Apostas do Oscar: A Forma da Água

Apostas do Oscar: A Forma da Água

Em A Forma da Água, principal concorrente ao Oscar 2018, Guillermo Del Toro conta fábula sobre o amor

 

Nos trabalhos do roteirista e diretor mexicano Guillermo Del Toro uma característica bastante presente é o sobrenatural. Isso pode ser visto, por exemplo, em filmes vindos de HQs (Hellboy), de ação (Círculo de Fogo) e nos suspenses (A Colina Escarlate). E, em seus momentos de maior destaque, ele dá ao sobrenatural um tom de fábula, como em O Labirinto do Fauno e, agora, A Forma da Água.

 

O filme, dirigido por Del Toro e escrito por ele, juntamente com Vanessa Taylor, conta a história de Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda que é faxineira do turno da noite de um laboratório do governo em Baltimore (EUA) e que tem sua rotina de vida tranquila entre o trabalho e seu apartamento, que fica em cima de uma sala de cinema, pelo qual é vizinha do ilustrador Giles (Richard Jenkins), com quem tem uma relação de amizade.

 

Todas as manhãs, assim que acorda, Elisa coloca três ovos para cozinhar (olha a água); toma seu banho de banheira, no qual sempre aproveita o tempo para o autoprazer (dentro da água!) e vive lidando com a chuva (mais água) no trajeto de ônibus para o trabalho. Tudo começa a mudar no dia em que Strickland (Michael Shannon), vestido de preto (o que o faz destoar das cores claras de todas as outras pessoas do complexo), chega ao laboratório carregando um grande cilindro cheio de água e, lá dentro, há uma criatura selvagem, meio homem, meio peixe (Doug Jones), que causa estarrecimento em todos, menos em uma fascinada Elisa.

Strickland e seu jeito ameaçador contra Elisa e Zelda

Mudez que diz muito

Um dos maiores acertos de Del Toro foi fazer sua protagonista muda porque, assim, conseguiu abrir uma série de possibilidades. Primeiro, as cômicas, com a amiga e colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer), que fala bastante pelas duas, sempre fazendo observações ácidas sobre o casamento, a vida e até outra mais complexas, como quando questiona “quem conhece a aparência de Deus?” ao ouvir que a criatura não poderia ser uma criação divina. Mas, mais do que isso, em alguns momentos, Elisa faz com que outros personagens falem por ela como se estivessem conversando com eles mesmos na frente de um espelho e, assim, fazendo uma autorreflexão.

Giles e a criatura, que, em certos momentos, realiza gestos messiânicos

 

É desse modo que nasce uma das melhores e mais bem montadas (trabalho de Sidney Wolinsky) cenas do filme, quando Elisa tem um “diálogo” duro com Giles, em um momento em que faz o vizinho pensar sobre seus atos. E vale um destaque para a bela atuação de Richard Jenkins, que constrói seu Giles com todas as certezas possíveis, diante da experiência, mas também com todas as inseguranças, por conta da situação em que se encontra.

 

E é também pela mudez de Elisa que A Forma da Água homenageia o cinema. Além de morar em cima de uma sala de cinema, Elisa e Giles estão sempre assistindo a musicais clássicos na televisão dele e, como não pode falar, ela usa a sétima arte para se expressar: seja sapateando, assoviando uma trilha sonora ou improvisando um musical com o seu esfregão. Tudo isso culmina em outra bela cena do filme, apresentada, como nos filmes que eles assistem, em preto e branco.

 

O diretor de fotografia, Dan Laustesn, consegue complementar o que Elisa sente e pelo que ela passa ao transitar entre paletas frias e quentes (isso é bem notável a certa altura do filme em momentos nos quais Elisa está dentro e fora do seu apartamento) e com a intensificação da tempestade conforme os acontecimentos do filme vão deixando a história mais difícil para a protagonista. O trabalho de figurino de Luis Sequeira também contribui ao ir alterando tom esverdeado padrão das roupas dela com, por exemplo, o vermelho, depois que ela entra em contato com a paixão (com destaque para um par de sapatos).

Elisa sob água e a cor vermelha, elementos que ajudam a mostrar o momento de felicidade da moça, que não pode falar para se expressar

O embate entre bem e mal

Mas, se por um lado o fato de ser uma fábula permite que A Forma da Água apresente belos momentos, por outro, o filme é prejudicado pelo maniqueísmo do roteiro, que é comum para esse tipo de história. E o principal problema é o vilão, Strickland. A questão não é a boa atuação de Shannon, ocorre que ele parece ser mal por essência e faz tudo em prol dos seus ganhos pessoais, seja por ganância ou por frustração. E é sintomática a frase que ele ouve do general de cinco estrelas que é seu superior: “decência é um produto que nós vendemos porque não usamos”.

 

O contraponto é que Del Toro utiliza o personagem para fazer uma crítica bastante atual, afinal, Strickland não tem respeito algum pelas mulheres: ele as humilha, rebaixa e chega até a demonstrar uma excitação pelo fato de Elisa ser muda (o que o leva a tapar a boca da esposa durante uma cena de sexo). Mas não é só, o filme também mostra o preconceito contra homossexuais, negros, idosos e, muitas vezes, vindo de onde menos se esperava. Infelizmente, não muito diferente do que encontramos atualmente, apesar de o filme se passar na década de 1960. Por outro lado, temos o Dr. Hoffstetler (Michael Stuhlbarg em outra boa atuação na temporada, após se destacar em Me Chame Pelo Seu Nome), um personagem que se encontra em um contexto difícil de lidar, porém, com um grande senso de correção.

 

Mas, a essência do filme é Elisa, que Sally Hawkins constrói com grande sutileza, e a criatura, com destaque para o belo trabalho de expressão corporal de Jones. A relação entre eles acaba sendo forte e intensa porque não há julgamentos, ela se baseia em tudo menos palavras. Assim, mostram que o amor pode estar em qualquer lugar, por todos todos lados, como a água.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.