Em Ritmo de Fuga: um musical diferente

Em Ritmo de Fuga: um musical diferente

Em seu novo trabalho, Edgar Wright usa a música para nos guiar por um dos melhores filmes de ação do ano

 

Eu não sou uma pessoa de falar muito. Sou bem focado quando trabalho. Escuto um bom tanto de músicas todos os dias. E, desde pequeno, após uma infecção, convivo com um zunido constante nos ouvidos. Estou falando de mim, mas poderia muito bem estar descrevendo Baby (Ansel Elgort), o protagonista de Em Ritmo de Fuga, novo filme escrito e dirigido por Edgar Wright. Mas, tem uma grande diferença: enquanto eu sou um bom motorista, Baby é um “diabo atrás do volante”.

Em Ritmo de Fuga é, basicamente, um musical, não aquele estilo clássico para o qual muita gente, por preconceito, torce o nariz. Mas, é permeado de música do início ao fim, quase sempre vinda dos inseparáveis iPods de Baby. Ou seja, passamos quase o filme todo dentro da cabeça do garoto motorista, o que significa na cabeça de Edgar Wright.

 

Doc passa instruções a um grupo enquanto nós assistimos pelos olhos de Baby. A subjetividade é constante no filme (e olha lá na direita o Flea dando uma de ator).

 

E trata-se de um diretor com uma linguagem visual muito bem definida e que aqui faz muito uso das cores para contar a história. É interessante reparar o vermelho, uma cor de urgência e de perigo, em boa parte do tempo associada a Baby, que também tem muito de azul (um grande exemplo são as tomadas aéreas de Atlanta com os prédios azuis e as ruas vermelhas. É ou não a cidade de Baby?). O amarelo é a cor de Debora (Lily James), a garota pela qual ele se interessa – e que, vejam só, entra em cena com um fone de ouvido, objeto do qual Baby quase nunca se separa. E o diretor usa uma interessante gag visual em uma lavanderia para mostrar como os dois estão se conectando. Há também o verde, que está no apartamento onde ele vive com o pai adotivo, Joe (CJ Jones), e no prédio de Doc (Kevin Spacey), que, de certa forma, também acaba funcionando como uma figura paterna para ele.

 

Todo esse estilo é envolto em música e, aqui, o título em português faz bastante sentido. Tudo acontece no ritmo das músicas que Baby está ouvindo, seja os cortes de câmera durante as perseguições de carro muito bem filmadas (tem até uma perseguição a pé que é tão emocionante e frenética quanto), seja na cadência dos tiros de revólver ou até para fazer tudo se encaixar em uma simples volta que Baby dá alegremente pela rua. E é muito legal perceber todos esses elementos tão bem ajeitados saindo de sintonia quando as coisas não vão bem para ele. Somos carregados pela música por todas as fases do filme e esse é um dos maiores méritos de Wright em “Em Ritmo de Fuga”.

 

O pessoal indo dar uma voltinha de carro (e o perigoso Bats todo de vermelho).

 

Já com relação ao roteiro, a música dá uma desafinada. A trama não traz muitas novidades, acompanhamos a história de um garoto que, por motivos que conhecemos mais para frente, atua como piloto de fuga para um poderoso criminoso, até que ele tenta sair, mas ameaças o convencem a fazer mais um trabalho. Acontece que as figuras com quem ele trabalha em nada diferem da maioria dos criminosos da ficção. Ainda que contando com nomes como Jon Bernthal (no papel de Griff), Jon Hamm (que torna seu Buddy minimamente complexo) e Jamie Foxx (como o brutamontes Bats) nesses grupos, os personagens são todos meio clichês.

 

O filme tem quase duas horas de duração e pode incomodar um pouco, mas nada de mais. Não demora para Baby, juntamente com a gente, dar o play em outra música e, quando menos esperamos, já estamos mais do que de volta ao ritmo.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.