Apostas do Oscar: Artista do Desastre

Apostas do Oscar: Artista do Desastre

James Franco cria uma narrativa das mais interessantes, atuando e dirigindo, e tira um ótimo filme da história de outro, que é deliciosamente horrível

 

“O pior filme de todos os tempos”. Foi assim que The Room, uma produção independente do início dos anos 2000, sempre foi descrita. E tudo que é ruim demais, especialmente se não foi feito com esse intuito mas que simplesmente terminou sendo um imenso lixo, acaba gerando no público um certo fascínio.

 

Não resistimos à desgraça alheia.

 

E se The Room não é nada bom, o filme que conta sua história – Artista do Desastre é um belo espetáculo. Dirigido e estrelado por James Franco, traz para as telas a trajetória absurda de um ser estranho e absolutamente fascinante: Tommy Wiseau.

 

Você, leitor incauto, pode perguntar: “Quem?”. Pois é… Ninguém tem a menor ideia de quem seja Tommy Wiseau. Só se sabe o que ele mostra, que é uma figura estranha, um maluco de cabelos compridos, visão artística no mínimo questionável e um sotaque indefinido, que não nos deixa saber de onde ele veio. Basicamente, nada.

 

O que há então de tão interessante em retratar um completo “Zé Ninguém”? Bom, esse doido bancou cerca de 6 milhões de dólares num filme absurdo, com atuações grotescas e ainda pagou para que essa bomba ficasse duas semanas em duas salas de cinema de Los Angeles, na esperança de ser indicado ao Oscar. Se essa não é uma história que vale a pena ser contada, nada mais seria.

 

A base do roteiro é o livro de Greg Sestero, amigo de Tommy e uma das “estrelas” de The Room. A relação entre os dois é o motor que leva tudo a acontecer. Carente e em constante busca pela afeição e aprovação de Greg, Tommy molda a realidade aos seus interesses, o que é relativamente fácil de ser feito quando se tem muita grana aos montes e nenhuma noção da realidade.

 

Para o papel de Greg, Franco convocou seu irmão mais novo, Dave Franco, o que deixa ainda mais divertidas as situações do filme. Porque há uma (óbvia) semelhança física entre eles. Mas a caracterização e a atuação inspirada do Franco mais velho os afasta, deixando aquilo que os aproxima como sendo apenas uma sensação, o que contribui para a construção complexa de Tommy, que não se sabe se quer ser como Greg, ser um mentor para o jovem ou até transar com ele.

 

O filme segue a trajetória de ambos, do momento em que se conhecem numa constrangedora aula de teatro, até a première de The Room. Aliás, o constrangimento é sempre presente. Poucos filmes são capazes de gerar no espectador tantas sensações de vergonha alheia em menos de duas horas. E o pior de tudo é saber que é tudo verdade.

 

Prepare-se então para rir bastante, mas de nervoso e incômodo. E para ficar com a risada estranhíssima de Tommy na cabeça por algum tempo depois de terminar o filme.

 

Atuação impressionante

James Franco ganhou, merecidamente, o Globo de Ouro por sua atuação nesse filme e é uma aposta forte para o Oscar. Como é possível ver nesse vídeo maravilhoso comparando The Room e Artista do Desastre, ele se transformou completamente em Tommy Wiseau.

 

 

Outro destaque é a trilha sonora, que vai bater fundo para quem está rondando os 40 anos de idade, com muita dance music dos anos 1990 e um uso delicioso de “The Rythm of the Night” da brasileira Corona.

 

Acima de tudo, Artista do Desastre é uma celebração da amizade e da expressão artística. Mas é também um filme sobre cinema. E como metalinguagem, acaba funcionando também como um hilário e oportuno lembrete de que há mais de uma maneira de se tornar uma lenda – e de que não há limites para o que você pode conquistar quando não tem a mínima ideia do que está fazendo.

 

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).