Assassin’s Creed: mais uma adaptação decepcionante

Assassin’s Creed: mais uma adaptação decepcionante

História que não convence e visual ruim prejudicam a chegada deste sucesso dos vídeo-games ao cinema

 

Imagine que existia um vírus que atacava um determinado grupo de pessoas e, para poder se defender da ameaça, esse grupo buscava uma vacina. Séculos se passaram e esse vírus deixou de existir, só que o grupo de pessoas atacado insiste em conseguir a vacina e, para atingir esse objetivo, elas trazem o vírus ameaçador de volta.

 

Faz algum sentido? Não, mas é em algo parecido com isso que a versão para os cinemas da série dos video-games “Assassin’s Creed” quer fazer o espectador acreditar. E esse é o maior, mas não o único problema no longa-metragem do diretor Justin Kurzel, com roteiro de Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage.

 

assassinscreed

 

No filme, acompanhamos a história de Cal Lynch (Michal Fassbender), que 30 anos após ter visto a mãe ser assassinada pelo pai, está preso e condenado à morte, o que o leva a encontrar a Dra. Sofia Rikkin (Marion Cotillard). Ela, juntamente com o pai (Jeremy Irons), comanda um projeto pelo qual consegue fazer com que pessoas revivam memórias de antepassados distantes. É a partir daí que Lynch retorna à Espanha em 1492, na pele de Aguilar, membro do Credo dos Assassinos que defende a Maçã do Éden, um artefato que contém o código genético para o livre-arbítrio e que, nas mãos erradas…

 

“Assassin’s Creed”, pela visão da Dra. Sofia, até parte de uma motivação nobre, que é tentar extinguir a violência no mundo. O problema é que o roteiro propõe tudo de maneira inconsistente, dando aos personagens motivações fracas o que torna difícil aceitar as viradas da história. O maior prejudicado com isso é Lynch, que muda de ideia e adquire habilidades que nunca tinha visto na vida na velocidade em que dedos são estalados, resultando em um dos piores papéis do ótimo Michael Fassbender até hoje. O mesmo vale para o restante do bom elenco do filme. Marion Cotillard ainda consegue dar alguma (bem pouca) complexidade à sua Dra. Sofia, mas Jeremy Irons e até Charlotte Rampling, que tem rápida participação, ficam presos aos vilões maniqueístas. Sem contar Brendan Gleeson, que também passa brevemente pela tela apenas como artifício para novamente fazer a trama correr o mais rápido possível.

 

Em meio a tudo isso ainda precisamos lidar com questões como um baú importantíssimo para a humanidade e que ninguém tinha pensado em abrir até o roteiro ter vontade e uma águia que aparece voando mais ou menos a cada meia hora e não tem absolutamente nenhuma função narrativa. Pode até ser que tenha nos jogos, mas, cinema é um meio totalmente diferente e precisa funcionar de maneira independente, ainda que traga momentos de fan service.

Cal no Animus, a máquina que permite reviver memórias

 

Esteticamente, “Assassin’s Creed” também tem problemas. Apesar de conseguir estabelecer bem a diferença entre as memórias (com cores quentes) e a realidade (com cores frias), incluindo as implicações do passado no presente, o filme sofre com algumas escolhas equivocadas. Os cenários são quase sempre escuros e, o que é pior, esfumaçados. O resultado disso é que o campo de visão fica extremamente limitado – um problema ainda maior quando lembramos que este filme é exibido em 3D, como na sessão em que assisti – e, junto com a paleta de cores pasteurizada, deixa as locações extremamente sem vida e gritando artificialidade.

 

Apesar disso, é quando vai para o passado que “Assassin’s Creed” tem seus melhores momentos, trazendo elementos direto dos jogos, como fugas e perseguições (com o tradicional parkour) e missões pelas sombras. Pena que a maior parte do filme é situada no presente, no qual esse credo de assassinos ainda está longe de se encontrar.

 

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.