A Lei da Noite é derrapada na carreira de diretor de Ben Affleck

A Lei da Noite é derrapada na carreira de diretor de Ben Affleck

Quatro anos após chegar ao topo com “Argo”, o diretor Ben Affleck retorna com um dos seus projeto dos sonhos, mas o resultado é um tropeço na carreira por trás das câmeras

 

Os primeiros filmes de Ben Affleck como diretor foram marcados por tramas urbanas, histórias redondas, sem exageros, momentos de humor e um bom trabalho de ambientação. “A Lei da Noite”, um filme de época passado nos anos 1920, mantém a característica urbana, locado primeiramente em Boston e, depois, na Flórida. Mas, é a única comparação possível com os filmes anteriores de Affleck, porque no mais, o que vemos em tela é um tanto bagunçado.

 

No filme, acompanhamos Joe Coughlin (Affleck), um ex-militar que voltou da guerra como um fora da lei. Vemos sua história a partir do ponto em que cometia pequenos assaltos em Boston, até que um episódio com o poderoso gangster irlandês Albert White (Robert Glenister) desencadeia uma série de eventos que o deixam preso por três anos. Ao sair, renega seu desejo de não mais fazer parte do crime organizado e fecha acordo com o mandachuva italiano rival de White, Maso Pescatore (Remo Girone), para se tornar o líder da quadrilha na Flórida, comandando o contrabando de bebidas cubanas durante a Lei Seca dos Estados Unidos.

 

Observe como, ao descrever a história, eu usei o artifício “desencadeia uma série de eventos”. A intenção é entregar o mínimo da trama por aqui, mas imagine se eu usasse isso por todo o texto, para acelerar as partes trabalhosas de explicar? É mais ou menos o que Affleck, que além de ter dirigido também roteirizou o filme (com base no livro “Os Filhos da Noite”, de Dennis Lehane), faz em “A Lei da Noite”. Em diversos momentos esse expediente de expor rapidamente a história pela narração é usado para desatar nós que exigiriam mais esforço, diminuindo os feitos do protagonista. Tudo parece fácil demais.

 

É por questões como essa que o principal problema do filme vem do seu roteiro. E é por conta disso, também, que as atuações parecem deslocadas. O texto, que traz um festival de frases de efeito – tem até diálogos inteiros construídos com frases de efeito -, acaba minando os esforços do bom elenco do filme, como o delegado Figgis (Chris Cooper), que até oferece momentos tocantes diante do seu drama pessoal, e Graciela (Zoe Saldana), um dos interesses românticos de Joe. Já Emma Gould (Sienna Miller), outro interesse romântico, sai de tela bem diferente da maneira como entrou e sem que seja possível compreender direito e acreditar no porquê. Destacam-se Brendan Gleeson, que tem pouco tempo no filme, como o pai de Joe, o chefe de polícia Thomas Coughlin, e Elle Fanning, talvez pelo fato de sua Loretta Figgis realmente estar perdida na vida.

 

No que diz respeito ao protagonista Joe Coughlin, temos um dos momentos mais canastrões de Ben Affleck. Ele passa boa parte do tempo com a fisionomia impassível (eu elogiei essa característica em “O Contador”, onde fazia sentido, mas agora está parecendo mais uma muleta do ator), em contraposição com momentos que soam teatrais demais. O personagem também tem conflitos internos, sempre transitando entre o chefão cruel e o bom rapaz com arrependimentos e princípios, mas não consegue soar convincente, especialmente nos seus atos finais.

 

“A Lei da Noite” também tem questões negativas de direção, como, por exemplo, uma sequência de perseguição de carros que não faz sentido. Não bastasse o excesso de cortes, Affleck e o montador William Goldenberg acrescentam pulos. Então, uma hora vemos Joe indo passar com o carro debaixo de uma ponte, aí corta e ele está passando no meio de uma feira, aí corta para uma tomada aérea de carros chegando a uma ponte estaiada, aí corta para uma estrada numa floresta, sendo que não se sabe mais qual carro você está vendo, nem onde, nem nada. Além disso, há o fato de a câmera passar o filme todo fazendo o mesmo exato movimento, que é seguir pessoas caminhando. E a questão de a montagem insistir em inserir microcenas durante diálogos, quebrando o raciocínio, apenas para mostrar uma frase sendo dita em um lugar diferente. A trilha sonora, que não se encaixa com o gênero e a ambientação, também ajuda a deixar o resultado final do filme desconexo.

A bela fotografia da Flórida.

 

Nem tudo é ruim

Voltando ao início, se tem uma característica que “A Lei da Noite” tem em comum com o restante da filmografia de Affleck é a competente ambientação, que aqui é um destaque positivo graças à fotografia (de Robert Richardson) e o design de produção (de Jess Gonchor), que conseguem transformar a Flórida em uma mini Cuba, além de oferecerem belos quadros com a paisagem natural da região.

 

A premissa do filme não é original, histórias de gângsters crescendo no mundo do crime já foram contadas antes e de maneira melhor. “A Lei da Noite” tem algum mérito por conseguir construir bem seu universo (graças, também, aos figurinos de Jacqueline West) e por mostrar como o fanatismo religioso e o preconceito racial, tanto contra negros quanto contra imigrantes, questões que hoje são tão latentes, já pesavam sobre os Estados Unidos naquela época. Contudo, o resultado final desse, que era apontado como um dos projetos dos sonhos de Affleck, é autoindulgente e acaba deixando um diretor que vinha em uma interessante (e até oscarizada) sequência alguns passos para trás.

 

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.