Blade Runner 2049

Blade Runner 2049

O retorno ao universo da ficção científica que influenciou boa parte do que veio depois no gênero faz sentir sua longa duração, mas está à altura do original

Como revisitar um clássico do cinema? Mais, como revisitar um clássico que, desde no início dos anos 1980, aponta o caminho para produções da ficção científica até hoje? O resultado precisaria reverenciar o que o original alcançou, mas sem se tornar uma mera repetição. E foi exatamente isso que o diretor Denis Villeneuve (já falei um pouco sobre o trabalho dele por meio de A Chegada) e o diretor de fotografia Roger Deakins conseguiram ao realizar Blade Runner 2049.

 

Como o nome e os letreiros iniciais dizem, o filme retoma a história do primeiro 30 anos depois. A proibição da produção de replicantes – humanos produzidos artificialmente e que são mais fortes e inteligentes – foi revogada e os novos modelos são obedientes. Mas, alguns dos replicantes de modelos antigos fugitivos e com livre arbítrio continuam à solta e sendo caçados pelos “blade runners”. E é justamente o trabalho de um deles, o agente K (Ryan Gosling), que acompanhamos logo no começo.

 

E é aí também que vemos a estratégia de Villeneuve, que dirigiu o roteiro escrito por Hampton Fancher (também escritor do original) e Michael Green: homenagear, ao mesmo tempo que quebra e cria conceitos novos. Por exemplo, assim como no original, começamos com um olho se abrindo na tela, o que, por si só, é uma alegoria para muitas questões, especialmente, atentar-se para a verdade. Mas, na sequência, em vez de cairmos na noite da cidade de Los Angeles, onde tudo é bem escuro e cheio de luzes, caímos em uma área do interior da Califórnia, que é branca a ponto de incomodar os olhos. Mas, não só, também parece estar quase sempre coberta por uma névoa colocada por Deakins, o que passa uma ideia de empoeirado, ou seja: aquela é uma parte do mundo abandonada.

 

Los Angeles tem o visual icônico, mas sem soar como cópia

 

O experiente diretor de fotografia também merece créditos, em conjunto com o design de produção de Dennis Gassner, por conseguir renovar o que talvez fosse o mais difícil em comparação com o original, que é o visual. E eles fazem isso não imitando, como muitos filmes (falei disso recentemente em Ghost in the Shell), mas imaginando como seria aquela Los Angeles décadas depois. Assim, quando vista de cima, ela está ainda mais escura, sem sinais de vida. Já nas ruas, o efeito de neon por todos os lados é amenizado, em troca do aumento dos efeitos visuais, sempre voltados, como era antes, para a publicidade. De qualquer forma, seja no exterior branco ou na cidade escura, os tons frios dominam, situação que só muda no prédio de Niander Wallace (Jared Leto), o dono da corporação que ficou com o espólio da Tyrell e, agora, produz replicantes e, mais para frente, em Las Vegas. São os dois locais nos quais, de alguma forma, originam-se seres vivos.

 

Outro artista com anos de estrada, Hans Zimmer, aqui, em conjunto com Benjamin Wallfisch, também presta tributo ao inesquecível trabalho de Vangelis em Blade Runner ao mesclar os sintetizadores com outros sons mais convencionais, ao mesmo tempo em que valoriza muito o silêncio. E é bastante eficiente, ainda que em alguns momentos abusando da altura das músicas, em criar e manter um clima de constante incômodo.

 

Tudo isso funciona como suporte para uma trama que, também flertando com o noir, consegue ir mais fundo com relação ao orginal. Porque além do eterno embate sobre quais são os parâmetros da humanidade, este Blade Runner 2049 entra em questões bastante latentes hoje, como a busca por uma revolução das minorias. Aliás, a discussão proposta vai ainda mais fundo e nos faz refletir sobre até que ponto, minorias são, de fato, minorias. E, dentro do universo do filme, até que ponto algo é real ou não? E, sim, aquela pergunta que todos que assistiram ao original se fazem é tratada aqui: seria Deckard (Harrison Ford) um replicante? E… não vou mais falar sobre isso.

 

Liberdade criativa

E aí, Deckard, qual é a sua?

