Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é celebração saudosista do politicamente incorreto

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é celebração saudosista do politicamente incorreto

Filme baseado no livro de Danilo Gentili faz questão de parecer errado, mas mesmo assim diverte e questiona a babaquice dos tempos atuais

 

Sou obrigado a começar esse texto dizendo do meu preconceito contra Danilo Gentili. Assistindo ao seu programa e o acompanhando nas redes sociais, tinha apenas uma palavra para defini-lo: babaca.

Foi com essa ideia pré-concebida em mente que fui assistir Como se tornar o pior aluno da escola, filme baseado no livro homônimo, de autoria do comediante. Não posso dizer que fui surpreendido com os temas e estilo, mas a execução e a construção do filme me causaram uma sensação realmente boa. Vem comigo que te explico.

 

Referências, easter eggs e nostalgia

Como se tornar conta a história de Bernardo (Bruno Munhoz) e Pedro (Daniel Pimentel), dois estudantes comuns que são confrontados com dilemas escolares que os fazem pensar: vale mesmo a pena ser um bom aluno?

 

Pedro precisa tirar 10 na última prova do semestre para passar de ano. Já Bernardo não se conforma em ter de comer somente alimentos saudáveis na cantina da escola. Para os adultos, pode até parecer que são dramas irrisórios. Mas tenta lembrar da sua vida no colégio… um 10 em matemática para passar de ano era o maior problema que você já havia enfrentado.

 

Entra aí um dos pontos positivos da produção: a sensação de familiaridade causada pela nostalgia. Quem viveu esse clima na escola vai se reconhecer no perdido Pedro ou no gordinho nerd Bernardo.

 

É o Quico mesmo, gente!

A sensação familiar aumenta quando entra em cena o diretor do colégio, Ademar, interpretado por ninguém menos que Carlos Villagrán, o Quico do seriado clássico Chaves. Numa interpretação esforçada em conseguir se comunicar em português, ele arranca muitas risadas e mostra que havia mais nele do que “o tesouro da mamãe”.

 

Ao lado de Villagrán, outro ator se destaca e se torna um dos grandes trunfos do filme: Moacyr Franco. O veterano faz o papel do faxineiro da escola e tem algumas das melhores falas. São todas curtas, mas precisas. É muito divertido ver esses rostos com os quais crescemos na TV estarem em situações diferentes, se saindo muito bem nelas.

 

Intencionalmente, segundo o diretor estreante Fabrício Bittar, tudo no filme lembra produções dos anos 1980, como Gatinhas e Gatões, Porky’s, Curso de Verão e até (mais longe, mas ainda assim) O Clube dos Cinco. Para quem está na faixa dos 35 anos para cima, isso fica muito claro desde o começo e agrada, porque a produção é realmente caprichada – da trilha sonora que abre com o hino “We’re not gonna take it” do Twisted Sister, passando pela cenografia e figurinos, tudo está muito bem feito. É isso que deixa o gosto bom ao final.

 

Mas fica a dúvida se somente os mais… err… “experientes” irão curtir o filme. Na coletiva de lançamento, perguntei a Danilo Gentili se ele tinha esse receio e recebi como resposta que ele realmente tinha esse medo, mas que nas sessões prévias, com público mais jovem presente, as reações foram muito positivas. A molecada se identificou com o que viu na tela.

 

Manual da zoeira

Bruno e Daniel. Falá sério, só de olhar pra essa foto dá vontade de rir do gordinho…

De fato, pensando bem, que moleque entre 12 e 15 anos não vai gostar de um filme em que meninos de sua idade vão em festas proibidas para menores, aprendem a zoar os professores e a trazer o caos à escola? E tudo isso ensinado por um maluco bom vivant que mora na suíte presidencial de um luxo. Esse papel coube ao próprio Danilo, que acaba sendo o elo mais fraco dessa corrente. Sua atuação é a pior entre os atores, inclusive os mirins. Aliás, Daniel Pimentel e Bruno Munhoz são excelentes. Bruno, em especial, sobressai como Bernardo e chega a ofuscar o protagonista em alguns momentos.

 

Divertido como uma velha “Sessão da Tarde”, Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola tem ainda uma mensagem subliminar, que me fez repensar o preconceito que citei lá no início do texto. O filme questiona, de maneira leve e sutil, a forma asfixiante que a educação ainda possui. Como as escolas, na maioria das vezes, acabam por suprimir qualquer lampejo criativo dos seus alunos.

 

Eu, como educador, saí da exibição pensando nisso. Como podemos levar conteúdo relevante sem sermos maçantes? Danilo Gentili escolheu o caminho de criar uma personagem para si. É isso que vemos em seu programa e em suas redes sociais. Assim ele ganha uma certa “licença poética” para questionar o status quo com suas polêmicas e babaquices. Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola faz isso também – questiona o que está estabelecido. E isso é muito necessário nos dias atuais. Muita mãe não vai gostar. Mas vale assistir e tentar ver com outros olhos.

 

Eu pelo menos vi que até quem a gente acha babaca pode ter algo bacana a dizer.

 

P.S: tem cena pós-créditos. Fique até o final!

 

O livro que deu origem ao filme

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

1 Comentário

  1. Crítica incrível. Sempre achei o danilo bem babaca mas de uns tempos pra cá tenho admirado cada vez mais o trabalho e a postura dele. Como ator sempre foi péssimo, não há novidade nisso, mas isso que torna mais real e interessante a carreira do Palmito haha. Quero muito ver o filme.

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