Batman: A Piada Mortal

Batman: A Piada Mortal

Na transição para as telonas, a clássica história sobre a origem do Coringa perde a força

Para levar ao cinema “A Piada Mortal” – a versão de Alan Moore e Brian Bolland para a origem do Coringa – o diretor Sam Liu e o roteirista Brian Azzarello tinham um desafio para superar: a graphic novel assume que seus leitores conhecem os personagens daquele universo, pois eles vêm de outros produtos do mesmo formato, mas um filme não pode fazer o mesmo. É preciso considerar que muitos dos que vão assistir não leram ou nem sabiam que a história existia.

Batman? Esse não é preciso comentar. Coringa? Fácil. James Gordon? O comissário já esteve em bastantes filmes, está tudo bem aqui. Mas, e Barbara Gordon, que tem um papel fundamental na trama, especialmente na animação? O sobrenome é familiar, mas pergunte àqueles que não têm afinidade com revistas quem é a moça e qual sua relação com Batman e repare no tamanho da interrogação à sua frente.

Certo, era preciso apresentá-la, mas para isso, a animação usou muito do tempo que tinha para contar a história, na verdade, todo o primeiro ato do filme. Tudo isso, basicamente para dar a Batman motivação para ir atrás do Coringa. Precisava?

Barbara Gordon, a protagonista do primeiro ato.

Barbara Gordon, a protagonista do primeiro ato.

 

A opção de Azzarello por construir o roteiro do filme na exata ordem da HQ também causa um problema de ritmo. Nos quadrinhos, a história principal é intercalada com flashbacks que mostram como um comediante fracassado se tornou o maior inimigo de Batman. No filme, essas sequências, especialmente as da conversa no bar, se tornam longas e em alguns momentos maçantes, além de quebrarem uma narrativa que já não era muito fluida por conta do primeiro ato. Por outro lado, o principal ponto do passado, o surgimento do Coringa, ocorre de maneira extremamente rápida. A HQ oferece ao leitor tempo necessário para absorver aquele momento, para se prender aos detalhes de cada quadro… no filme, tudo parece corrido e, portanto, sem o peso que o momento carrega (SPOILER: lembra da cena em que Bane quebra as costas de Batman em “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”? A sensação de “é só isso” é a mesma).

O que torna “A Piada Mortal” fascinante, mais do que trazer um dos mais emblemáticos embates entre Batman e Coringa, é a ode à loucura, levada a cabo por aquele que, talvez, seja seu principal entusiasta. Mas as escolhas feitas para transportar a experiência para o cinema, especialmente com o longo primeiro ato, diluem o fator-chave e levam a história mais para o lado da vingança. E aqui é importante notar mais uma ótima atuação de Mark Hamill ao dublar o Coringa. Seja declamando o emblemático texto de Moore ou até cantando, o ator está mais à vontade do que nunca no personagem que vem defendendo há anos em animações e jogos de vídeo-game.

Batman enfrenta o Coringa e a loucura.

Batman enfrenta o Coringa e a loucura.

 

Chegamos então a uma questão que permeia as duas obras: “A Piada Mortal” é machista? A verdade é que há elementos dessa natureza, de fato, mas não que estes definam a história. E se você não assistiu, falo de alguns spoilers a partir daqui.

No original, Barbara Gordon é despida após ser alvejada e antes de ser fotografada por Coringa. No filme, ele apenas tira fotos. Tem quem considere o ato das HQs um estupro – há base para isso – e algo feito apenas para reafirmar personagens masculinos. Mas não podemos ignorar o contexto: Coringa é inconsequente, entregue à loucura e quer “provar um argumento”. Dentro do universo dele, o que foi feito não é nada além de um passo a mais para tornar o dia do comandante Gordon ruim o suficiente para que ele perca a sanidade.

 

Já no filme, Barbara protagoniza todo primeiro ato e são claros os esforços para demonstrar sua força: ela é decidida, ousada, corajosa e não se dobra às ordens de Batman, seu mentor, das quais discorda. Por outro lado, não consegue se livrar dos clichês de se apaixonar pelo homem alfa, agir de maneira inconsequente (e se colocando em risco) e de desistir de seus objetivos por uma decepção amorosa. Novamente, o filme se beneficiaria muito de um primeiro ato mais direcionado para a história em si.

 

“A Piada Mortal” é bastante competente em fan service, talvez até demais, levando para a tela imagens e diálogos saídos diretamente da revista. Mas, as escolhas feitas para colocar a história na tela poderiam ter sido mais bem pensadas.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.