O próximo passo da evolução

O próximo passo da evolução

Há quem diga que o primeiro filme da série X-Men, lançado em 2000, foi o início da renascença super-heróica. A partir dali, a indústria cinematográfica voltou a perceber o potencial dessa categoria de personagem, depois do fiasco retumbante da vergonha criada por Joel Schumacher em 1997, “Batman e Robin”.

Muita água passou por baixo dessa ponte, são 14 anos desde lá e Bryan Singer, que dirigiu a primeira vez dos mutantes na telona, está de volta. E “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, é um retorno de respeito.

Nos gibis é muito comum usar o subterfúgio da viagem no tempo e/ou eventos cataclísmicos universais para recriar a realidade e acertar o rumo da narrativa. Singer, nerd confesso que é, sabe disso e faz uso dessa ferramenta lindamente nesse novo filme, limpando as bobagens feitas nos horríveis “X-Men: O Confronto Final” e “X-Men Origens: Wolverine”, usando o que de bom foi feito em “X-Men: Primeira Classe” e ainda preparando o terreno para mudar os atores de personagens-chave, como Jean Grey e Ciclope.

Dias de um futuro passado

Como o título diz, esta produção é baseada na clássica história publicada em 1981 nas edições 141 e 142 de “The Uncanny X-Men”. Produzidas pelo dream team John Byrne e Chris Claremont, Dias de um Futuro Passado é uma das referências em HQs da década de 1980, contando a trajetória de Kitty Pryde tendo sua consciência projetada ao passado para alterar seu presente, que era um futuro distópico em que os robôs chamados Sentinelas dominaram o planeta e exterminaram os mutantes.

No filme, quem tem a consciência projetada é Wolverine. Nada mais óbvio, afinal o herói interpretado por Hugh Jackman é a grande estrela da série cinematográfica da Fox. Mas chama atenção o quanto o filme é similar ao gibi. Antes de escrever esse texto tive o cuidado de reler a HQ e também de assistir a versão do desenho animado dos X-Men da década de 1990. E o filme é muito fiel ao material original.

Evidente que não seria possível fazer uma adaptação exata por conta da cronologia já criada no cinema. Mas as referências, inclusive visuais, são nítidas e mostram o cuidado que Singer tem com essa franquia.

Mas o que chama atenção verdadeiramente é que este não é um filme tradicional de super-herói. “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” é a evolução da espécie, assim como os mutantes são o próximo passo evolutivo da Humanidade.

O filme pode ser lido como uma imensa metáfora sobre a luta pelos direitos das minorias. Há quem diga que a minoria em questão são os gays, pelo fato de Bryan Singer ser homossexual. Mas não acredito que esse seja o caso. Qualquer grupo discriminado e que se coloca na sociedade dominante, questionando o status quo, já se deparou com a dúvida se o caminho a seguir é a integração ou a ruptura.

Esse é a verdadeira discussão posta por essa produção. E ela dá uma resposta, que não é spoiler, já que a parceria entre Xavier e Magneto é declarada em todos os trailers. Em termos filosóficos, a briga colocada é entre o pessimismo e a esperança, que surgem e desaparecem nos arcos dramáticos de praticamente todas as personagens principais.

Dizendo assim, pode parecer que não há ação e tudo se passa em discussões em torno de mesas de chá. Evidente que não é o caso. Há muita movimentação e, o uso dos efeitos especiais, é ótimo. Uma cena especificamente faz valer o ingresso: Mercúrio auxiliando Magneto a sair da cadeia. Uau! Fazia tempo que os superpoderes não tinham uma representação visual tão impressionante.

E é de se destacar também a construção de época feita pelo filme, que se passa na década de 1970, e a integração com a História real, já iniciada em “Primeira Classe”. Nisso, a Fox vai além até do que a Marvel Studios, que criou um mundo a parte para os seus Vingadores. Aqui, o estúdio se arrisca para conquistar a verossimilhança tão cara à Marvel nos quadrinhos, colocando seus mutantes para viver a vida de todo mundo do “mundo real”.

Grandes atores melhoram tudo

O roteiro é extremamente bem amarrado, mas com tantos atores, interpretando tantos papéis, seria fácil se perder. Mas aí o talento de gente do calibre de sir Ian McKellen, Patrick Stewart, Michael Fassbender e James McAvoy se sobressai e salva o dia. Stewart e McKellen não têm tanto tempo de tela, mas suas aparições são precisas e as atuações que entregam mostram o porquê de estarem nessa brincadeira há tanto tempo e com tanto sucesso.

Suas contrapartes jovens não ficam atrás. McAvoy consegue passar da melancolia ao mais puro heroísmo, andando ou como cadeirante, com uma força impressionante. E Fassbender é o mais puro charme e precisão nas expressões faciais. Um vilão que amamos odiar ou um anti-herói que desejamos amar? Deixo a resposta a quem assistir, mas digo que todos podem ser trocados na sequência (que já está assinalada pela indefectível cena pós-creditos), mas se houver Magneto, Michael Fassbender é o cara. E mais ninguém.

Do ponto de vista quadrinístico, este é, provavelmente, um dos filmes mais próximos dos gibis que vi nos últimos tempos. Viagem no tempo, retcons* e tabula rasa para continuar a história livremente, sem o peso de narrativas ruins anteriores. Nada mais gibi de super-herói do que isso.

Mas, ao mesmo tempo, é um filme ótimo, com reflexões para além da porradaria sem cérebro. É entretenimento consciente, para quem quiser ver além do que é dado na primeira vista. Metáforas… como Stan Lee, marotamente, sempre fez.

Os mutantes agora tem caminho livre para enfrentar um de seus maiores inimigos, no que pode levar a uma era do Apocalipse em 2016. Mas, se levarmos em consideração o que isso foi nos gibis, não significa, necessariamente que teremos um bom filme. Porém, se a base for este “Dias de um Futuro Esquecido”, os fãs podem ficar tranquilos, porque o padrão será bem alto.

*Retcon: Continuidade Retroativa, um recurso muito usado em HQs em que fatos passados são reestruturados e fatos são acrescentados ou excluídos para melhor adequar a narrativa a uma nova condição da história que se pretende contar.

Nerd oldschool, gamer de primeira geração. Levou a vida de gibi tão a sério que até mestrado sobre o assunto fez. Além de uma tatuagem do Superman. Na vida real é empresário (www.evcom.com.br) e professor universitário (www.faap.br).

2 Comentários

  1. […] todo, sem separação por gênero, raça ou sexo. Fica a questão, debatida recentemente no filme X-Men: Dias de um Futuro Esquecido: “Estamos realmente destinados a nos destruir? Ou podemos mudar quem somos e nos […]

  2. […] todo, sem separação por gênero, raça ou sexo. Fica a questão, debatida recentemente no filme X-Men: Dias de um Futuro Esquecido: “Estamos realmente destinados a nos destruir? Ou podemos mudar quem somos e nos […]

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