Bingo e a tristeza cômica do palhaço

Bingo e a tristeza cômica do palhaço

Bingo – O Rei das Manhãs é tragicomédia em que brilha a atuação de Vladimir Brichta no papel-título

 

“A vida não é brincadeira não”. Desde o trailer, essa é uma frase que Bingo, personagem de Vladimir Brichta e que dá nome ao filme nacional que estreia esta semana, repete várias vezes. E, de fato, nos loucos anos 1980, não era mesmo.

Bingo – O Rei das Manhãs conta a história real de Arlindo Barreto e sua explosiva carreira como o palhaço Bozo. Por motivos de direitos autorais, o nome do palhaço originários dos EUA não pode ser utilizado. Muda também o nome: Brichta vive Augusto, não Arlindo. Mas isso não altera nenhuma essência. Bingo, o filme, é um retrato de cores quentes de uma época em que quase tudo era permitido. Em que o termo “politicamente correto” ainda não fazia parte do nosso vocabulário e o mundo era outro.

 

Lição de História

Bingo é uma produção que faz questão de tirar qualquer véu de glamour do universo televisivo. As entranhas das maiores emissoras do País são expostas, mas, interessantemente, o foco está mais na Globo do que no SBT. Pedro Bial (sim, o jornalista) interpreta uma contraparte de Boni – o grande arquiteto da “Vênus Platinada” na época, mas nenhuma menção ao “Patrão” é feita. Silvio Santos passa incólume por essa.

 

Não faz falta na trama. Mas é bem estranha essa sua falta. Será que o sorridente apresentador não quis associar sua imagem tão pristina a uma pancada como Bingo? É bem possível.

 

Os anos 1980 foram o auge da cocaína. E, na época, as más línguas diziam que o palhaço que animava as crianças tinha o nariz vermelho por conta do quanto gostava da substância. Bem, o filme deixa muito, muito claro, que se tratava de mais do que maledicência.

Nesse sentido, é uma verdadeira lição de História. Quando a AIDS era só um mito, a loucura corria solta, ainda mais para quem tinha fama e dinheiro. Neste caso específico, com um pequeno plot twist: uma cláusula no contrato do personagem de Brichta não permite revelar quem é o homem por trás da maquiagem e Augusto, ou o novo “Rei das Manhãs”, se transforma no anônimo mais famoso do Brasil.

 

Tragicomédia

Se de um lado a alegria era esfuziante no palco com a roupa de palhaço, na vida fora dele o retrato que Vladimir Brichta faz de Augusto/Arlindo é cruel. Astro de pornochanchadas e filho de uma atriz decadente, com um filho para criar e fazendo apenas pontas nas novelas “mundiais” (A Globo no filme é chamada de “Mundial”), a chance de viver o amigo da criançada é agarrada com fervor.

 

Porém, o que parecia ser a salvação, com dinheiro e liderança no Ibope, são apenas mais alguns degraus na escada para a perdição. Corajoso, Brichta se apropria do personagem e consegue arrancar gargalhadas para, em seguida, deixar o estômago embrulhado e dar nó na garganta, com sua descida ao inferno.

 

Tem coragem também o diretor Daniel Rezende, que não faz concessões e mostra – com sensibilidade, é importante dizer – o uso de drogas, o sexo e o descuido de Augusto com o filho Gabriel, muitíssimo bem interpretado pelo menino Cauã Martins.

 

Cores e dores

Bingo lembra muito as produções do cinema marginal brasileiro dos anos 1970-80. Tem uma paleta de cores de pornochanchada, dos filmes da mítica “boca do lixo” paulistana. Ajuda também a caracterização dos atores. A Gretchen de Emanuelle Araújo é o melhor exemplo disso.

 

Mas, poderia haver um cuidado maior na pós-produção. Ainda que mostrem prédios e carros da época, olhos mais atentos verão uma ou outra placa de rua que não existia e até umas antenas de TV das mais atuais pregadas em um prédio ou outro.

 

Nada disso, tira o brilho da narrativa, é importante dizer. Bingo é desses filmes necessários para o cinema brasileiro, porque foge da estética da fome e violência, além de levar luz a um período de efervescência na televisão nacional que precisa ser visto e comentado, não só a partir de reprises do “Viva” e do “Canal Brasil”.

 

Então tire as crianças da sala e vá ao cinema. Porque o programa do palhaço era para elas, mas a vida dele não era brincadeira não.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).