 

Denis Villeneuve teve total liberdade para realizar o filme e afirmou, durante a divulgação, que a versão que está nos cinemas é a definitiva, a chamada “versão do diretor”. Não é à toa que o filme tem mais de 2h40 e nós sentimos essa duração. Mas, era necessária para imprimir o ritmo do filme, que tem momentos mais cadenciados e contemplativos (o que, até pela fotografia, é ótimo), tem cenas rápidas, mas que transmitem importantes nuances e tem boas sequências de ação, como a que ocorre mais para o final, à noite em uma “praia”, e que é um bom resumo das qualidades de direção e fotografia do longa. Contudo, todo esse tempo para contar a história também resultou em um excesso de exposição. São diversos os momentos em que personagens explicam alguma coisa, sendo que alguns são necessários, mas muitos não e esse é um dos principais problemas da produção.

 

E Villeneuve também sabe como tratar seus personagens. O agente K talvez seja um dos principais trabalhos de Gosling, que o constrói de maneira contrastante, como alguém extremamente consciente sobre quem é, mas que ao mesmo tempo é bastante afetado pelas suas incertezas. Ana de Armas é uma surpresa no filme por fazer de maneira bastante eficiente uma personagem bem complexa, que tira força emocional de um lugar do qual pouco se espera. Harrison Ford aparece apenas no terceiro ato – como desde sempre dizia o produtor e diretor do original, Ridley Scott -, mas faz um ótimo trabalho ao reviver um Deckard profundamente afetado pelo tempo e pelo passado. O mesmo pode-se dizer de Dave Bautista, acreditem, o mesmo brutamontes de Guardiões da Galáxia, que aqui dá uma vida com profunda sensibilidade ao seu Sapper Morton, ainda que em uma participação rápida. E temos também a replicante Luv, trabalho da atriz Sylvia Hoeks, que transmite de maneira bem clara o conflito da sua personagem, que não tolera em momento algum não ser a melhor de todos os replicantes, ao passo que faz extrema força para conter suas frustrações, afinal, o papel dela é obedecer.

 

Mas, há dois personagens, entre os mais importantes, que apresentam problemas. A primeira é a tentente Joshi (Robin Wright), porque a trama não deixa claras quais são as motivações dela. O segundo é o vilão Niander Wallace. O personagem vivido por Jared Leto chama a atenção primeiro pelas suas características físicas: ele é cego, o que é mais interessante quando lembramos (spoiler de 1982!) que o replicante Roy matou seu criador, o dr. Endol Tyrell, no Blade Runner original afundando os olhos dele com os dedos. E ele também tem como motivação prover as suas criações, os seus replicantes, de autonomia para que se reproduzam livremente. O problema é que ele teria potencial para adicionar muitos ingredientes ao caldeirão que é Blade Runner, mas, acaba sendo subaproveitado.

K e Luv entre modelos antigos de replicantes

 

Por fim, Blade Runner 2049 também fecha um ciclo ao trazer referências de produções mais atuais que, bem provavelmente, foram inspiradas pelo original. Principalmente Ela, o lindo filme que Spike Jonze dirigiu em 2013 (e aqui há uma cena de sexo “virtual” das mais curiosas), e Westworld, série de sucesso da HBO neste ano. Em comum: a discussão dos limites da interação entre homem e tecnologia.

 

Até porque, Blade Runner nos mostra há 30 anos e temos visto muito ultimamente: a origem das maiores provas de humanidade cada vez menos são os seres humanos.

 

Obs: Em preparação para o lançamento, foram produzidos três curtas-metragens oficiais que mostram algumas questões sobre o universo de Blade Runner entre o primeiro e o segundo filmes. Dois foram dirigidos pelo filho de Ridley Scott, Luke Scott. Um deles mostra Niander Wallace apresentando seus novos replicantes ao governo e o outro mostra um pouco da história de Sapper Morton. Por fim, há a animação Black Out 2022, dirigida por Shinichiro Watanabe, que tem no currículo Cowboy Bebop e Samurai Champloo. Ela conta a história do “blecaute”, um evento bem importante na trama de Blade Runner 2049, mas que é pouco aprofundado no filme.

 

Para ler

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.