A Chegada

A Chegada

Em um dos filmes mais bonitos do ano, Denis Villeneuve coloca à prova nossa capacidade de lidar com o tempo, além de propor um importantíssimo debate sobre comunicação

Vou começar falando sobre perspectiva. Se o centro da Terra fosse transparente, os japoneses iam olhar e achar que andamos de cabeça para baixo. A própria noção de que o norte está em cima e o sul embaixo foi formada em algum momento por questões de padronização, mas quem garante que não estamos olhando o mundo de ponta-cabeça?

Perspectiva é a base dessa complexa e bela história contada por Denis Villeneuve em “A Chegada”. E se você não está familiarizado com o trabalho do diretor canadense, sugiro que dê uma chance. Desde “Incêndios”, filme com o qual começou a ganhar destaque, passando por “Os Suspeitos”, “O Homem Duplicado” e “Sicário: Terra de Ninguém” até chegar aqui, Villeneuve tem colocado em perspectiva uma série de questões essenciais, como família, autoidentidade e as relações de poder. Em “A Chegada”, sua primeira ficção científica, ele traz de volta todas essas questões e ainda põe o dedo em uma das maiores feridas da humanidade hoje: os efeitos da comunicação, e da falta dela.

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A Dra Louise Banks tentando se comunicar com os extraterrestres.

No filme, acompanhamos a história da linguista Louise Banks (Amy Adams), que após a chegada de 12 naves extraterrestres em diferentes pontos do planeta, é convocada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para tentar se comunicar com os tripulantes do veículo que estacionou em Montana, nos Estados Unidos. Para a tarefa, ela tem a companhia do físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que viria para trazer um contraponto científico para a empreitada. Viria porque, na verdade, o contraponto é Louise, que luta contra a insistência pela solução mais rápida, o belicismo e a má diplomacia para provar que o único caminho realmente sólido é o da comunicação, mas é algo que precisa de tempo. E aqui, novamente a mensagem extrapola a tela e chega ao mundo real: todo e qualquer tipo de comunicação precisa de tempo para funcionar. E, como Louise demonstra, funciona.

Por um processo que lembra o de cientistas tentando se comunicar com animais, Louise, juntamente com Ian e suas equipes conseguem interpretar e reutilizar as figuras pelas quais os alienígenas se comunicam. Contudo, o governo norte-americano opta, assim como outros ao redor do mundo, por não divulgar as informações, o que leva ao pior cenário possível: a especulação, seguida de violência, tudo inflamado por figuras que se utilizam da Internet para disseminar discursos de desinformação e ódio. Soa familiar? “A Chegada” estreou no Brasil com um timing curioso, bem no momento em que o Facebook anuncia ações para tentar barrar a disseminação de falsas notícias pela rede social. E quanto mais as comunicações no filme são cortadas, mais as tensões aumentam e a historia caminha para o início de uma guerra, contra um “inimigo” do qual ninguém sabe o que esperar. Mais uma vez, estamos junto com Louise diante de perspectivas, e aqui, cabe até um pouco de semiótica: uma mensagem pode ser interpretada de diversas maneiras, dependendo do histórico e das intenções de quem a recebe.

Denis Villeneuve é um diretor bastante consciente sobre o que coloca em tela. E vemos muito disso na história que corre paralelamente à dos extraterrestres: a jornada pessoal de Louise, pela qual ele propõe outras discussões igualmente importantes. A começar pelo tempo, talvez o único elemento, para nós, realmente linear e que está além do nosso controle, porém, sempre nos controlando. Como diz Louise, logo no começo do filme, “vivemos presos ao tempo”, e Villeneuve, juntamente com o montador Joe Walker, constrói o filme de maneira bastante interessante para nos fazer questionar a ordem dos acontecimentos e nossa relação com esse elemento.

 

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Apesar da luz do sol, o rosto de Louise está no escuro, assim como a personagem em boa parte do filme.

A fotografia de Bradford Young também é bem eficiente em ajudar a contar a história, deixando Louise mergulhada na escuridão durante a maior parte do tempo (observe a casa dela, não deve aparecer uma luz acesa, é uma metáfora de como Louise se sente), em contraponto com as visões que ela tem de outras épocas, sempre iluminadas e com intercalações de paletas quentes e frias conforme o momento. Aliás, a escuridão permeia praticamente todo o filme – o céu vai ficando cada vez mais nublado conforme a história se encaminha para momentos mais tensos -, com exceção de um lugar, em que a luz é tanta que chega até a incomodar os olhos: dentro da nave alienígena. Destaque também para a trilha sonora que é na medida, intercalando sons que são quase cânticos com momentos de total silêncio, além da opção de tornar o que Louise escuta como o áudio do filme em muitos momentos, o que nos faz entrar mais na história e nos transmite a sensação de claustrofobia da personagem.

E é  também a partir da jornada pessoal de Louise que vem a principal revelação do filme e que Villeneuve cria o momento mais bonito da história. Algo que nos leva a genuinamente questionar até onde iríamos por um amor verdadeiro, mesmo que leve a um profundo sofrimento.

O roteiro, escrito por Eric Heisserer a partir do livro “A História da sua Vida”, de Ted Chiang, torna-se um pouco estranho ao alternar o personagem que narra a história durante o filme. O mesmo vale para alguns elementos que ocorrem próximos à conclusão do filme (como a interação de Louise com um personagem chinês), mas nada que, no final, nem de longe estrague essa rica experiência, capaz de mudar perspectivas, que é “A Chegada”.

Cinema? Quanto mais melhor, de qualquer tipo. Música? Toda hora. Video-game? Mas, por que não? Este jornalista, que também trabalha como tradutor, tem uma curiosidade bastante aguçada pela cultura pop no geral.

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