Homem-Aranha: De Volta ao Lar é fraco e simplista

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é fraco e simplista

Terceira versão do Amigão da Vizinhança para o cinema apresenta trama infantilóide e que foge da essência do personagem

 

Esse texto contém conteúdo que pode ser considerado spoiler. Atenção na leitura caso você ainda não tenha assistido ao filme.

 

Desde que Sam Raimi teve a complicada missão de levar às telas o Cabeça de Teia, 15 anos atrás, mais quatro filmes vieram. Desses, somente este primeiro e o segundo capitaneado pelo diretor valeram realmente à pena.

Homem-Aranha 3 é pior que bater o dedinho na quina da mesa. E os dois “Espetacular Homem-Aranha”, com Andrew Garfield no papel principal são espetacularmente ruins. O segundo, em especial, é das piores coisas que Hollywood já vez.

Então, depois do verdadeiro desastre, a Sony, que tem os direitos do Aracnídeo no cinema, chamou a Marvel de canto e falou: “Já que vocês estão manjando tanto desse lance de fazer filme de super-herói, pega essa bucha aí e resolve”.

BOOM! A Internet explodiu com a participação do Homem-Aranha revelada no trailer de Capitão América – Guerra Civil.

 

 

Passa mais um tempo, e temos a chegada de Homem-Aranha – De Volta ao Lar. Vários significados nesse tal “lar”. É a própria Marvel, é um baile do colégio de Peter Parker, seria uma volta à essência do personagem. As duas primeiras promessas do título se cumprem. A última, nem de longe.

 

Quem é o Homem-Aranha?

Peter Parker é um menino gênio. Ele, sozinho, inventou o fluído de teia que usa em seus lançadores. Peter é nerd, daqueles bem raiz. Excluído, atormentado pelo bully do colégio. E com uma culpa sem tamanho, por ter deixado o ladrão que matou seu tio fugir, quando poderia tê-lo parado.

“Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, lembra disso? Pois é… frase clássica, definidora do personagem.

Que não é dita nenhuma vez em De Volta ao Lar. Pior: o Tio Ben nem sequer é citado.

Aí pode ser um cara que lança teia e sobe em parede. Mas Homem-Aranha mesmo ele não é.

 

Subestimando a criançada

Homem-Aranha – De Volta ao Lar recoloca Peter Parker como um adolescente inteligente, ainda no colégio, tendo que lidar com todas as questões do seu amadurecimento. Até aí, tudo bem.

Porém, falta motivação. Por que vestir a máscara e se lançar no combate ao crime? Simplesmente porque tem poderes? É pouco, muito pouco. A impressão que fica é que os produtores miraram num público bem infantil e, subestimando a criançada, deixou o filme mais leve, sem falar de morte ou qualquer coisa supostamente mais pesada.

É uma tremenda bobagem agir assim. Crianças conseguem muito bem entender o que é vida e morte e isso vem desde que a mãe do Bambi e o Mufasa morreram.

Resultado? Substituem a figura paterna ausente do Tio Ben por Tony Stark, o Homem de Ferro. Sim, Tony, o alcóolatra. Tony, o titubeante cientista que criou o Ultron e que apoiou o registro de super-humanos.

Tony, que não toma conta nem de si mesmo, sendo referência para um menino em desenvolvimento. Certinho. Só que não.

 

Além disso, Tony ainda atrapalha por fornecer um uniforme ultra tecnológico para Peter, de certa maneira tirando a autenticidade do jovem herói.

 

Precisamos falar sobre a Tia May

Como se não bastasse toda a descaraterização que ataca o Homem-Aranha, outra figura fundamental no contexto é alterada, a Tia May.

A Tia May sempre foi o pináculo da “tiazinha fofa”, uma velhinha adorável. Ok, essa era a Tia May clássica. Vamos usar então a Tia May do Universo Ultimate das HQs, no qual o filme se inspirou bastante.

Sai a senhorinha e entra uma mulher de meia-idade forte, conectada e decidida. Mas que não é, definitivamente, um símbolo sexual, uma mulher que atrai os olhares de todos os homens.

Mas, como parte do processo de imbecilização que De Volta ao Lar emprega, deixando tudo mais “bonitinho”, Peter agora só a chama de “May”, esquece o “tia”, e há pelo menos três piadas sem-graça sobre como ela é gostosa.

Marisa Tomei como “May”

 

Bobo, desnecessário, fora de contexto e completamente machista. May, a Tia, é a conexão de Peter com o mundo “normal” e é mais um motivo de preocupação para o garoto, porque seus inimigos podem atingi-lo por meio dela. Não porque o dono da quitanda da esquina está babando por ela.

 

Algo se salva

Mas nem tudo é terrível no filme. Tom Holland, o novo Homem-Aranha, é perfeito. Mesmo gostando muito de Tobey Maguire, tendo a dizer que Holland é o melhor intérprete que o personagem já teve. Magro e esguio, ao mesmo tempo que é forte, tem o físico ideal e um jeito divertido embaixo da máscara e tímido fora dela. Assim consegue convencer muito bem.

E é até sacanagem querer discutir a qualidade de Michael Keaton, que faz o vilão Abutre. Mesmo com um roteiro capenga em mãos, o ator entrega uma atuação excelente, criando um perfil sociopata interessante e que, só não é mais aterrador pelo mesmo motivo que destrói o restante do filme: a indicação expressa em ser um filme infantilóide.

Não sei se é uma reação exagerada ao peso maior que Guerra Civil e Batman vs Superman trouxeram às telas, mas o fato é que este Homem-Aranha deixou muito a desejar. Mas como o sucesso nas bilheterias está acontecendo, veremos em breve uma sequência. Fica nela a esperança de ver um herói mais próximo daquele que Stan Lee e Steve Ditko criaram, lá em 1962.

É que talvez naquela época as crianças e adolescentes fossem um pouco mais espertos. Ou, mais certo, menos subestimados.

 

Para quem quer ver um Homem-Aranha de verdade

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).