A juventude e a cidade que nunca terminam

A juventude e a cidade que nunca terminam

Amores Urbanos, longa de estreia de Vera Egito, cristaliza a imagem de uma geração que pouco foi vista no cinema brasileiro

A bilheteria do cinema nacional cresceu muito nos últimos anos, em grande parte devido às infindáveis comédias da Globo Filmes. Sou partidário da ideia de qualquer produção é melhor do que nenhuma produção, mas a falta de diversidade de temas começa a irritar.

Amores Urbanos

Pôster apelativo, mais atrapalha do que ajuda

Este ano, felizmente, o grande circuito de salas recebeu algumas novidades – como o muito interessante Reza a Lenda e agora este Amores Urbanos, primeiro longa-metragem da cineasta Vera Egito.

Não se deixe ludibriar pelo pôster, que usa as imagens dos músicos Ana Cañas e Thiago Pethit em beijos gays para tentar chamar atenção pelo choque. O drama ambientado em São Paulo oferece bem mais do que isso. O filme conta a história de três amigos, por volta dos trinta anos de idade, mas que agem como adolescentes perdidos. Sua melhor característica? O firme pé na realidade.

Pode parecer estranho um elogio deste site a um filme com alto grau verossimilhança, visto que (quase) sempre tratamos aqui de heróis superpoderosos, macacos gigantes e coisas do tipo. Mas cinema bom precisa de sentimentos reais, com os quais o espectador possa se relacionar. E Amores Urbanos tem isso de sobra.

Na coletiva de lançamento, Thiago Pethit – mais conhecido por sua carreira musical, mas que se mostrou um ator incrível, o melhor do trio -, falou sobre essa ideia, de retratar uma geração nas telas: “Não foi uma construção de personagem, foi mais colocar para fora algo que já estava em mim, porque o Diego [seu personagem na trama] é como muita gente que eu conheço, como muito dos meus amigos”.

Amores Urbanos_por Gianfranco Briceño_13

Desajustados. Mas, não somos todos um pouco assim?

De fato, para quem vive não só em São Paulo, mas em qualquer outro centro urbano, e tem até 35 anos, todas as figuras centrais são facilmente reconhecíveis: Julia (interpretada por Maria Laura Nogueira, a mais fraca do trio), que é a garota que estudou Comunicação, mas nunca se fixou em nenhum trabalho e, aos trinta, ainda é bancada pelos pais; Mica (uma surpreendente Renata Gaspar, conhecida por comédia e arrebentando no drama), uma lésbica bem resolvida com tudo em sua vida, mas que se envolve emocionalmente com alguém não tão firme assim; e o gay colocado para fora de casa ainda adolescente e que agarra a cidade pelos dentes –  Diego, trazido à vida pelo excelente Thiago Pethit.

Das desventuras amorosas do trio, tudo mais se desenrola: questões profissionais, instabilidade familiar… Muito álcool e pouca decisão. Uma hora a juventude precisa terminar. Ainda que todo o resto, especialmente a cidade de São Paulo, palco da trama, jamais se aquiete.

Amores Urbanos  faz o retrato de uma geração que se preocupa mais com o post do Instagram do que com o amanhã. Mas será que é preciso se preocupar? O filme dá a entender que sim, pois a realidade se impõe de uma maneira ou de outra, obrigando as pessoas a evoluir e tomar as rédeas de suas vidas.

E é essa a maior virtude do filme de Vera Egito, mostrar gente que existe, não mulheres histéricas atrás de marido, casais idiotas em cenas dignas de “vídeo-cassetadas do Faustão” ou mesmo o plano-sequência padrão da estética da fome: sol-terra-rachada-menino-barrigudinho-cachorro-magrelo. Quem está na tela é o meu amigo, o seu vizinho… Você.

Ainda que tenha contado com uma campanha de marketing intensa, é provável que Amores Urbanos não fique muito tempo em cartaz. Tenho a impressão de que esse é daqueles filmes que ninguém vai dar muita bola no lançamento, mas que vira cult depois de um tempo. Mas se você ainda conseguir assistir nos cinemas, vá. Uma olhada no espelho sempre cai bem.

Amores Urbanos
Direção e Roteiro: Vera Egito
Elenco: Maria Laura Nogueira, Thiago Pethit, Renata Gaspar, Ana Cañas, Lucas Brilhante
Distribuidor: Europa Filmes
Duração: 90 minutos
NOTA DO THIAGO: 9,0

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).