise – um maquiavélico e demoníaco palhaço que também pode se manifestar na forma dos maiores temores dos garotos. Como se não bastasse, eles são perseguidos e sofrem bullying, torturas psicológicas e físicas nas mãos de uma gangue de garotos maiores e de péssima índole.

 

Além de nostálgico (o filme nos remete a clássicos como o já citado ‘Conta Comigo’, ‘Te Pego Lá Fora’ e ‘Clube dos Cinco’), ‘It’ consegue causar medo genuíno (algumas cenas de terror podem ser perturbadoras pros mais sensíveis) e ser até incômodo – ao abordar temas nada agradáveis como infanticídio, bullying, pedofilia e abuso sexual de menores.

 

O bullying aliás, é um dos maiores desafios enfrentados pelo seleto grupo dos “perdedores” – que conta com um gago, um “quatro olhos” magrelo e metido a piadista, um hipocondríaco, um judeu, um negro segregado e o gordinho cdf (esse moleque é sensacional) que vive sendo espancado pelos garotos maiores e é apaixonado pela simpática, descolada e bela menina de “má fama” que se junta a eles.

 

A empatia pelos personagens, muito bem desenvolvidos, faz com que o espectador se compadeça e fique aflito a cada perda, perseguição ou dor sofrida por eles – nem de longe lembrando aqueles filmes slasher em que torcemos pra que o vilão extermine quase todo o elenco da forma mais sanguinária possível. O negócio é tenso mesmo, sem brincadeira! Porém, a tensão é eventualmente quebrada com bons alívios cômicos – principalmente nos diálogos entre os amigos que vivem se trollando, com aquelas piadas infames que envolvem as mães alheias, por exemplo.

 

Os efeitos especiais são bem executados, mesclando os práticos com alguns digitais – que de tão bem empregados, não deixam uma grande sensação de artificialidade. E Bill Skarsgård? O jovem ator sueco não só surpreende com um mix de inteligência, sarcasmo, dissimulação e malevolência extremas, como faz seu Pennywise se tornar um dos melhores monstros de filmes de terror de todos os tempos, na minha opinião. Sua atuação e caracterização impecáveis transformam “a coisa” numa entidade realmente apavorante e que pode até fazer aquela honesta encarnação de Tim Curry cair no esquecimento – além de causar novos surtos de fobia de palhaços mundo afora.

A nova versão de Pennywise

 

Esses elementos criam uma “sopa” homogênea, saborosa e ao mesmo tempo levemente indigesta… mas que deixa um gosto de “quero mais” no final. Até o próprio Stephen King confessou ter assistido a essa nova adaptação de seu livro duas vezes, de tanto que gostou. E por falar em “quero mais”… Andy Muschietti em breve nos presenteará com um segundo filme que mostrará a volta do ‘Clube dos Perdedores’, agora adultos e se reencontrando para enfrentar mais uma vez a risonha e insidiosa ameaça sobrenatural.

 

Para sentir ainda mais medo