Kingsman: o Círculo Dourado

Kingsman: o Círculo Dourado

Sequência não traz o mesmo frescor do original, mas ainda assim, é um bom divertimento para os fãs de filme de ação

 

Em 2014, quando o primeiro filme da série Kingsman foi lançado, uma cena em particular chamava a atenção. O agente Henry, personagem vivido por Colin Firth, controlado pelo inimigo, dizima todos os fiéis que estão em uma igreja, ao som do hino rock “Free Bird”. A sequência é uma catarse do que o filme apresentava, uma sensação de choque, ousadia e um frescor que os filmes de ação precisavam há tempos. Pulamos para 2017 e temos Kingsman: o Círculo Dourado, continuação do original e que, novamente, é escrita (junto com Jane Goldman) e dirigida por Matthew Vaughn, sempre com base na HQ criada por Mark Millar.

 

E a pergunta inevitável é: a sequência consegue oferecer o que o original trouxe? A resposta é: mais ou menos. Círculo Dourado consegue divertir bastante, mas empalidece por não ter o mesmo impacto que o primeiro e por acabar se repetindo em alguns pontos, ainda que Vaughn encontre algumas soluções criativas para tentar contornar isso.

 

No filme, encontramos a Kingsman, a agência secreta britânica, se recompondo após baixas importantes do primeiro filme. O jovem agente Eggsy, ou Galahad (Taron Egerton), é peça central da agência, ao mesmo tempo em que tenta levar adiante um romance secreto (a Kingsman não permite relacionamentos), o que não é muito fácil, uma vez que ele namora uma princesa. E, novamente, a agência é atacada, fazendo com que, desta vez, restem apenas dois integrantes: Eggsy e Merlin (Mark Strong, também retornando do primeiro filme). Eles precisam combater uma multinacional do tráfico de drogas, a Círculo Dourado, que passa a ameaçar de morte uma boa parcela da humanidade, e acabam conseguindo a ajuda da agência-prima dos Estados Unidos, a Statesman, para a tarefa.

Tequila e Ginger: se na Kingsman usam codinomes de cavaleiros, na Statesman, são bebidas

 

Kingsman é uma série de ação e este filme já começa na frequência máxima, com uma sequência embalada por música, sendo que o que torna essa cena curiosa é que boa parte do combate ocorre no minúsculo espaço do banco de trás de um carro em movimento. Para tanto, a produção conta com bastante computação gráfica e esse é um dos problemas do longa, muitas vezes o artificial fica muito carregado. E isso vale tanto para as sequências de ação quanto para os “passeios” que a câmera dá com frequência pelas cenas. O resultado deixa a montagem do filme mais coesa (inclusive com raccords interessantes, como um saco de maconha se transformando em uma selva ou uma garrafa de uísque virando um prédio), mas é impossível não notar que aquilo é computação, o que acaba nos tirando um pouco da história.

 

Círculo Dourado também sofreu com uma espécie de autossabotagem ao mostrar, desde o primeiro trailer, que o agente Henry estaria de volta após os eventos do primeiro filme (a maneira como ele retorna é um tanto forçada, diga-se). Isso fez com que o longe perdesse boa parte da carga dramática que poderia ter, ainda que Mark Strong consiga fazer um bom trabalho nesse sentido. Por outro lado, o filme consegue manter o humor do original, nem tanto pelas insistentes (e às vezes incômodas) piadas de cunho sexual, mas pelo afinado humor britânico, que aqui recebe a ajuda de nada menos que sir Elton John, que se sai melhor do que o esperado como ator. Aliás, sua “Saturday Night’s Alright for Fighting” embala uma das boas sequências de ação do filme.

Henry, Eggsy e Merlin indo para a ação

 

Integração entre os filmes

Outra questão bem realizada é a simbiose entre os filmes 1 e 2 da série. A própria presença de Elton John no filme se deve a uma boa tirada relacionada ao original e Vaughn é inteligente em alguns momentos ao fazer parecer que uma situação de lá se repetiria aqui e quebrar a expectativa na sequência.

 

O principal problema do filme, porém, é que falha com quase todos os seus personagens, a não ser os principais – Eggsy, Henry e Merlin – ao estabelecê-los como meros coadjuvantes. Peguemos, por exemplo, a vilã Poppy (Julianne Moore), a comandante do Círculo Dourado, que tem uma construção interessante, com momentos engraçados, vivendo sempre nos anos 1950 e com uma motivação curiosa: a legalização das drogas. Mas ela tem que dividir sua vilania com outros personagens e pouco consegue se sobressair. O mesmo vale para o núcleo da Statesman, com Champ (Jeff Bridges, mais do que à vontade como um mandachuva sulista), Tequila (Channing Tatum) e Ginger (Halle Berry, ainda que em menor escala), um elenco de peso para participações rápidas e sem muita relevância. A única exceção é Uísque, que permite que Pedro Pascal demonstre sua versatilidade.

Uísque e Eggsy em uma missão

 

Apesar dos problemas, Kingsman ainda é diversão garantida para os fãs de filmes de ação. Claro, para aqueles que não se importam com uma dose mais elevada de violência (vamos dizer apenas que há moedores de carne envolvidos). Mas, já que a mistura com os EUA não deu tão certo, fico na torcida para que, se a série ganhar mais filmes, foque mais na origem britânica.

 

Obs.: o filme tem versão em 3D, mas que pouco acrescenta e acaba deixando algumas cenas bem escuras.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.